sexta-feira, 10 de abril de 2020

Tributo a Zé do Caixão

José Mojica Marins (1936-2020) encarna seu
 inesquecível Zé do Caixão (Divulgação)

Publicado originalmente no site da Revista SUBJETIVA

Tributo a Zé do Caixão
Por Helton Lucinda Ribeiro

No filme Delírios de um anormal (1977), José Mojica Marins interpreta a si próprio, e tem a missão de ajudar um homem atormentado por pesadelos com seu personagem mais famoso, o Zé do Caixão. Em uma sequência, Mojica aparece como dono de uma luxuosa mansão e oferece um dia de lazer na piscina aos seus funcionários. Anos depois do lançamento do filme, confessaria que a mansão fake tinha o objetivo de transmitir a imagem de cineasta bem-sucedido para atrair investidores. Não colou. Só em seu último trabalho, Encarnação do demônio (2008), ele teria orçamento de gente grande.

Consagrado como mestre do terror, fez de tudo, à frente e atrás das câmeras, para sobreviver: dramas, suspenses, faroestes, filmes de aventura e pornográficos. Alguns bons, outros nem tanto. Apelou muito em seus filmes de sexo explícito, lançando mão até de zoofilia. Mas também fez os protagonistas machões de um deles se descobrirem gays no final, algo muito ousado para a época. A liberdade criativa e a coragem de Mojica não reconheciam limites artísticos, morais ou orçamentários.

Diz-se que certo cineasta ficou embevecido com a “genialidade” da alternância de sequências coloridas e em preto e branco no filme Quando os deuses adormecem (1971). Não era opção estética (diferentemente de Esta noite encarnarei no teu cadáver, em que a sequência do inferno é colorida). Sem grana para comprar filmes, Mojica dependia de sobras doadas por amigos diretores e produtores da Boca do Lixo. Quando recebia um rolo colorido, filmava em cores. Se a lata seguinte era P&B, sem problema! Bora filmar mais umas cenas. Sem esteticismo fútil. Nada mais autêntico.

Reconhecimento

Mas é exagero dizer que Mojica, falecido em 19 de fevereiro, só teve reconhecimento quando se transformou em Coffin Joe nos EUA. Zé do Caixão sempre foi um personagem muito popular, para além dos limites do acetato. Ainda na década de 1960 era citado por Caetano Veloso e os Mutantes na canção Trem Fantasma, do segundo álbum da banda paulistana de Arnaldo Baptista e Rita Lee, de 1968. Não há quem não reconheça a figura fúnebre e de unhas longas, mesmo sem jamais ter visto algum de seus filmes.

Entre seus pares, especialmente na Boca do Lixo e no cinema marginal, Mojica também teve seus méritos reconhecidos. Na verdade, ele foi vítima e beneficiário das agruras do cinema brasileiro. Penou para concluir seus filmes. Mas teria sido o Zé do Caixão se tivesse os recursos de uma Universal Studios ou de uma Hammer?

Encarnação do Demônio, com toda a produção caprichada, carece do mesmo charme dos filmes antigos, do artesanato de Mojica. Nos dois primeiros títulos da trilogia de Zé do Caixão, À meia noite levarei sua alma (1963) e Esta noite encarnarei no teu cadáver (1965), ele desenhava relâmpagos riscando diretamente o negativo e criou um inferno de gelo, na impossibilidade de filmar uma versão incandescente.

Mais importante: criou, de primeira, uma obra única no gênero terror, sem recorrer aos monstros tradicionais, como múmias, lobisomens e vampiros. Seu vilão é um agente funerário com o prosaico nome de Zé. Ele não ambiciona poder ou riqueza. Só quer gerar o filho perfeito que lhe assegure a continuidade do sangue. Décadas antes de Richard Dawkins escrever O gene egoísta.

As encarnações de Zé do Caixão não se limitaram à trilogia que conta sua história. Ele assombrou os espectadores também em títulos como O despertar da besta (Ritual dos sádicos/1969), Exorcismo Negro (1974), A estranha hospedaria dos prazeres (1975) e Delírios de um anormal (1977). Em alguns desses filmes, a criatura escapa ao controle do criador e adquire poderes sobrenaturais que não detinha em suas aparições anteriores. Sem falar em suas manifestações em outras mídias, como HQs e programas de TV.

Zé do Caixão ficará para sempre no imaginário do povo brasileiro. Isso faz de Mojica grande. O maior cineasta do Brasil.

Texto e imagem reproduzidos do site: medium.com