quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Crítica do filme: "Retratos da Vida"

 
 Imagem divulgação filme postada pelo blog

Texto publicado originalmente no site CINE PIPOCA CULT, em 01 de janeiro de 2011

Grandes Cenas: Retratos da Vida

Por Amanda Aouad *  

Fiquei pensando o que falar para vocês no primeiro dia do ano. Hoje é o marco zero das nossas esperanças, dia da Confraternização Universal. Por isso, lembrei da cena final do filme Retratos da Vida, que simboliza tudo isso e um pouco mais. O filme dirigido por Claude Lelouch, em 1981 conta a história de quatro famílias de quatro países diferentes (Estados Unidos, França, Alemanha e Rússia) durante a Segunda Guerra Mundial. Acompanhando a trajetória desses personagens, algumas gerações depois, na década de oitenta, representantes de cada uma das famílias são reunidos em um grande concerto pela paz, embaixo da Torre Eiffel, promovido pela Cruz Vermelha.

Ao som de O Bolero de Ravel, bailarinos, cantores, músicos e maestro se reúnem para celebrar a vida. Na plateia outros personagens daquela história, assim como a repórter que cobre o evento e outros que assistem pela televisão. Acho que é o final de filme mais emblemático que tenho lembranças. Forte, emocionante, significativo. Destaque ainda para aparição quase relâmpago de Sharon Stone como a moça ao lado de James Caan no quarto do hotel. Essa figuração foi a primeira participação da atriz no cinema.

Jorge Donn é a maior estrela do número, dançando o Bolero de uma forma incrível e marcante. Seu corpo segue o compasso da música. Agora, a voz de Geraldine Chaplin também merece destaque, dando um charme a mais na execução da obra, acompanhada do timbre de Manuel Gélin numa belíssima performance.

Em termos de direção, construção de cena ou roteiro há pouco a se analisar. A música rege a cena, a câmera apenas busca registrar as expressões de cada personagem e a composição geral do evento, dando a dimensão exata do que aquilo representa. Melhor ficarem com a cena. E que 2011 chegue em grande estilo.

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* Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutoranda em Comunicação e Cultura Contemporânea (Poscom / UFBA), especialista em Cinema pela UCSal, roteirista do núcleo TV Show e dos curtas "Ponto de Interrogação" e "Dia de Cão", além da equipe de roteiristas de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora de Audiovisual, tendo experiência como RTVC e Assistente de Direção.

Texto reproduzidos do site: cinepipocacult.com.br

Filme: "Retratos da Vida" (1981), de Claude Lelouch








segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Bernardo Bertolucci, cineasta italiano, morre aos 77 anos

O cineasta italiano Bernardo Bertolucci, presidente
 do júri da competição oficial, chega ao tapete
 vermelho do 70º Festival de Veneza, em 2013 
Foto: Tiziana Fabi/AFP Photo 

Publicado originalmente no site G1 GLOBO, em 26/11/2018

Bernardo Bertolucci, cineasta italiano, morre aos 77 anos

Diretor do polêmico 'O último tango em Paris' (1972), 'O último imperador' (1897) e 'Os sonhadores' (2003) morreu em Roma. Imprensa italiana cita 'longa doença', mas causa da morte não foi revelada.

Por G1

O cineasta italiano Bernardo Bertolucci, diretor de filmes como o polêmico "O último tango em Paris" (1972), o premiado "O último imperador" (1987) e "Os sonhadores" (2003), morreu nesta segunda-feira (26) aos 77 anos.

De acordo com a imprensa italiana, de estava em casa, em Roma, mas a causa da morte não foi revelada. O jornal "Corriere Della Sera" cita "uma longa doença".

Considerado o último grande mestre do cinema italiano, Bertolucci fez ainda obras-primas como "Antes da revolução" (1964), "1900" (1976), "O conformista" (1970).

Com"O último imperador" (1987), levou o Oscar de melhor diretor, melhor filme e melhor roteiro. O longa faturou, ao todo, nove estatuetas. Em maio de 2011, ele recebeu uma Palma de Honra, no Festival de Cannes, pelo conjunto de sua obra.

Polêmica

Recentemente, o diretor foi alvo de críticas após vir à tona um vídeo em que admitiu ter filmado uma cena de sexo não consentida em "O último tango em Paris".

