sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Memórias em 35mm., por Guilherme Assis


Memórias em 35mm

Por Guilherme Assis
jornalismo.assis@gmail.com
        
A cultura audiovisual substituída pelo comércio. O que antes era cine hoje é história. Um cinema de Niemeyer, um destombado, vários pornôs. A memória de um cinéfilo de Boquim. A história das histórias das salas de Brasília e de Aracaju

A sala é escura. Uma tela matte white para projeção da película. Aos poucos as cadeiras são ocupadas. Casais se abraçam, viúvas observam os pombinhos como se lembrassem uma época em que isso era comum para elas. Ao fundo, os mais discretos ou os que sabem que, lá de trás, podem ver muito mais (até a nuca dos outros espectadores). Nas fileiras da frente, os atrasados. De pé, só o lanterninha.

Depois de inúmeras propagandas do patrocinador, começa o filme. Tudo como em todas as outras salas. A quadra é a 106 Sul em Brasília e o projetor digital, caríssimo, em janeiro de 2012 apresenta um clássico do dinamarquês Lars Von Trier. O filme é o que menos importa agora. Lá a sala também era escura.

A tela era uma preocupação. Na verdade, não a tela, e sim o que era projetado sobre ela. As legendas eram transmitidas ao contrário, pois a “cabine” de projeção era atrás do grande tecido branco e não na frente, como é comum hoje. Além de prestar atenção nas cenas, o espectador tinha de inverter as traduções das falas do galã e da mocinha. Era em uma das ruas do centro comercial de Aracaju, Teatro Carlos Gomes.

Numa noite quente de 1899, um filme num rolo de 18 metros, de título desconhecido ou perdido no tempo, foi o primeiro a ser apresentado para os sergipanos. Apenas quatro anos antes, alemães e franceses faziam as primeiras sessões no Velho Continente. Sergipe está na avant-garde.

O Cine Brasília ainda é conhecido por sediar o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro – agora está em obras. Com 607 (outrora) belas poltronas acolchoadas e em tom pastel, o local também atrai o público com circuitos internacionais de cinema de arte. Ocasionalmente traz algum crítico ou especialista e, em palestras, o espectador entende mais a linguagem do cineasta homenageado. A maioria das sessões é gratuita – as pagas custam R$ 6. O arquiteto da construção foi o imortal Oscar Niemeyer.

O antigo Cine Rio Branco hoje é uma loja de móveis no centro comercial de Aracaju. Foi fundado em 1904 por Juca Barreto. Antes, levava o nome de Teatro Carlos Gomes. Lá, eram apresentados peças e filmes, mas, cinco anos depois, virou somente cinema. “Ô lugar pra ter viado”, relata Claudemir, taxista na capital desde 1990. “Eu era mais novo e ia às sessões pra adulto, sabe? Pornô.” Claudemir apresenta o quadro comum a vários cinemas no centro das cidades. Com o passar do tempo, a multiplicação dos multiplex, a TV a cabo, o DVD, a internet, talvez a única forma de atrair espectadores para os cinemas de rua fosse exibindo sexo nas telas. Às vezes, fora dela. O Cine Rio Branco virou ponto de encontro sexual. “Tu tava vendo o filme e o baitola colocava a mão no teu p…!”, embrutece o taxista.

Em 1976, foi comprado um ar-condicionado para a sala de cinema isolada em meio aos prédios da Asa Sul. A partir daí, o público cresceu. “Parece que antes as sessões não tinham muita gente, quando colocaram o ar-condicionado o pessoal gostou”, conta o aposentado José Bandeira, frequentador do Cine Brasília desde aquele ano.

O Cine Rio Branco ficava próximo ao Edifício Maria Feliciana, antigo maior prédio do Nordeste, com 26 andares. A partir de 1945, ocasionalmente, a sala era ocupada por membros de partidos políticos para reuniões. A cultura era substituída pela política. Outro detalhe interessante: o Rio Branco foi o primeiro monumento brasileiro destombado. Quem explica é Ivan Valença, de 59 anos, crítico de cinema e historiador da cidade. “A revogação de tombamento foi requerida pelos proprietários em 1991. Queriam vender o imóvel.” O processo jurídico pedia que fosse retirado do prédio o título e, pelas palavras do proprietário, Luiz Barreto (filho do fundador), fosse preservada apenas a “memória do cinema” – não o local.

De 18 de dezembro de 1991 a 26 de março de 1998 desenrolou-se, em Aracaju, um teatro jurídico. De um lado, segundo a peça cedida por Ivan, “o estado passava por sérias condições financeiras e não tinha interesse de adquirir o cinema”. Do outro, o comércio imobiliário gritava pelo retorno do prédio a quem queria vendê-lo imediatamente. Em 1998, saiu no Diário Oficial do Estado: “São expedidos ofícios aos proprietários do imóvel, encaminhando cópia do decreto e certidão que invalida o tombamento do Cine Rio Branco”. Sergipe perdia não apenas o cinema mais antigo do Brasil em funcionamento contínuo, mas a valorização cultural.

Missão social

Fui ao fundo do baú cultural para encontrar histórias sobre cinemas de Brasília. Fui também a Aracaju para mostrar um dos vários pedaços do Brasil que perderam completamente os tradicionais cinemas de rua. Boquim, município do interior de Sergipe, é outro palco de história neste texto. Aqui em Brasília, a maior renda per capita do País. Acolá, uma cidade nordestina até a raiz da macaxeira que vira farinha para o povo comer. Um povo que se agrada com quem se preocupa com essa cultura. Brasília tem mais de 70 salas de cinema. Aracaju, apenas 14.

