terça-feira, 21 de maio de 2019

Lumière!: Por um cinéfilo, para todos cinéfilos


Publicado originalmente no site Wanna be Nerd, em 15 de dezembro de 2017   

Lumière!: Por um cinéfilo, para todos cinéfilos

Por Fernanda Mappa 
  
Composto e narrado por Thierry Fremaux, Lumière!: A aventura começa (2016) chega aos cinemas brasileiros no dia 14 de dezembro.

O filme se trata de uma aula-documentário em que são apresentados 108 curtas de 50 segundos cada, filmados entre 1895 e 1905, e de autoria dos irmãos Lumière e seus operadores de câmera.

Lumière! surpreende com imagens em ótima resolução, belíssimos enquadramentos e traz movimentos de câmera impressionantes para a época.

Auguste e Louis Lumière são eternamente conhecidos por serem os pais do Cinema, pois inventaram o cinematógrafo, aparelho capaz de filmar e projetar imagens. Apesar de não terem sido os primeiros a arquitetar máquinas capazes de captar movimentos, os irmãos franceses ficaram conhecidos como os criadores da 7ª arte.

Thierry Fremaux narra cada um dos curtas apresentados ao longo do filme, dando um verdadeiro masterclass de cinema para o expectador. Ele traz o contexto histórico e destaca os magníficos enquadramentos, composição da imagem e até mesmo roteiros desenvolvidos pelos cineastas.

Destacado no material de divulgação, o diretor faz questão de ressaltar que o filme pertence aos irmãos Lumière e não a si próprio, pois ele somente compilou, organizou e narrou. O filme é resultado do trabalho do Instituto Lumière, que se encontra no berço do cinema em Lyon, e atualmente está recuperando mais 300 dos 1422 curtas filmados pela dupla de irmãos e seus operadores.

Em coletiva de imprensa na Reserva Cultural em São Paulo, o diretor se diz cinéfilo e apaixonado pelas obras de Lumière e declara “A televisão serve para esquecer; O cinema, para lembrar”. Ele já deixou claras suas intenções de fazer um segundo filme caso o primeiro seja um sucesso, pois ainda há muito material em recuperação, além dos curtas que ficaram de fora da seleção. Fremaux é conhecido por ser Diretor-Geral do Festival de Cannes e Diretor do Instituto Lumière, em Lyon.
  
 Sobre o diretor

Thierry Frémaux nasceu em 29 de maio de 1960 em Tullins (Isère).

Desde 2007, Frémaux desempenha o cargo de diretor do mais prestigiado festival de cinema do mundo, o Festival de Cannes, evento anual na qual exerce a difícil tarefa de escolher quais serão os filmes selecionados para o concorrer à disputadíssima Palma de Ouro.

Thierry também é o presidente do Instituto Lumière em Lyon, no qual ele trabalhou como voluntário desde sua fundação. Durante muitos anos, esteve profundamente envolvido na preservação da coleção Lumière (filmes e fotografia) e na restauração dos primeiros filmes da história do cinema.

Ficha Técnica: Lumière! Direção: Thierry Frémaux. Produção: Bertrand Tavernier. Trilha Sonora: Camille Saint-Saëns. Edição: Thomas Valette, Fabrice Calzettoni, Maëlle Arnaud, Thierry Frémaux. Gênero: Documentário. País: França. Ano: 2016. Duração: 90 minutos. Classificação: Livre.

Texto, imagens reproduzidos do site wannabenerd.com.br 

Clique no link abaixo, para assistir trailer no youtube

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Filme: "Minha Amada Imortal" (1994), de Bernard Rose













O superestimado “Napoleão”, de Abel Gance



Publicado originalmente no site 'Devo Tudo ao Cinema', em 27 de julho de 2017

O superestimado “Napoleão”, de Abel Gance

Por Octavio Caruso -

Napoleão (Napoléon – 1927)

Começo o texto sendo muito sincero, não vou abraçar a cartilha do “crítico de cinema” e tentar vender a ideia de que este épico é maravilhoso. Abel Gance e seus filmes eram odiados por Stanley Kubrick e Luis Buñuel, que o considerava um megalomaníaco insuportável, então estou em boa companhia.