No vídeo de 2013, republicado por uma ONG espanhola, Bertolucci conta que a atriz Maria Schneider, na época com 19 anos, não sabia o que aconteceria na cena em que Paul, personagem de Brando, usa manteiga como lubrificante na amante Jeannie. A sequência é uma das mais famosas e polêmicas da história do cinema, e intensificou a censura ao longa ao redor do mundo.

"A sequência da manteiga foi uma ideia que tive com Marlon na manhã anterior à filmagem", lembrou o diretor. "Fui horrível com Maria, porque não lhe disse o que iria acontecer". Segundo ele, a intenção era que Schneider reagisse "como uma menina, não como um atriz".

No vídeo, Bertolucci conta que não voltou a ver a atriz depois das gravações do filme, porque "ela o odiava". O diretor afirma que se sente culpado pelo episódio, mas que não se arrepende da decisão. "Para fazer filmes, e obter algo, às vezes precisamos ser completamente frios."

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/pop-arte/cinema

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Crítica do Filme: “Intocáveis”

Imagem Divulgação - postada pelo blog para 
ilustrar a presente crítica.

Crítica do filme: “Intocáveis”

Por Eleonora Rosset

Uma Maserati dirigida à toda, costura o trânsito à noite nas ruas de Paris. A polícia persegue o motorista infrator com estardalhaço.

Dentro do carro, ao volante, um jovem negro e um senhor de barba se entreolham com cumplicidade.

“- Você está em forma”, diz o senhor, apreciativo.

“- Aposto 200 como eles nos escoltam”, responde o rapaz negro de olhos sorridentes.

Quando a polícia os encurrala e o negro é jogado sobre o capô da Maserati, o mais velho começa a ter uma crise epiléptica dentro do carro.

“- Vocês estão loucos? Por que acham que eu estava correndo? Ele está doente! Tenho que ir para o pronto-socorro!” grita o rapaz negro para o policial.

E, na cena seguinte, ao som de uma música de discoteca anos 70, a dupla se diverte, cantando junto aos berros enquanto o negro dança ao volante, escoltados pela polícia até o hospital.

Passam os créditos na tela e ficamos sabendo que a história que inspirou o filme é real. No final, aparecem os dois verdadeiros protagonistas. Prestem atenção.

Mas, logo, o que nos cativa é o humor com que essa história, de uma dupla surpreendente, é contada.

Um acidente trágico de “parapente” levou Phillippe (o excelente François Cluzet) a uma cadeira de rodas. O tetraplégico milionário, que mora em um “hôtel particulier”, uma mansão luxuosa, precisa que façam tudo por ele, 24 horas por dia. Ele é inteligente, culto, bem educado. Mas o que é a vida sem um algo a mais que a torne interessante?

É aí que entra Driss, um jovem negro da periferia de Paris, ex-presidiário, desempregado, que tem alegria de viver de sobra.

Se Phillippe não tem como se movimentar e já perdeu as esperanças de algo que o faça vibrar nessa vida, Driss enfrenta dificuldades para sobreviver mas, apesar disso, não perdeu seu jeito bem humorado de ser. Ele entra na vida do outro como uma rajada de forças novas que Phillippe vai saber apreciar.

“Intocáveis” é a história desse encontro, onde dois universos tão diferentes se harmonizam, criando um terreno fértil para uma forte amizade.

Haverá uma troca que beneficiará os dois amigos.

Driss vai ser não só as pernas e braços de Phillippe mas também sua curiosidade e coragem. E Phillippe vai ampliar os horizontes de Driss, apresentando a ele um mundo que ele não conhecia. Será seus olhos e ouvidos abertos para o novo. Mas tudo isso sempre com humor. E nem sempre politicamente correto. Ainda bem. O roteiro dos dois diretores, Toledano e Nakache, tem o bom gosto de não fazer julgamentos nem ser moralista.

Mas “Intocáveis” não seria um filme tão bom e simpático, se não contasse com Omar Sy e François Cluzet como a dupla de amigos.

Não foi à toa que o jovem senegalês de 34 anos levou o César de melhor ator francês, concorrendo com ninguém menos que Jean Dujardin, o ganhador do Oscar americano. Alto, bonito, com um corpo expressivo e ágil, ele sabe fazer rir e comove com a mesma intensidade.

François Cluzet que consegue a façanha de contracenar com essa explosão de forças da natureza que é Omar Sy, apenas com a expressão de seu rosto, foi a escolha acertada para ser o outro da dupla.