Aqui, um prédio no centro de Taguatinga, famoso por ser uma das primeiras construções de alvenaria da cidade, foi casa do Cine Paranoá. Lá era festa! Alunos saíam mais cedo do colégio e trocavam os uniformes por camisetas.

Tudo para burlar a entrada, que era fiscalizada. O cinema contava com uma sala de espera ampla, com grandes sofás confortáveis revestidos em couro. Logo ao centro do salão principal, um platô com expositores e fotos dos filmes que seriam exibidos, segundo a administração da cidade.

A primeira exibição no local, o filme Hércules de Tebas (Giorgio Ferroni, 1964, Mark Forest como Hércules). Anos depois, viraria ponto de encontro para quem procurava sexo. De Hércules a Dionísio. Mais tarde se tornou uma igreja. Ou melhor, duas. O prédio, que hoje se chama Paranoá Center, já foi palco para pastores da Igreja da Graça de Deus e da Igreja Mundial do Poder de Deus, ambas com relações indiretas com a Igreja Universal, conhecida por fechar vários cinemas e construir templos exuberantes.

Acolá, no centro de Aracaju, próximo ao porto da Barra dos Coqueiros, havia o Cine Palace, considerado o mais luxuoso da cidade. A inauguração foi em 1º de janeiro de 1956. Os 850 lugares ficaram lotados de gente que queria conhecer a tecnologia do Cinemascope, à época um processo novo. Ivan Valença conta o fim do Palace. “Aracaju tem uma característica estranha: costuma queimar etapas no desenvolvimento, passar batido por fases que em cidades mais estruturadas são inevitáveis e servem para preparar o mercado.

O fim do Cine Palace mostrou o que era futuro e já é o presente dos cinemas em todo o mundo: apenas partes de shopping centers, mais chamarizes de público para lojas e lanchonetes.” A última exibição no Palace, em 1996, foi Prazer de matar, com Antonio Banderas e Victoria Abril. Hoje é uma esquina chamada Center Palace onde funcionam salas comerciais. O Cine Drive-In, outro pioneiro na capital brasileira, é um cinema à moda norte-americana.

Desde 1973 no Planalto Central, próximo à Esplanada dos Ministérios, mais precisamente numa área do Autódromo Nelson Piquet, mantém a tradição dos cinemas para carros. Recebia mais de 500 carros de estudantes da UnB, casais de idosos, cinéfilos e demais frequentadores do cinema ao ar livre, como é chamado. O detalhe? Esse cinema é o último no gênero do Brasil, segundo a Filme B. De volta a Aracaju, o Cine Vitória. Inaugurado em 1943 por João Moreira Lima com o filme.

E as luzes brilharão outra vez, o cinema ficava no Edifício Pio XI, na rua Itabaianinha – próximo ao mercado de artesanato. Tinha 1,2 mil poltronas e durou 40 anos. Em 1973 foi arrendado e passou a depender de donos que não faziam gestão alguma do local. Lima, o fundador, temia o fechamento. Em 1982 enviou uma carta ao presidente João Figueiredo. Em quinze parágrafos, Lima, que também dirigia o Cine Vera Cruz, recorreu, em súplicas, ao poder máximo do Executivo, na tentativa de manter na cidade uma sala histórica, onde rodaram filmes como Sansão e Dalila, Quo vadis, Ivanhoé, A roda da fortuna, Cantando na chuva. Trecho da carta dizia:

“Senhor presidente, minhas dificuldades na direção dos cinemas começaram há uns dez anos. Eu completava 30 anos na direção destes cinemas que obedeciam orientação católica. Havia, no Brasil, quase uma centena de cinemas com esta mesma orientação. O primeiro impacto que ocorreu foi com o extinto Instituto Nacional do Cinema. O Cine Vitória foi multado porque não encontrava, no mercado, filmes nacionais próprios para os nossos cinemas. A Lei determinava 100 dias anuais para exibição obrigatória de produção brasileira. Recorri, mas não valeram as explicações [...] Não tive direito a voz, apesar de ir representando os exibidores de Sergipe, todos atingidos pelos filmes nacionais de péssimas qualidades”.

Moreira Lima tentou, mas a sala foi vendida ao Banco do Nordeste por 150 milhões de cruzeiros em 1984. 

Sapateiro e cinéfilo

Nosso próximo personagem não é um cinema. Encontrei numa das ruas de paralelepípedo de Boquim o cinéfilo Heró Sapateiro. Antes de achar essa figura folclórica conversei com Luiz, filho de Antônio do Cinema. Antônio era o dono das antigas salas da cidade.

Luiz não sabia falar sobre o patrimônio do pai, apenas a data de inauguração e o número de poltronas: 1960 e “350 acolchoadas com 100 de madeira”. Se era para falar do cinema, do glamour, dos filmes, Heró, “que mora na Rua dos Correios”. No interior de Sergipe e em grande parte do Nordeste é assim mesmo. Todo mundo se conhece e sabe onde mora. Atravesso a rua da casa de Luiz e encontro a tal Rua dos Correios.

Heró não estava na casa, mas arrisquei perguntar para alguns jovens que jogavam dominó na calçada. “Seu Heró acabou de descer a rua de bicicleta, foi à casa de Miguel”, responde um deles. Desço a rua e encontro um senhor sentado numa cadeira de bambu ao lado de um amigo.