Ele inicialmente queria montar dez horas, retratando toda a vida de Napoleão, mas teve que se contentar com cinco horas e meia. Considerando que sou apaixonado pela era muda e que, por exemplo, as quatro horas de duração de “Dr. Mabuse”, realizado cinco anos antes por Fritz Lang, passavam rápido e, em revisão, seguem eficientes hoje, não dá para perdoar o diretor francês por uma experiência tão absurdamente autoindulgente e entediante, especialmente considerando a natureza fascinante do tema abordado. Ele não envelheceu mal, os problemas já incomodavam na época. É, sim, não há como negar, uma obra importantíssima que inovou tecnicamente, com arroubos visuais criativos que serviram de inspiração para cineastas no futuro, instigante na primeira hora e extremamente ousada nos quarenta minutos finais.

A parte introdutória que mostra a infância do personagem, envolvido em guerras de bolas de neve e sofrendo na mão de dois colegas cruéis, faz uso da tela dividida como ferramenta narrativa, algo que se repete algumas vezes, com mais efeito no desfecho em Polyvision, sistema criado e utilizado exclusivamente neste filme, com a projeção simultânea de três bobinas possibilitando a expansão horizontal da imagem, além de experimentações menos orgânicas com painéis espelhados, interessantes em teoria, mas que servem apenas para confundir o espectador e prejudicar ainda mais a imersão. É óbvio que o recurso nada prático dificultaria tremendamente a exibição, garantindo a dor de cabeça de muitos projecionistas.

Todo apaixonado por cinema precisa ver, ainda que provavelmente uma única vez na vida, para se impressionar com a pioneira montagem de cortes rápidos, múltiplas imagens sobrepostas, o ângulo “ponto de vista” alcançado colocando a câmera no cavalo em movimento, elementos que despertaram em Eisenstein, mestre da escola soviética de montagem, o interesse em se aventurar nesta arte. 

Texto e imagem reproduzidos do site: devotudoaocinema.com.br

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Artigo escrito por Márcia Luz, quando da morte de André Setaro, em 2014


Publicado originalmente no blog Osvaldo Campos, em 15 de julho de 2014

André Setaro: uma perda intelectual para o cinema na Bahia

Por Márcia Luz*

Além de profundo conhecedor de cinema, o professor André Setaro, falecido no dia 10, era um homem de um humor e tanto. Nos últimos anos, rendeu-se à internet e, através do seu perfil no facebook, compartilhava com os seguidores o que até então só seus alunos tinham o privilégio de ouvir dele. Com sua partida, perdem os estudantes de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, mas perdem também os cinéfilos, que tinham nele um dos melhores críticos, e a rede social, que deixará de ter suas dicas, comentários e resgates da história sobre a sétima arte. Responsável pela formação de novos amantes do cinema e cineastas, André Setaro era acima de tudo generoso. Como salienta a cineasta, professora de Cinema e jornalista Ceci Alves, que foi aluna do professor, Setaro deu sofisticação à discussão de temas ligados à sétima arte e apresentou o cinema clássico para uma geração que não tinha acesso a isso. "Se não fosse ele, a nossa geração não teria tido a formação que tivemos. Ele levava coisas raras para a sala de aula e para o convívio das pessoas. Ele era muito generoso e, para ele, não existia cinema maior ou cinema menor. Era uma pessoa boníssima e divertida. Entre outras coisas, foi ele quem me deu a ideia da dissertação do Mestrado e foi ele quem me deu também a primeira entrevista", ressaltou a diretora dos premiados curtas 'Doido Lelê' e 'O Velho Rei'. O cineasta Sérgio Machado, que também foi aluno de Setaro na Faculdade de Comunicação da UFBA, relembrou as boas conversas que teve com o professor enquanto estiveram juntos, bem como a admiração que dividiam por Hitchcock.  "Acho que ele me influenciou muito mais como cinéfilo do que como cineasta. Admirava o amor tão visceral que tinha pelo cinema", salienta. Machado recorda, ainda, que sua primeira produção sobre cinema aconteceu por convite do professor. Ainda estudante de Comunicação, escreveu um artigo sobre John Wayne para a coluna de Setaro em um jornal de Salvador, mais uma das generosidades do professor. No facebook, o professor Maurício Tavares lamentou a morte de Setaro e lembrou uma das maiores características do professor: "Era realmente uma pessoa especial, não porque morreu. Adorava o humor sarcástico dele. Além do mais recebia provocações com muito bom humor". De fato, o humor de Setaro era sua marca registrada e o toque especial de seus textos e considerações. Usava isso tanto para falar sobre o cotidiano quanto para comentar cinema. Na medida certa da elegância, mas sem deixar de promover o riso em quem o lia. Na onda da superexposição da rede social, espaço no qual as pessoas informam cada passo da vida e suas investidas amorosas, ele não deixou passar em branco e postou há pouco tempo: "Estou num relacionamento sério com uma aranha caranguejeira".