Eu torço para que o cinema francês de qualidade conquiste cada vez mais o espectador brasileiro, viciado em “blockbusters” americanos.

Faça como eu e mais de 40 milhões ao redor do mundo e vá se encantar com “Intocáveis”.

Texto reproduzidos do site: eleonorarosset.com.br

Filme: "Intocáveis" (2011), de Eric Toledano, Olivier Nakache














quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Crítica do Filme: “BABEL”

Cartaz de divulgação do filme, postado pelo blog, 
para ilustrar a presente crítica.

Texto publicado originalmente no site Críticos, em 22.01.2007

BABEL de Alejandro González Iñárritu 
Por Luiz Fernando Gallego

Festa para Masoquistas

Em Babel, fazendo jus ao título, escutamos falas em inglês, espanhol, árabe, japonês e até mesmo duas frases em francês. Diferentes locações e personagens de diversas nacionalidades sofrem uma inesperada verticalização em suas vidas subitamente "globalizadas" a partir de um tiro de fuzil disparado pela inconseqüência de dois meninos marroquinos em posse de uma arma de fogo. Para tornar o significado já óbvio do título ainda mais explícito, uma personagem é surda-muda e, ao se deter sobre ela, algumas cenas se alternam entre tomadas objetivas - cheias de som e de fúria em discotecas de Tóquio - e cenas como que vistas pelos olhos da jovem Chieko (Rinko Kikushi, comovente em ótimo desempenho) - quando o que se escuta é o som do silêncio no qual vive imersa.

Mas não precisamos ser surdos para não escutarmos e/ou não entendermos nossos semelhantes, tão próximos e tão distantes - seja geográfica, seja culturalmente. Esta seria uma das “mensagens” explícitas do filme. Para demonstrar seu teorema (que é auto-explicativo), o diretor Alejandro Iñárritu e o roteirista Guillermo Arriaga pesaram a mão nas desgraças encenadas, indo além do que já nos ofertaram em matéria de infelicidade nos seus filmes anteriores, Amores Brutos e 21 Gramas, sugerindo que as raízes dos antigos dramalhões mexicanos invadiram a sua torre de Babel.

Tal como em seus outros filmes, a narrativa segue uma linha anacrônica de exposição dos fatos, o que parece ser um golpe de efeito para deixar a platéia em estado de tensão quase intolerável. Pois o espectador acompanha, alternadamente, uma espécie de ação “atual” no México fronteiriço com os Estados Unidos enquanto tem acesso a eventos ocorridos “antes”, no Marrocos. Neste país, os turistas Brad Pitt e Cate Blanchett encontram seu dia de O Céu que nos Protege – e melhor seria dizer “não protege”: numa terra estranha, em crise pela perda mais anterior de um filho, ela foi atingida por uma bala - nem tão - perdida e o calvário da falta de assistência numa estrada que corta a região, árida e semi-desértica, nos é mostrado em detalhes tantalizantes. Destaque-se a carência de solidariedade dos demais companheiros de viagem - ocidentais - chocando-se com a tentativa humilde de auxílio, ainda que primitiva e sem recursos, prestada por árabes em atitude conformada e fatalista, mas não necessariamente indiferente. Claro que estamos falando das pessoas simples de vilas miseráveis e não das “autoridades”, sejam marroquinas ou americanas, que encaram a situação como “política”, temendo que tenha havido um ato terrorista.

Já a “ação” mexicana, cronologicamente subseqüente ao que se acompanha no Marrocos - embora exibida simultaneamente - envolve um casalzinho de filhos de Pitt e Blanchett atravessando a fronteira, levados ao México pela governanta (ilegal nos EUA) que não tem com quem deixá-los para ir ao casamento de seu filho. Novamente a inconseqüência algo naïve – agora dos chicanos, especialmente por parte do personagem interpretado caricaturalmente por Gael García Bernal – vai colocar as crianças e a (até então) cuidadosa babá (Adriana Barraza, excelente) em sérios e graves riscos, incluindo a desorientação em um deserto como aquele onde estão os pais das criancinhas americanas, em situação tão ou ainda mais difícil. A escolha sobre quem sofre mais lembra a (falta de) "escolha de Sofia".