Os óculos ao estilo Woody Allen já me deixaram com boas expectativas, apesar do abadá em contraste. Heró é sergipano simples em palavras e nível cultural imensurável. Começa a me contar suas experiências do Cine Santo Antônio. “Se me perguntarem qual o primeiro filme que vi, respondo que

‘O Cine Santo Antônio Foi inaugurado em dez de março de mil novecentos e sessenta O primeiro filme foi Torturado pela angústia O segundo, Em cada coração uma saudade Terceiro: A carrocinha com Mazzaroppi Quarto: Curuçu, o terror do Amazonas [...]’

Aí o cabra diz: Meu fi, já chega. Precisa falar mais nada, não.” A mente decorou em versos os primeiros filmes. Dá uma gargalhada, orgulhoso das lembranças. Só nesse momento entendo que me deparei com um homem-memória, talvez a maior personalidade da cidade. Heró continua a me contar sobre suas experiências no lazer, considerado por ele, mais importante da cidade.

Como é de praxe levar a paquera para assistir a um bom filme, no escurinho que só o cinema proporciona, pergunto: “Heró, e as namorada?”, sem plural mesmo, como é aceitável. Lembra com prazer não de uma, mas quatro namoradas. E, com vergonha, lembra quando as quatro foram ao cinema no mesmo dia. “Primeiro eu ia encontrar uma, né? Não sou besta. Quando vi a outra entrando, me enrolei na cortina. Vai dar problema. Nesse dia eu saí e não vi filme. Parece que adivinharam”, ri. “Nessa época tinha 27 anos.”

Interrompe o assunto das namoradas para me fazer uma pergunta de que se envaidece de sempre saber a resposta: “Meu filho, sabe o ator de Planeta dos Macaco?”, agora é ele sem plural. “Essa eu pulo, Heró.” “Charlton Heston”, diz, enquanto aperta os olhos e abre um sorriso que quase encosta nas orelhas.

Heró revela um repertório para mim ainda desconhecido. “Salomão e a Rainha de Sabá, com Yul Brynner e Gina Lollobrigida. Rômulo e Remo, com Steve Reeves…”, enumera, meneando a cabeça como se eu soubesse do que ele estava falando com sotaque sergipano carregado, que só entendi plenamente com a ajuda da minha mãe (sergipana) e do Google.

“ Mazzaroppi, o vendedor de linguiça, Conde Drácula, Guerra dos mundos…”, quando ia fazer uma lista de outros filmes que viu, pausa a voz, arregala o olho, fita meu gravador e me surpreende: “Você tá me entrevistando, é?”, questiona, aos 15 minutos de entrevista. Heró esbanja a pura simplicidade característica de seu povo nordestino. “Vai pra Recór?”, Miguel, o amigo banguela que o acompanha, me pergunta. Continuo sorridente.

Voltando ao filme do Drácula, pergunto: “O Drácula era o Bela Lugosi?” “Não, rapaz”, me repreende. “Era Christopher Lee”, corrige. Depois lembro que O Drácula de Lugosi foi feito em 1931. O Drácula de Lee, em 1958.

Com 63 anos de experiência, Heró diz que um espaço para exibição de filmes na cidade faz muita falta. Os olhos se enchem de lágrimas ao explicar que, além de se divertir, fazia muitas amizades após as sessões. “Queria muito o cinema de volta. Queria muito.”

“A morte comanda o cangaço, com Alberto Ruschel. A lei do sertão, com Maurício Morey. O cabeleira, com Milton Ribeiro. Arara vermelha, com Milton Ribeiro também. A lei do cão, com Paulo Frederico e Jece Valadão. Obsessão, Jece Valadão e Edson França. Bonitinha, mas ordinária, com Jece Valadão. Paixão de um homem, com Valdick Soriano.
O poderoso garanhão, com Valdick Soriano…” Heró é enciclopédia oral de cinema brasileiro. E o apelido Heró não está ligado aos filmes eróticos, como meu preconceito achava. O homem é um amante do cinema.

“Você sabe quem era o ator de Ben-Hur?”, lá vem o velho novamente com seu questionário, quase um Show do Milhão sobre filmes. “Ih, não sei, Heró.” “Charlton Heston”, sorri novamente.

Heró menciona ainda as belas atrizes que venerava: “Brigitte Bardot, Sophia Loren, Gina Lollobrigida…” Ia continuar a lista, se lembra de algo importante e solta outra pergunta: “Já assistiu a Moscou contra 007, rapaz?” Imagino que o protagonista poderia ser mais uma vez o tal do Charlton Heston, mas algo me diz pra ficar calado. “Sean Connery”, revela. Alívio.

E as salas, onde estão?

Boquim fica a 88 quilômetros da capital. Lá havia três cinemas. Todos do mesmo dono. Consultada, a Prefeitura de Boquim informou que um desses cinemas ainda existe.

Na verdade o que existe é apenas um memorial feito para guardar algumas peças antigas do Cine Santo Antônio, onde, ocasionalmente, são apresentados alguns filmes. De fato existe o
antigo prédio e, por insistência (12 e-mails e oito ligações), consegui autorização para fotografar o último projetor utilizado por Antônio do Cinema.

Departamentos da Universidade Federal de Sergipe, contatos na Secretaria de Cultura, na prefeitura. Nenhuma informação. Lá é comum motorista não parar na faixa de pedestre, motoqueiro não usar capacete. É comum departamentos públicos não funcionarem na sexta-feira. É comum “essa gente” não responder a e-mail, afirma Pablo José, jornalista que conheci num ponto de ônibus.