No dia a dia, era muito comum o professor postar fotos engraçados, imagens de sua musa Brigitte Bardot e fazer comentários sobre curiosidades do cinema e suas observações: "Nos filmes de tempos idos, quando um homem beijava uma mulher na boca, chamava-se "colada" - e era realmente uma "colada" de lábios, pois beijo de língua nem pensar. Mas a plateia sempre que isso acontecia gritava: "Chupa, Caetano!!!" Até hoje ainda não descobri a significação desse "Caetano" O Veloso não era, pois ainda de calças curtas em Santo Amaro e um ilustre desconhecido. Igualmente enriquecedor era ler o que Setaro - também autor da trilogia 'Escritos sobre Cinema' (Depoimentos, atores e diretores; Cinema Baiano, e Linguagem e Outros Temas - Introdução ao Cinema) - escrevia sobre suas próprias memórias cinematográficas. Ele relembrou, por exemplo, o impacto da primeira vez que assistiu ‘Deus e o diabo na terra do sol', filme de Glauber Rocha. "Faz meio século (eu infelizmente - e bota infelizmente nisso, pedindo desculpas aos facebookianos mais velhos, já dobrei este ''cabo da má esperança" há 13 anos - estou com provectos 63 a caminho dos 64, e, aqui, a lembrança do inesquecível Billy Blanco: "o enfarte te pega, doutor, e acaba essa banca!". Devo dizer que ele, o enfarte, já mo-lo pegou em 2006, mas, como "vaso ruim não quebra", resguardou-me para o aparecimento do Facebook, a fim de que possa, 'comme il faut' (valei-me poderosa July!!!) chatear vocês com o facebookiano "o que você está pensando"). Tinha 13 a caminho dos 14. O filme era proibido para menores de 18 anos. Fiz de conta que também saía, e andando de costas, entrei. O filme simplesmente impactou o adolescente que era. Na saída, encontrei-me com Florisvaldo Mattos e Sergio Gomes. Mas ainda não os conhecia. Mudo estava, mudo fiquei. O filme foi lançado no cinema Guarany de Salvador".

Com a morte de André Setaro, a perda é pessoal para seus alunos, amigos e familiares, mas também intelectual para quem se interessa por cinema. O cinema, que, aliás, já havia perdido, em maio, o crítico João Carlos Sampaio, também amigo do professor e a quem ele homenageou com as seguintes palavras: "A Bahia perde o mais atento jornalista na cobertura das coisas de cinema. Sampaio era um workaholic em relação a seu trabalho, pois sua coluna em A Tarde (jornal soteropolitano), além de ter críticas bem pensadas sobre os lançamentos mais importantes, pontuava, com regularidade, o movimento do cinema baiano - não se recusava, inclusive, a fazer matérias de páginas inteiras sobre os filmes e cineastas. No momento atual do jornalismo baiano, quando a cultura está indo pra o brejo, como assinalou o poeta Ruy Espinheira Fillho, a falta de João Carlos Sampaio é imensa. Era uma pessoa de lhano trato, terno, de sensibilidade à flor da pele. Minha homenagem a este homem que amava o cinema". Sem dúvidas, duas grandes baixas para o cenário cinematográfico da Bahia no mesmo ano. Ficam os exemplos do que foram e o que fizeram pela cultura.

