quinta-feira, 12 de setembro de 2019

"O Cinema Acabou", por Floriano Fonseca

Cine Glória ou cinema de Edinho, em Lagarto/SE.
Foto: acervo de Floriano Santos Fonseca.
Reproduzida do blog: imagensdeontem.blogspot.com.br

Texto publicado originalmente no blog CRÔNICAS DE UM TEMPO

O Cinema Acabou
Por Floriano Fonseca

Entre os anos trinta e setenta Lagarto possuiu cinema e hoje como em quase todas as pequenas cidades do interior esse importante tipo de diversão foi extinto. Zé Dantas Colecionava cartazes de filmes e sempre que podia acrescentava mais um - não sei qual a forma - Havia sempre um cavalete do cine Glória na esquina das Ruas Laudelino Freire e Lupicínio Barros anunciando a atração do dia. Os cowboys com Franco Nero, Giuliano Gema e Clint Eastwood eram os preferidos, mas também filmes de Maciste e gladiadores faziam a festa. No final dos anos setenta surgiram os de artes marciais e nas noites de segundas-feiras assim que as portas do cinema se abriam após a sessão, saia a molecada a imitar os golpes a gritos de “iáááá” e foi assim que os filmes passaram a ser chamados: filmes de iá. Surgiu também um herói que se vestia de branco e era denominado Santo que lutava contra zumbis e múmias. Faltar a um filme de Roberto Carlos e naturalmente a Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo seria quase pecado. Depois vieram os trapalhões com suas comédias pastelões. Claro que os filmes de Drácula eram ótimos para namorar. Quem não chorou ao ver Teixeirinha cantar o coração de luto? Dio come ti amo que fazia os casais de namorados se beijarem transformando o escurinho do cinema numa sessão de beijoqueiros? Hoje no local do Cine Glória ou cinema de Edinho está erigido o prédio do Bradesco, mas também existiu o Cine Pérola que pertenceu a Julio Modesto, uma construção bonita com espelhos na entrada uma bela escada circular que dava para a geral, todo decorado com pinturas egípcias e o mais bonito era quando o filme ia começar: as cortinas se abrindo as luzes se apagando e o som do "tuuuum", que se misturava ao Tema de Lara. Foi numa matinêˆ que eu beijei a primeira namorada. Na parte da geral havia algumas cadeiras que ficavam bem acima das outras e que eram exclusivas de seu Detinho da Radiofon. Hoje o prédio abriga a Caixa Econômica.

Texto reproduzido do blog: cronicasdeumtempo.blogspot.com

Dos primeiros frames à novas histórias – o início do cinema em Sergipe

Imagem reproduzida do site stic.com.br e 
postada pelo blog, para ilustrar o presente artigo

Dos primeiros frames à novas histórias – o início do cinema em Sergipe

Autor: Luzileide Silva

Resumo Expandido: O filme documental é o primeiro esboço de uma produção audiovisual em Sergipe e surge tardiamente se comparada com o restante do país. Segundo Karla Holanda Araújo (2005) em um levantamento sobre a produção de documentários no nordeste, apenas Sergipe e Piauí não iniciam uma produção nas primeiras décadas do século XX. Por exemplo, estados vizinhos como Bahia e Alagoas iniciam suas produções em 1910 e 1921.

De acordo com Djaldino Mota Moreno (1988) os filmes de Clemente de Freitas se assemelham aos primeiros registros documentais, com planos simples e montagem quase inexistente que tratavam do cotidiano da cidade e foram produzidos entre 1940 e 1969, feitos em bitola 16mm ou 8mm. Outro fato que nos chama a atenção nesta produção diz respeito aos últimos filmes de Freitas, produzidos em 1969, que se intitulavam de cineminha-jornal, nos atentando para o fato de que mais que um hobby, como nos apontam alguns relatos, os filmes de Freitas apresenta característica de um produto comercializável.

Na primeira metade da década de 1960, Sergipe passa a ter uma produção audiovisual mais efetiva através dos cinejornais produzidos por Walmir Almeida. Mas apesar dos cinejornais impulsionarem uma determinada produção no estado, eles se configuram como produtos institucionalizados pelo Estado e muitas vezes destacando atividades relacionadas à políticos. Num breve comparativo do cenário cinematográfico no Nordeste, notamos que, nesta época já havia surgido na Paraíba, Aruanda (1960) de Linduarte Noronha, que junto com o carioca Arraial do Cabo (1959) de Paulo César Saraceni e Mário Carneiro retratavam o povo brasileiro em alteridade, menos idealizado e folclorizado (RAMOS, 2008), assim criam determinadas modificações estilísticas no documentário. As novas histórias efetivamente começam a ser contadas em Sergipe apenas no início da década de 1970 com a produção do Super8.