De volta a Aracaju, conversei com Isaac Galvão, diretor do Centro de Criatividade da capital.

O órgão em que trabalha é responsável por organizar, direcionar e realizar metas para o ramo audiovisual na capital. “De Brasília, é? Pra qual jornal?” A pergunta só veio depois que ele percebeu que a entrevista não era por e-mail, mas ao vivo.

É minha vez de questionar: “E as salas de cinema de rua que não funcionam mais?” “Pois é! Não tem nenhuma e talvez nem no estado todo. Só em shopping mesmo, e é caro”, assume. “A gente tem um projeto bom aqui, rapaz, deixa eu achar pra você.” Isaac encontra um folder na gaveta.

O título do material é: Projeto Orlando Vieira, 80 anos. Existe de fato trabalho produzido naquele setor, mas nada de relevância em relação às poucas salas de cinema além shopping.

Ele me explica que há uma verba destinada para 2013 que será utilizada para reabrir um cinema na Rua do Turista, em
Aracaju. “Agora, sim, serão sessões voltadas para cultura, e não comércio”, afirma, ao reforçar que as sessões serão gratuitas.

Muita grana, pouco investimento

Existe um projeto do Ministério da Cultura chamado Cinema Perto de Você. Instituído pela Lei 12.599, de 2012, o programa oferece capital para os empreendedores. Esse projeto atenderá, prioritariamente, aos nada menos de 92% dos municípios brasileiros que não têm nenhuma sala de projeção. Boquim poderá ser uma delas. Aracaju, por ser capital, também será beneficiada. Brasília, provavelmente.

O necessário para a instalação de uma nova sala é apenas um empresário interessado concorrer ao edital. O Cinema Perto de Você direcionará mais de R$ 500 milhões para abertura de salas em todo o território nacional. Isaac Galvão, o diretor, nunca tinha ouvido falar no assunto.

O projeto tenta corrigir um paradoxo da indústria exibidora nacional. Segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a renda de bilheteria dos filmes estrangeiros exibidos no Brasil foi de R$ 1,27 bilhão em 2011.

Há, sem dúvida, crescimento do número de ingressos vendidos ano após ano. O problema é que grande parte desse dinheiro circula apenas nos grandes empreendimentos comerciais cinematográficos, como Severiano Ribeiro, Cinemark, Cinematográfica Araújo, Rede Arco- Íris, United Cinemas Internacional Brasil.

De todo esse valor produzido, não há interesse para investimento em cidades do Nordeste e de outros recantos do País onde não há sequer projetor de filmes.

Pedro Butcher, analista e especialista em cinema da agência Filme B, apresenta um quadro desproporcional aos valores altíssimos produzidos pela indústria audiovisual: “As salas de cinema no Brasil não são suficientes. O índice de habitantes por sala do País (uma sala para cada 82 mil habitantes) é considerado um dos mais baixos do mundo”.

Butcher concorda que haja enorme desigualdade na localização de cinemas, mas aponta um futuro promissor. “Há também muita concentração no Sudeste (reproduzindo a concentração de renda do País) e, nos estados do Nordeste, os cinemas estão bastante concentrados nas capitais.

No entanto, nos últimos dois anos começaram a ser abertos cinemas em cidades do interior (Feira de Santana, Caruaru) com resultados expressivos. E há expectativa de crescimento em cidades de médio porte.”

No mercado cinematográfico, o Brasil é um dos países mais importantes do mundo[apenas considerando fatores mercadológicos]. Porém, como é visível em outras estruturas socioculturais do País, existe contraste gritante a respeito de investimento onde ainda não há cinema. São 5.565 municípios. Apenas 445 têm salas de projeção.

Vladimir Carvalho, cineasta paraibano, autor de 22 filmes, documentarista e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), opina sobre a tendência mercadológica predominante. “O cinema norte-americano domina os grandes complexos, o que tira o espaço dos cineastas brasileiros. Infelizmente essas empresas dão preferência ao grande circuito hollywoodiano.”

Sobre o Cinema Perto de Você, ele vê como “um começo, porém um começo mal divulgado. Poucos empresários conhecem. Acima de tudo, poucos empresários gostariam de competir com a hegemonia dos shoppings”.

Este texto faz parte do Prêmio Meiaum para Futuros Jornalistas. Reportagem originalmente publicada em 2012 na Jenipapo, revista do curso de comunicação social da Universidade Católica de Brasília, sob orientação da professora Karina Barbosa.

Texto reproduzido do site: meiaum.com.br

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Crítica do filme: “Quanto Mais Quente Melhor”

Imagem - Divulgação, postada pelo blog 
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no site CRÍTICO, em 07.02.2003

Crítica do filme: “Quanto Mais Quente Melhor”

Por Fernando Albagli

"Ninguém é perfeito!"

A frase final que ficou famosa falada por Joe E. Brown (no Brasil apelidado carinhosamente de Boca-Larga) não define, absolutamente, Billy Wilder neste filme. Ele está perfeito. Como diretor, produtor e roteirista.

Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot), na carreira do pequenino judeu austríaco, é como um lado da moeda em que o outro é Crepúsculo dos Deuses. Uma das maiores comédias – o American Film Institute a aponta como a maior – e um dos maiores dramas do cinema americano. Ambos tratam de Hollywood. No drama, explicitamente: Sunset Boulevard, astros do cinema mudo interpretando astros do cinema mudo, um jovem roteirista e uma velha estrela, Cecil B. DeMille em pessoa. Na comédia como referência às grandes screwballs (comédias malucas) de várias épocas: alguma coisa de Keaton, alguma coisa dos Marx, alguma coisa de Hawks, tudo de Wilder.