O espectador acompanha as duas ações em cenas que se alternam, sabendo que uma desgraça antecedeu a outra, mas sem saber o que de pior ainda poderá acontecer a uns e outros. Em algum momento, o desfecho já não importa: não interessa mais se os perigos se atenuarão ou se tudo vai ficar pior ainda do que já está, pois a platéia já foi levada a um estado de expectativa e angústia que faria a festa do mais dedicado masoquista.
  
Paralelamente, a história da jovem japonesa fica – em parte – como um corpo estranho em relação às duas outras narrativas, o que por um lado enfraquece este segmento que, isoladamente, poderia redundar num filme à parte até bem interessante. O problema é que, mesmo existindo uma conexão Tóquio com os demais eventos, o que se passa com a surda-muda Chieko pouco ou nada tem a ver com os mesmos fatores que desencadearam as duas outras ações. A moça, que perdeu a mãe há menos de um ano, sente-se rejeitada e marginalizada por sua deficiência auditiva; e apenas a presença de um detetive (outro ótimo desempenho) em busca de informações sobre a origem do fuzil que foi parar nas mãos dos meninos marroquinos é que liga o drama da jovem ao restante da ação. A ligação mais forte acaba sendo através de algo menos concreto do que um tiro, mas talvez tão forte quanto: o desamparo e a solidão nossa de cada dia, seja nos desertos, seja nas grandes cidades.

Já não importam tanto a força dos atores ou a habilidade manipuladora do cineasta com os golpes de efeito do roteiro (algumas vezes com causas e conseqüências passíveis de algum questionamento): a soma rebarbativa de desgraças para a família americana chega às raias do intolerável enquanto a exposição da insensatez humana em seus preconceitos e desgovernos fica em pano de fundo - e até mesmo por sua obviedade. A exasperação a que o espectador pode ser conduzido atinge seu auge quando uma ameaça de amputação alimenta o clima de expectativa de que o pior ainda pode estar por vir ( !!! ) . Desta vez, os recursos novelescos embalados por narrativa cinematográfica artesanalmente eficiente não foram suficientes para que Iñarritu reproduzisse os melhores resultados de 21 Gramas e deixam novamente em situação bem questionável o cineasta que “comentou” o “11 de setembro” em um filme coletivo com as imagens concretamente óbvias e chocantes dos corpos caindo das torres.

Texto reproduzido do site: criticos.com.br

Filme: "BABEL" (2006), de Alejandro González Iñárritu













sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Crítica do Filme: "Onde os Fracos Não Têm Vez"


Publicado originalmente no site da Folha de S. Paulo, em 01/11/2007

Irmãos Coen modernizam o faroeste em novo filme

Por Amir Labaki (articulista da Folha)

Há tempos os irmãos Coen estavam devendo um grande filme. Ei-lo: "Onde os Fracos Não Têm Vez" ("No Country for Old Men"), adaptação livre do romance de Cormac McCarthy lançado no Brasil pela Alfaguara sob o título "Onde os Velhos Não Têm Vez" (2006, 256 págs., R$ 38,90).

Tudo se passa na fronteira do Texas com o México, vagamente entre 1970 e 1980. O faroeste assume nova cara, com caminhões substituindo as carruagens, mas a violência continua soberana.

Um certo Llewelyn Moss (Josh Brolin) encontra, em meio ao cenário de um conflito entre traficantes sem sobreviventes, uma maleta com US$ 2 milhões. É seu passaporte para um futuro tranqüilo ao lado da suave esposa, Carla Jean (Kelly Macdonald).

Achado não é roubado. Moss fica com o dinheiro -e o caçador vira caça. Um matador de aluguel psicopata, de nome Anton Chigurh (Javier Bardem), sai em seu encalço. O xerife só poderia ser Tommy Lee Jones, à beira da aposentadoria, simbolizando como nunca o fim de uma era. O filme é essencialmente a corrida entre eles para encontrar Moss.

Faroeste

Joel e Ethan Coen orquestram a perseguição como uma comédia macabra. É como se Luis Buñuel ("Simão do Deserto") e John Huston ("O Tesouro de Sierra Madre") colaborassem numa adaptação, combinando estilos e territórios conhecidos. Bardem, fantasmagórico e caricatural, parece saído de um filme do primeiro. Jones, sutil e minimalista, um coadjuvante do segundo.