É importante pontuar que pesquisar a produção cinematográfica de Sergipe é um trabalho árduo, pois a falta de um acervo organizado e a inviabilidade de acesso direto ás obras dificultam a busca por informações tanto históricas quanto técnicas das produções. Apesar dos poucos estudos alguns textos sobre o cinema foram produzidos, mas grande parte se configura como os textos jornalísticos como os de Luiz Antônio Barreto (2010), Vinícius Dantas (2012) e Osmário Santos (2012), que apresentam características de um memorial, panoramas e lembranças de uma época. Também existem estudos mais elaborados como o livro nunca publicado de Justino Alves, um dos realizadores do ciclo Super8 e os catálogos sobre cinema sergipano de Djaldino Mota Moreno.

Por haver poucos estudos sobre o cinema sergipano a observação de suas primeiras produções revelam características sócio-históricas e técnicas, além de possibilitar uma comparação das condições de produção e das temáticas abordadas, além se criar bases para novos estudos sobre a produção sergipana.

Bibliografia 
       
ARAÚJO, Karla Holanda. Documentário nordestino, mapeamento história e análise (1994-2003). São Paulo: Annablume, FAPESP, 2008.

BERNARDET, Jean Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. São Paulo: Companhia da Letras, 2009.

DANTAS, Vinícius. Primeiro Cinema em Aracaju. In: Mnemo Cine. 2012. Disponível em: . Acessado em : 21 jul. 2015.

MORENO, Djaldino Mota. Cinema Sergipano – catálogo de filmes. Aracaju, Sergipe. 1988.

______________________ Clemente de Freitas – o pioneiro na arte cinematográfica em Sergipe. In: Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro –Núcleo Regional de Sergipe, 2004. Disponível em: . Acessado em: 27 mai. 2015.

MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas & pós-cinemas. Campinas, SP: Papirus, 1997.

RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal o que é documentário? São Paulo: Editora Senac, 2008.

SANTOS, Osmário. Walmir Almeida o cinegrafista da cidade. JornaldaCidade.Net 14 mai. 2012. disponível em: www:jornaldacidade.net/noticias-leitura/cinema. Acessado em: 18 ago 2015.

Texto reproduzido do site: associado.socine.org.br

domingo, 1 de setembro de 2019

Crítica do filme: "Duas Mulheres"


Texto publicado originalmente no site Literário e Cinematográfico, em 12/07/2012

Duas Mulheres

La Ciociara. Itália, 1960, 100 minutos, drama. Diretor: Vittorio De Sica.

Sophia Loren apresenta uma das melhores interpretações femininas do cinema!

Quando começou a produção de La Ciociara, filme que mostrava as conseqüências da guerra numa família simples, composta de mãe e filha, numa pequena cidade italiana, que dá nome ao filme, Anna Magnani deveria estrelá-lo interpretando a personagem Cesira, enquanto Sophia Loren interpretaria Rosetta, sua filha. Devido a algumas exigências de Magnani, que à época já havia concorrido duas vezes ao Oscar, seu nome acabou desligado do filme e, por indicação dela mesma, Loren ficou com a sua personagem, participando dessa produção italiana depois de já estar há alguns anos filmando nos Estados Unidos.

É de Alberto Moravia a história de que o roteiro se apropriou para tomar forma e, no romance, Moravia nos conta sobre duas mulheres, mãe e filha, que, durante a Segunda Guerra Mundial, saem de Roma assim que a cidade começava a ser bombardeada pelas tropas alemãs. As duas partem de trem, mas são obrigadas a percorrer um grande trecho a pé, chegando, por fim, à pequena região da Ciociara, local onde Cesira cresceu e onde estão ainda alguns de seus parentes, inclusive Michele, um rapaz que não cumpriu seus deveres militares a fim de continuar lecionando. Aparentemente fora do alvo alemão, cabe à mãe e à filha encontrarem meios de sobreviver naquele lugar.

O enredo da história relega aos dramas pessoas a sua força. Não há muita ação, nem muitos percursos percorridos pelas personagens, que só verdadeiramente se deslocam poucas vezes no filme, sobretudo no começo e no fim. O seu drama se encontra na situação das personagens e no modo como elas encaram aquilo que está por vir: estão ágoras seguros naquelas colinas, mas não têm o que comer, o que não é nada animador – pelo contrário, é bastante preocupante. Cesira inclusive encontra um homem que lhe vende um queijo – com a inflação, o preço do alimentou subiu de maneira exorbitante, resultando num simples produto com um valor que não se justifica pela qualidade. Não é à toa que Cesira se lança a uma procura por farinha e açúcar, tudo em nome da filha, a pequena Rosetta, que, como ela mesma diz, não tem nem sequer treze anos, e que precisa ser cuidada.