Quanto Mais Quente Melhor começa como um típico filme de gângster – Lei Seca, anos 1920, Chicago. Dois músicos desempregados – Joe (Curtis) e Jerry (Lemmon) – assistem, numa garagem, ao célebre massacre do Dia de São Valentino.

Fugindo dos assassinos da quadrilha de Spats Columbo (Raft), que querem eliminar as incômodas testemunhas, os dois se travestem como componentes da banda feminina de Sweet Sue (Shawlee), transformando-se em Josephine e Daphne. E viajam com ela para a Flórida.

Os protagonistas são Curtis e Lemmon. Mas o filme só se define com a entrada de Marilyn Monroe (Sugar Kane), a crooner e tocadora de ukelele da banda. Revela, então, seu verdadeiro tema. Inspirada numa antiga farsa alemã - Fanfaren der Liebe - é uma comédia sobre sexo. E sobre os sexos.

Joe / Josephine se apaixona por Sugar. O milionário Osgood E. Fielding III (Brown), casado e divorciado sete vezes, se apaixona por Daphne / Jerry. Sugar se interessa por Joe, quando ele imita a sofisticação de Cary Grant e ela pensa que ele é um ricaço.

E o amor sempre vence. Os dois casais (?!) terminam felizes.

Com certeza a melhor comédia de homens travestidos, demonstra também a habilidade de Wilder em transformar a idéia de uma só piada num filme de duas horas. Sem se repetir, beirando sempre o absurdo sem nunca cair nele, num misto de irreverência e inocência.

Farsa total, mesmo nos momentos que poderiam ser românticos, como no encontro de Tony e Marilyn no iate, Quanto Mais Quente Melhor tem grandes achados no roteiro e pérolas nos diálogos. Mas, principalmente, é conduzido pela mão leve do diretor e se afirma nas interpretações. Curtis e Lemmon muito à vontade, Marilyn entre ingênua e sedutora, sensualíssima quando canta, elenco de apoio excelente.

As frases de humor, às vezes sutis, às vezes óbvias, são sempre muito bem colocadas e pronunciadas num timing perfeito, como se exige dos melhores comediantes. Basta lembrar Lemmon comentando com Curtis a primeira entrada de Marilyn, na plataforma da estação, andando à frente deles: "Olha como ela se mexe. Parece uma gelatina sobre molas".

É curioso lembrar que a primeira opção para a dupla masculina era Danny Kaye / Bob Hope e, mesmo quando descartada, Wilder queria Frank Sinatra e Mitzi Gaynor, em lugar de Lemmon e Monroe. Hesitava, particularmente, em trabalhar outra vez com Marilyn (tinha feito com ela O Pecado Mora ao Lado) e são famosos os artifícios que precisou usar para que ela não se esquecesse do texto.

O filme concorreu aos Oscars nas categorias de Diretor, Ator (Lemmon), Fotografia, Roteiro adaptado, Direção de arte e Figurinos, ganhando nesta última.

Ainda engraçadíssimo 43 anos depois, Quanto Mais Quente Melhor entrou definitivamente para a relação dos clássicos.

Texto reproduzido do site: criticos.com.br

Filme: "Quanto Mais Quente Melhor" (1959), de Billy Wilder









sábado, 12 de janeiro de 2019

Crítica do filme: "Mary Poppins"

Imagem divulgação - postada pelo blog

Texto publicado originalmente no site OVEST, em 4 de novembro de 2017 

Crítica | Mary Poppins (1964)
Por Thiago Ranieri  
   
Mary Poppins era muito vaidosa e gostava de estar vestida sempre da melhor maneira possível. Assim, ela tinha a certeza de nunca se parecer com nenhuma outra pessoa.

Em 1934, a escritora australiana Pamela Lyndon Travers (ou P.L. Travers) lançou o primeiro de uma série de oito livros infanto-juvenis chamado Mary Poppins. A história se passava em Londres e tinha como protagonista uma babá mágica inglesa, que se responsabilizava pelas crianças da família Banks. As filhas do visionário Walt Disney amaram a história, o incentivando a trazê-la para os cinemas. O longa de mesmo nome estreou em 1964, porém a batalha foi árdua para convencer Travers a lhe dar os direitos de sua história. Ela finalmente cedeu no começo da década de 1960, quando os livros não vendiam tanto como antes. Mesmo assim, a escritora sempre reclamava de algo (tanto que a realidade da produção foi adaptada para o filme Walt Disney nos Bastidores de Mary Poppins, com Tom Hanks e Emma Thompson). Travers odiou o resultado, entretanto, Mary Poppins foi um sucesso estrondoso de crítica e bilheteria. E muitos o consideram como o melhor live-action da Walt Disney Pictures.

A babá na versão de Travers era muito mais fria, e isso com certeza não iria encantar os espectadores (ainda mais sendo um lançamento dos estúdios Disney). Bert pouco aparece nos livros e substitui outros personagens que foram cortados. Essas mudanças, propostas por Walt Disney e o trio Robert Stevenson (um dos diretores mais famosos da Disney na época, vindo de sucessos como O Diabólico Agente D.C. e O Fantástico Super-Homem), Bill Walsh  e Don DaGradi ajudaram bastante a melhorar a história.