Neste ano de revitalização do faroeste, com títulos como "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford", de Andrew Dominik, e "Os Indomáveis", de James Mangold, "Onde os Fracos Não Têm Vez" é a mais bem sucedida tentativa de modernizar o gênero sem dilui-lo ou descaracterizá-lo.
Seu parente mais próximo é "Três Enterros", dirigido por Tommy Lee Jones a partir do impecável roteiro de Guillermo Arriaga (o ex-parceiro de Alejandro González Iñárritu). Menos que qualquer clássico de John Ford, a bíblia aqui é Sam Peckinpah e "Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia" (1974).

Na belíssima filmografia dos Coen, "Onde os Fracos Não Têm Vez" encontra equivalente, em dinamismo, humor e inteligência, apenas em "Fargo" (1996). Cannes 2007 os esnobou. Duvido que o Oscar faça o mesmo.

ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ
Direção: Ethan e Joel Coen
Produção: EUA, 2007
Com: Josh Brolin, Javier Bardem, Tommy Lee Jones
Avaliação: ótimo

Texto reproduzido do site: 1.folha.uol.com.br

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Filme: "Onde os Fracos não têm Vez" (2007), de Ethan Coen e Joel Coen














Stan Lee, criador de heróis da Marvel, morre aos 95 anos

Stan Lee em foto de 2002 — Foto: Reed Saxon/AP

Publicado originalmente no site G1 Globo, em 12/11/2018 

Stan Lee, criador de heróis da Marvel, morre aos 95 anos

Quadrinista participou da criação de super-heróis icônicos como Homem-Aranha, Thor, Hulk, X-Men, Pantera Negra, Demolidor, Homem de Ferro e Quarteto Fantástico.

Stan Lee, roteirista e editor da Marvel Comics, morreu aos 95 anos. A filha de Lee confirmou a morte nesta segunda-feira (12).

Ele passou mal em sua casa em Los Angeles, nos EUA, e foi levado ao hospital, onde morreu. Ele sofria de pneumonia e de problemas nos olhos.

Stanley Martin Lieber nasceu em 1922, em Nova York, nos Estados Unidos. Começou a trabalhar em HQs com o pseudônimo de Stan Lee em 1939, contratado por John Goodman, fundador da Timely Publications e primo de sua mulher, Joan.

Ele se tornou um dos nomes mais importantes dos quadrinhos americanos ao criar super-heróis como Homem-Aranha, Thor, Hulk, X-Men, Pantera Negra, Homem de Ferro, Doutor Estranho e Demolidor.

Roteirista e editor da Marvel, foi um dos responsáveis por transformar a empresa na maior editora de quadrinhos do mundo a partir de 1961.

Após a mudança do nome da editora, primeiro para Atlas Comics, e depois para Marvel Comics, Lee revolucionou o mercado de quadrinhos ao modernizar o gênero de heróis com criações para um público mais velho, como o lançamento de “Quarteto Fantástico”.

Com dramas familiares e heroísmos que utilizavam elementos de ficção científica, as histórias ajudaram na fama de personagens mais complexos e realistas da Marvel em relação à sua principal concorrente, a DC.

O mesmo aconteceu com o Homem-Aranha em 1962, um jovem adolescente que dividia suas aventuras com problemas no colégio e contas a pagar, e que se tornou um dos heróis mais populares dos quadrinhos.

Em parceria com artistas como Jack Kirby e Steve Ditko, Lee ainda criou outros personagens icônicos, como Hulk, Thor, Homem de Ferro e Demolidor.

Em 1963, com a cabeça no movimento por direitos civis de negros no Estados Unidos, lançou os X-Men, uma equipe de mutantes que eram marginalizados e hostilizados pelos humanos.

Dos quadrinhos para cinema e TV

Em 1981, Lee transformou seus heróis em desenhos animados exibidos por emissoras de TV.

Quando a Marvel Comics e a Marvel Productions foram adquiridas pela New World Entertainment em 1986, os horizontes do quadrinista foram se expandido ainda mais.

Lee teve a oportunidade de se envolver mais profundamente na criação e desenvolvimento de filmes e seriados. Ele constantemente fazia aparições nas produções do estúdio.

"Meu pai amou todos seus fãs. Ele era o melhor homem e o mais decente", comentou a filha do editor, Joan Celia Lee.