Uma das cenas iniciais já mostra uma Cesira bastante forte: a mulher se deita com Giovanni, um amigo da família, mais especificamente suposto amigo de seu falecido marido, com quem Cesira parecia não se dar bem. De Sica a apresenta a nós agistralmente nessa cena: é aí que conhecemos toda a grandeza dessa mulher, até mesmo no ato de transar: as luzes somem pouco a pouco enquanto a mulher se deita, a câmera enquadrando seu rosto, numa fotografia perfeita, num olhar singular de Loren que demonstra desejo e tensão. Não ver mais nada – afinal, tudo fica escura e já se muda a cena – não quer dizer nada: conhecemos já uma vertente fundamental daquela mulher. Digo fundamental porque o desejo é o elemento que não se mostrará em Cesira até o fim da narrativa, ainda que, eventualmente, ela tenha outra aventura amorosa – ela agora está totalmente dedicada à filha e, como ela mesma diz, quando se tem uma filha como ela tem, não resta tempo para pensar em romance ou em sexo. A personagem é completa, afinal, dotada inclusive de libido.

Apresento essa informação porque, honestamente, é dificílimo assistir a esse filme e não observar Sophia Loren. Às vezes, olhamo-la mais do que vemos o que realmente está acontecendo em cena, tamanha é a sua grandiosidade como intérprete e, também, a sua feminilidade aflorada do começo ao fim. É linda, desses rostos que não se esquece – nem se quer esquecer. Quando ri, o espectador ri junto: sua risada é espontânea e alegre, basta ver a cena que Michele, sem querer, ao falar com ela pela janela, vê sua filha a tomar banho – a garota e ele se envergonham, e ela ri da situação, ri com tanto charme e desenvoltura – desenvolta até na risada – que cabe ao espectador acompanhá-la naquele momento fugaz de contentamento. Cabe dizer que a dona de casa e mãe batalhadora de Sophia Loren é provavelmente uma das mais sensuais do cinema, mesmo que esteja trajando vestes que pouco insinuem suas curvas ou que pouco queiram chamar a atenção. Penso que seja o pleno domínio de Loren que a levou, dois anos depois, a ganhar o Oscar, tirando-o das mãos de Audrey Hepburn, que competiu por “Bonequinha de Luxo” (1961), uma das concorrentes mais queridas da edição de 1962,

Acredito que seria bastante fácil que esse filme se tornasse monótono. Como disse, as movimentações bruscas e verdadeiramente notáveis acontecem no começo e no final da película, havendo apenas um “pequeno grande momento” em meados da narrativa. Não se trata de uma obra cujo roteiro justifica por si só o entretenimento do espectador nem garante que ele vá assistir ao filme até o final sem bocejar, pois, definitivamente, a mãe desse título é diferente da mãe de “Erin Brokovich – Uma Mulher de Talento” (2000), que está inserida numa causa transpiratória que, querendo ou não, alavanca muito mais ação do que aqui. Seria fácil que o filme se tornasse desinteressante, uma vez que também, entre os personagens, não há o conflito que se vê em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1966), no qual, ausentes outros ambientes e objetos de intriga, os personagens se entregam à completa devastação física e moral através de longas agressões uns contra os outros. Em “Duas Mulheres” – bastante apropriada a escolha do título – mostra a relação entre as duas mulheres cujos dramas pessoais dão corpo à trama, e, vale apontar, nem sempre elas vivem situações perigosas, que instiguem tensão ao espectador: às vezes, há somente a sensação de calmaria, de tranquilidade. E De Sica soube conduzir assombrosamente bem a trama, fazendo-nos atentar para cada segundo do que acontece ali, tornando o seu filme uma película prazerosa de se assistir.

Os minutos finais chocam o espectador, não que não esperava nenhuma surpresa – ainda mais uma tão grosseira e bruta como a que vemos. Cesira, num momento, se joga em frente a um comboio vindo de um campo de batalha e grita aos soldados ingleses se eles não percebem o quanto faz mal toda aquela guerra. É o ápice da trama e também o momento no qual nos deparamos com a grande dor da narrativa, tornando-nos cônscios da magnitude da interpretação de Sophia Loren, que antes nos havia conquistado com seu riso, mas agora também nos conquista com seu choro. De Sica transforou uma miudeza numa obra singular, elogiável, cuja qualidade não se dissipou, apesar de passados cinquenta e dois anos desde o seu lançamento oficial – a obra é atemporal e excelente para mostrar o quanto uma guerra é capaz de afetar negativamente as pessoas, independentemente de suas classes sociais, credos ou gêneros. Definitivamente, é uma produção para se assistir mais de uma vez.

Texto reproduzido do blog: literarioecinematografico.blogspot.com

Filme: "Duas Mulheres" (1960), de Vittorio De Sica