O ano é 1910. George Banks (David Tomlinson) e sua esposa querem contratar uma nova babá para seus filhos,  Michael e Jane (Matthew Garber e Karen Dotrice), após a última ter se demitido. Numa noite, enquanto escrevia um anúncio procurando uma nova profissional, as crianças lhe apresentam seu próprio anúncio apresentando as características de uma babá perfeita. A carta chega até a fantástica Mary Poppins (Julie Andrews), que junto de seu amigo Bert (Dick Van Dyke), fascinam os dois jovens com muita música e magia.

Supercalifragilisticexpialidoce
Sei que o som dessa palavra não é nada doce

Andrews ficou eternamente marcada no papel. Ela trouxe tudo que a personagem exigia e um pouco mais, ouso dizer. O talento musical dela é espetacular, e não é a toa que ela mostrou isto novamente ao público em A Noviça Rebelde (1965). Van Dyke é, ao meu ver, a melhor coisa do longa e se solta bastante nas cenas musicais. Ele também vive o velho Senhor Dawes (o antagonista), eu eu particularmente não o reconheci de tão bem que foi sua performance. David Tomlinson entrega a figura de um pai autoritário com maestria e facilidade (visto que ele já era um ator veterano).

A Spoonful Of Sugar, Feed the Birds e Supercalifragilisticexpialidocious são, ao meu ver, as melhores músicas. A última citada possui um nome complicado, mas depois que você assiste o filme, consegue dizê-la facilmente. Essas e muitas outras canções saíram da cabeça dos irmãos Richard e Robert Sherman. A combinação de desenho animado com live-action funcionou perfeitamente e naturalmente (algo que a autora também odiou). Quanto aos efeitos especiais, eles não envelheceram mal. A maior parte é bem convincente, e para aquela época então, eram de outro mundo.

Mary Poppins é um verdadeiro clássico atemporal. Estes 30 anos de trabalho (e brigas) para levá-lo às telas de cinema valeram muito a pena. Um resultado satisfatório para Walt Disney, que provou ser um gênio não só nas animações, mas também em filmes live-action.

Mary Poppins Mary Poppins – EUA, 1964, cor, 139 minutos.
Direção: Robert Stevenson. Roteiro: Bill Walsh, Don DaGradi (baseado no romance de P.L. Travers). Cinematografia: Wally Pfister. Edição: Cotton Warburton. Música: Richard M. Sherman, Robert B. Sherman e Irwin Kostal. Elenco: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns, Hermione Baddeley, Reta Shaw, Karen Dotrice, Matthew Garber, Elsa Lanchester.


Texto reproduzido do site: ovest.com.br

Filme: "Mary Poppins" (1964), de Robert Stevenson

















sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Crítica do filme: “Harry e Sally – Feitos um Para o Outro”


Crítica do filme: “Harry e Sally – Feitos um Para o Outro”

Por Renato Furtado

“Harry e Sally – Feitos um Para o Outro” não é um clássico das comédias românticas à toa. Todos os clichês estão lá: o casal que, a princípio, não consegue sequer aguentar a companhia um do outro; as dificuldades; as reviravoltas; a paixão; e os longos passeios repletos de diálogos ora espirituosos, ora sinceros, daqueles que vem de lá de dentro do coração. Por outro lado, o filme une a escrita de Nora Ephron, a direção de Rob Reiner e a performance de Meg Ryan.


Ephron, indicada três vezes ao Oscar, está para as comédias românticas populares assim como Woody Allen está para as comédias (frequentemente dramédias) românticas mais “intelectuais”. A cineasta é especialista em escrever linhas da forma mais natural possível e tem um olhar afiado, que captura relações românticas de uma maneira suave e cinematográfica sem nunca tirar o pé da realidade. Ela não insere subtramas ou piadas fáceis; portanto, não complica o material: seus roteiros são simples, diretos e concisos.

Levado à tela por Reiner, diretor subestimado, o material de Ephron ganha uma vida interessante. O cineasta (responsável pelo clássico oitentista “Conta Comigo” e o cult “Isto É Spinal Tap”) realiza intervenções interessantes e inteligentes (como a tela dividida no momento em que os protagonistas acompanham um filme juntos), que elevam a película e que raramente são feitas em um gênero já tão exaurido.

Por fim, Ryan é a mestra das comédias romântica. Ainda que sua carreira tenha sofrido certo declínio do início dos anos 2000 para cá, a atriz sabe muito bem o que fazer para cativar. Ela faz com que nos apaixonemos muito facilmente por suas personagens e desenvolve uma boa com Billy Crystal – algo que parece impossível na teoria; aliás, lamenta-se apenas que o par de Ryan não tenha sido Tom Hanks, com quem ela viria a contracenar diversas vezes, inclusive nos filmes de Ephron.

É a atuação conjunta desses três nomes que torna o longa em “algo mais”. Repleto de cenas icônicas (como a sequência do “orgasmo” no restaurante), “Harry e Sally” é uma obra consciente de suas limitações e, principalmente, de seus trunfos; um filme romanticamente realista e realisticamente romântico.

Texto reproduzido do site: cinema2manos.com

Filme: "Harry e Sally - Feitos Um para o Outro" (1989), de Rob Reiner















quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Resenha do filme: AVATAR

Imagem divulgação - postada pelo blog

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Por Ana Lucia Santana

James Cameron, diretor do ‘blockbuster’ Titanic, tece nas telas uma história arrebatadora, vibrante e muito atual. Quando em todo o Planeta a maior preocupação do Homem é a destruição crescente do meio ambiente, somada à distância cada vez maior da humanidade em relação às forças da Natureza, Avatar conquista um espaço fundamental no imaginário humano e também uma invejável coleção de indicações ao Oscar 2010.