Texto e imagem reproduzidos do site: g1.globo.com/pop-arte

sábado, 3 de novembro de 2018

Artigo: O que O diabo veste Prada pode ensinar

Imagem postada pelo blog para ilustração artigo.

Texto publicado originalmente no site do jornal Tribuna do Paraná, em 10/11/2006

O que O diabo veste Prada pode ensinar
Maria Bernadete Pupo

Recém-formada em jornalismo, Andrea Sachs muda-se para Nova York em busca de um emprego como articulista em alguma revista da cidade. Acaba conseguindo trabalho na revista de moda Runway, como assistente de Miranda Priestly, a poderosa chefe de redação do periódico. A divertida história do filme O diabo veste Prada é, também, uma aula de recursos humanos. Há situações que envolvem desde o momento da seleção, as dificuldades no ambiente de trabalho, como lidar com os grupos informais, até a gestão de pessoas e estilos de liderança.

A postura da personagem Andrea durante a entrevista de emprego é inadequada ao perfil da vaga e ao ambiente. Ela sequer pesquisou com antecedência a organização para a qual se candidatara. Fica, pois, desconcertada quando Miranda lhe pergunta se conhecia a revista Runway. O caso fictício serve de alerta: a busca por emprego requer planejamento e foco. No início da entrevista, Andrea diz: Enviei currículo para todo mundo e fui chamada por vocês?, ou seja, atirou para todos os lados. O planejamento pode evitar a exposição desnecessária e mais dissabores.

No final da entrevista, num golpe de sorte, a candidata acaba conseguindo a vaga – totalmente diferente do seu emprego dos sonhos. A função tem atrativos fabulosos (pelos quais um milhão de fashionistas? era capaz de dar a vida) e dificuldades imensas.

Passada a surpresa inicial, Andrea demonstra qualidades indispensáveis para qualquer profissional que deseja sucesso no mundo corporativo: equilíbrio emocional para aceitar os ataques da colega Emily, além de maleabilidade e flexibilidade dentro de universo com o qual não se identificava (divas da moda magérrimas, batendo seus saltos altos pelos corredores da redação). É um exemplo de que as pessoas são adaptáveis e, quando querem, conseguem superar os próprios limites. Depois que Andrea foi colocada frente ao desafio, recusou-se a fracassar, um ponto fundamental para quem deseja vencer.

No entanto, como assistente pessoal de Miranda, Andrea vê-se forçada a suportar toda uma série de abusos, realizando tarefas como encomendar-lhe o almoço, tratar-lhe da roupa suja, fazer-se de motorista para a cadelinha, preparar-lhe as viagens… A funcionária é obrigada a estar disponível à chefe nas 24 horas do dia, sem jamais receber um elogio. Para piorar, a arrogante e insegura assistente Emily, que enxerga em Andrea uma ameaça ao seu emprego, lhe atribui críticas e menospreza suas habilidades – problemas a que todos estamos sujeitos, principalmente no início do emprego. Ao final Andrea consegue conquistá-la (outra habilidade necessária para manter o bom relacionamento interpessoal no dia-a-dia).

Diante do abuso de poder praticado por Miranda (motivo que, no mundo real, tem rendido uma série de processos para as organizações por assédio moral), Andrea acaba anulando sua vida pessoal na medida em que os pedidos da chefe, sempre emergenciais, tornam-se cada vez mais absurdos, a qualquer hora do dia ou da noite. Ela se adapta de tal forma que vive uma mudança radical, tanto física quanto comportamental.

Nota-se que a jovem personagem tinha obsessão pela sua carreira. Quando percebe que poderia transformar todos aqueles desafios em oportunidades, doa-se de corpo e alma. Talvez ainda não tivesse entendido que para isso tudo tinha um preço a pagar. A pergunta é: será que um ano de sacrifício ao serviço de um diabo que veste Prada não é um preço demasiadamente alto? Este é um drama presente na vida de muitas pessoas.

O filme ensina, além da importância da preparação na busca de um emprego, que nem tudo vale a pena para mantê-lo. Perseverança, dedicação, humildade, seriedade e honestidade são fatores muito relevados no mundo corporativo, mas nada deve ultrapassar o limite de nossa dignidade e integridade.

Maria Bernadete Pupo é gerente de RH do Centro Universitário Fieo (Unifieo), em Osasco (SP).

Texto reproduzido do site: tribunapr.com.br

Filme: "O Diabo Veste Prada" (2006), de David Frankel