Nesta requintada produção, que em termos de bilheteria já ultrapassou o ex-campeão Titanic, o diretor retrata a tentativa desesperada de dominar Pandora, um dos satélites do Planeta Polifemo – curioso perceber a escolha dos nomes destas esferas cósmicas, não por acaso originários da ancestral mitologia grega -, com o objetivo de extrair de seu solo os recursos naturais esgotados na Terra.

Próspera companhia multinacional, a RDA financia a permanência de equipes militares e de cientistas nesta esfera alienígena, de olho justamente nestas riquezas minerais, as quais detêm o potencial de gerar lucros colossais. Sob o comando do Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang, vivendo um vilão perfeito), fuzileiros navais se convertem em mercenários, lutando contra os humanóides que aí habitam, as tribos Na’vi.

Enquanto os humanos ambicionam o tesouro escondido nas florestas, os nativos se esforçam para manter a integridade de seu território, principalmente dos recantos sagrados, e a própria existência. Neste jogo estratégico, o ex-fuzileiro naval Jake Sully, representado por Sam Worthington, é uma peça fundamental.

Um mero soldado, ele se vê na iminência de substituir o irmão gêmeo, cientista morto recentemente, pouco antes de completar a experiência denominada Avatar. Como ambos têm o mesmo genoma, Jake é convidado para concluir este projeto, no qual um organismo geneticamente modificado, meio humano, meio humanóide, é produzido a partir do mapa genético do humano que lhe dá origem. Com este corpo é possível se relacionar com os nativos.

Confinado a uma cadeira de rodas e a uma esfera desconhecida, Jake é obrigado a enfrentar a hostilidade inicial da supervisora do projeto Avatar, Doutora Grace Augustine, a sempre genial Sigourney Weaver, e também os desafios quase intransponíveis de seu novo meio ambiente.

Acidentalmente, em uma de suas primeiras visitas ao território dos Na’vi, Jake fica preso na floresta, sendo assim obrigado a enfrentar uma terra perigosa e desconhecida. É quando ele conhece a nativa Neytiri (Zoë Saldaña), princesa do clã Omaticaya, filha de Mo'at, líder espiritual do clã, e de Eytucan, rei desta tribo.

Prestes a matá-lo, ela recebe uma revelação da divindade conhecida como Eywa ou a Grande Mãe, e o mantém vivo. Mais que isso, ele é conduzido até sua tribo e, com a aprovação de seus pais e da deusa, ele é apresentado a todos os costumes, hábitos, tradições, crenças e mistérios dos Na’vi. A partir deste momento, Jake se divide entre dois mundos – a lealdade que deve ao seu Coronel, a quem deve transmitir todas as suas descobertas, e a que o mantém cada vez mais ligado ao universo de Neytiri.

A tecnologia 3D, utilizada por James Cameron na elaboração deste filme, que também foi produzido em 2D, permite que não só o protagonista tenha a oportunidade de, gradualmente, descobrir os encantos e o verdadeiro significado do território na’vi, mas também o público, que é levado para dentro do cenário desta película, e tem assim a chance de aprender a ver o interior da floresta, e compreender, desta forma, o sentido real que os nativos atribuem a este local sagrado.

Cameron se preocupou com os mínimos detalhes da produção, construindo uma outra dimensão, um outro olhar, com o auxílio de câmeras confeccionadas especialmente para a realização desta obra, o que garante o verdadeiro espetáculo visual que compõe Avatar. Mas ele não se empenha apenas nestes aspectos tecnológicos. O diretor vai mais longe, e cria uma linguagem e uma cultura próprias dos humanóides.

Não é difícil, portanto, se deixar envolver pela magia deste filme, por seus encantos visíveis e invisíveis. Não é por acaso que ele ganhou o Globo de Ouro como melhor filme dramático e melhor diretor, e que está concorrendo em nove categorias no Oscar 2010. E não é só pela novidade da versão em 3D, pois os méritos do roteiro são incontáveis, e sua mensagem é certamente inquestionável e, mais que nunca, imprescindível.

Fontes:
Avatar. Direção: James Cameron. EUA/Inglaterra. Fox Filmes do Brasil, 2009, 166 min. Elenco: Sam Worthington, Zoë Saldaña, Sigourney Weaver.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Avatar_(filme)
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Texto reproduzido do site: infoescola.com

Bilheteria do filme 'Avatar', em 2010

James Cameron, acostumado a reinar nas bilheterias 
desde 'Titanic' de 1997, segura o Globo de Ouro
de melhor filme por 'Avatar'.  
Foto: AP/AP

Publicado originalmente no site G1 Globo, em 7 de fevereiro de 2010

Apesar dos recordes, 'Avatar' está longe de ser o filme mais visto do mundo

Em bilheterias, ele é o que mais vendeu no mundo e na América do Norte.

Mas 'E o vento levou', clássico de 39, é líder em número de espectadores.

Por Diego Assis
Do G1, em São Paulo

Maior bilheteria do cinema mundial, com US$ 2,08 bilhões acumulados até a última sexta-feira (5), "Avatar" já se consolidou como o novo marco comercial da indústria para este início de século XXI. Desde sua estreia, em dezembro de 2009, o épico futurista de James Cameron já coleciona uma série de recordes de desempenho e, na semana passada, tornou-se oficialmente o filme que mais arrecadou na América do Norte (EUA e Canadá) em todos os tempos, com US$ 606,5 milhões em ingressos vendidos na região até sexta. O recorde teve um gostinho especial para James Cameron: foi marcado em cima de outro de seus filmes, o gigante "Titanic", que permanecia intacto no trono desde 1998.

Os números são, de fato, impressionantes. Não é todo dia que um blockbuster rompe a barreira dos US$ 500 milhões nas bilheterias norte-americanas, ainda mais quando se trata de uma franquia totalmente inédita - sucessos mais recentes como "Batman - O cavaleiro das trevas" e "Shrek 2", por exemplo, tinham a seu favor o fato de já estarem no imaginário do público. Mas, quando se olha por outro ângulo, o do número de pessoas que efetivamente compraram seus ingressos e entraram em uma sala de cinema para assistir ao filme, "Avatar" está ainda a léguas de distância do campeão absoluto desde 1939, o clássico "E o vento levou". 

O principal motivo da distorção é fácil de entender: desde o início da tabulação do desempenho dos filmes no mercado norte-americano, sempre se contou os resultados em dólares arrecadados, nunca em tamanho de público, como se faz no Brasil, por exemplo. De acordo com o site especializado na indústria cinematográfica da região BoxOfficeMojo.com, simplesmente não há dados 100% seguros sobre número de espectadores de um filme neste que é certamente o maior mercado de cinema do mundo. O site, que é o mais confiável do setor, criou no entanto um método prático para se calcular o número aproximado de espectadores de um filme, dividindo-se o total arrecadado pelo preço unitário médio do ingresso na época do lançamento.

Ginástica matemática

Por meio desse cálculo, estima-se que cerca de 202 milhões de norte-americanos tenham visto "E o vento levou" quando o ingresso custava em média US$ 0,23. Na outra ponta, "apenas" 61 milhões de pessoas viram "Avatar" até agora na América do Norte. Justiça seja feita, o filme de Cameron está em cartaz há oito semanas, enquanto que "E o vento levou" foi exibido durante anos em sua versão original e teve pelo menos sete relançamentos. Ainda assim, se atualizarmos os US$ 0,23 do ingresso de 1939 para os US$ 7,61 de 2010, o clássico estrelado por Clark Gable estaria com  US$1,5 bilhão em bilheterias - só na América do Norte.

Cartaz original de 'E o vento levou', clássico com Clark Gable 
e Vivian Leigh, que sustenta há 70 anos 
o recorde de mais visto nos cinemas
Foto: Reprodução

Também em valores atualizados,  "Avatar" fica atrás de superproduções como "Star wars" e "E.T.", que ocupam a segunda e a quarta posições, respectivamente, e do próprio "Titanic", na sexta colocação.

Por fim, outro fator que contribui para dificultar as comparações entre o sucesso de  "Avatar" e o de outros blockbusters no passado está ligado a uma característica peculiar do primeiro: trata-se concretamente do primeiro grande lançamento a ocupar mais salas 3D e de tecnologia IMAX do que as tradicionais, e o preço do ingresso nessas instalações mais modernas também tende a variar para mais.

Segundo relatório do BoxOfficeMojo, 64% da renda de "Avatar" na América do Norte foi feita em salas 3D, 16% em IMAX e outros 19% em cinemas convencionais. Com preço médio de US$ 14,58, um ingresso de sala IMAX equivale a praticamente o dobro de um ingresso normal; o de uma sala 3D gira em torno de US$ 10.

Com isso, é compreensível que "Avatar" acumule cifras mais altas que "Titanic", por exemplo, mas que continue na 53ª posição em público estimado, contra o 6º lugar do drama romântico de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet.

Ducha de água fria?

Apesar de todas as ponderações necessárias, o desempenho comercial de "Avatar" na América do Norte e no mercado internacional continua impressionando mesmo os profissionais do setor.

"'Avatar' é um fenômeno. Não há a menor dúvida. Ele pode estar atrás de 'Titanic' ainda em termos de espectadores, mas 'Titanic' tinha um público mais amplo, que ia desde as garotas adolescentes até a terceira idade. 'Avatar' tem um público mais direcionado", opina Pedro Butcher, editor do Filme B, site brasileiro sobre o mercado de cinema do país.

Mistura de animação, 3D e live action: 
Sam Worthington em frente a seu 'avatar'
Foto: Divulgação

Por aqui, "Avatar" já acumula R$ 77,8 milhões arrecadados e um público de 7,2 milhões de espectadores, segundo dados de sexta-feira do Filme B. Para efeito de comparação, "A era do gelo 3", filme mais visto no país em 2009, rendeu R$ 81 milhões nas bilheterias e foi assistido por 9 milhões de brasileiros.

Segundo Butcher, talvez o principal feito de "Avatar" não esteja nos números mas em transformar o hábito dos cinéfilos no mundo todo. "'Avatar' é realmente um marco do cinema digital e 3D. O que acontece agora é que o próximo 'Harry Potter' e 'Fúria de titãs' serão convertidos em 3D. Se o lançamento tiver o mesmo público-alvo de 'Avatar' vai ficar estranho não sair também em 3D", conclui.

James Cameron, claro, sabe disso tudo há muito tempo e já promete, para breve, uma versão em 3D de "Titanic". De uma forma ou de outra, parece que o diretor megalômano vai continuar reinando no mundo do cinema por um bom tempo.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com

Filme: "AVATAR" (2009), de James Cameron