*Jornalista, escreve no IBahia  [ibahia.com]

Texto e imagem reproduzidos do site: osvaldocampos.blogspot.com

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Memória apagada, a culpa não foi do nitrato

Destroços do pavilhão incendiado/Foto UOL

Publicado originalmente no site Observatório da Impresnsa, em 09/02/2016 

CINEMA BRASILEIRO 

Memória apagada, a culpa não foi do nitrato
Por Norma Couri 
 
Uma semana antes do Carnaval o fogo comeu 1000 rolos de filmes, a maioria de cine-jornais anteriores à década de 1950, 17 curtas-metragens e pelo menos um longa-metragem do fantástico acervo de 44 mil títulos do cinema brasileiro.Trata-se do maior acervo de imagens em movimento da América Latina, incluindo imagens da primeira TV brasileira, a TV Tupi, com reportagens históricas dos telejornais da época. Pelo incêndio, acusaram o material dos filmes, o nitrato de celulose, coitado! O grande culpado é o governo, o descaso com cultura, o corte de pelo menos 30% do orçamento para a área no ano passado e o nem-se-fala-em-quanto cortar neste ano de 2016.

Em quase 60 anos foi o quarto incêndio da Cinemateca Brasileira (1957,1969,1982) e vamos esperar sentados por mais um. O Brasil, tal como o líder nazista Herman Goering (1893-1946), quando ouve a palavra cultura saca logo o seu revólver.

Há dois anos este refúgio de cinéfilos paralisou com a desoneração do diretor Carlos Magalhães (2002-2013). Houve troca-troca de Ministros da Cultura e de secretários de Audiovisual, novas auditorias da Controladoria Geral da União. Também novas acusações de falta de controle do MinC sobre a execução dos recursos disponibilizados (R$ 105 milhões em 2008, embora as contas fossem apresentadas anualmente). A Sociedade de Amigos da Cinemateca sempre contestou as acusações que nunca bateram com as auditorias internas.

Acervo da Cinemateca/Foto Navvot.blogspot.com

O então presidente Leopoldo Nosek e o presidente do Conselho, Ismail Xavier, negaram as irregularidades. Mas ao que todos assistiam eram resoluções nunca implantadas, planos de digitalização que não saíam do papel, caixa bloqueado, recursos congelados e a forçada demissão em massa (65 de 132 funcionários, muitos formados na Cinemateca, foram para o olho da rua). Entre leis em tramitação no Senado e novas trocas de coordenadores –gerais interinos, quem segurou a instituição nas costas foi a pesquisadora mais antiga da Cinemateca, Olga Futema, atual diretora interina que abriu mão da aposentadoria.Todos haviam sido surpreendidos com a publicação no Diário Oficial de um novo regimento interno.

“Quebraram a espinha num momento de excelência”, disse o ex-diretor, professor da USP e atual conselheiro Carlos Augusto Calil, perplexo com as insinuações, segundo ele, nascidas de ressentimentos mal explicados de um ex-conselheiro não re-eleito. “A SAC (Sociedade dos Amigos da Cinemateca) começou como entidade privada, tornou-se pública e tem mais de quatro décadas de atividade na Cinemateca — que se mantém graças a ela”.

Outra pesquisadora, professora da USP e conselheira, Maria Dora Mourão, nunca se conformou com a forma como o episódio foi conduzido. “Parecia que estávamos nos locupletando com tanto dinheiro…”. A partir daí todas as iniciativas de reconstrução anunciadas deram para trás. “No pior cenário, a Cinemateca voltará a se preocupar a cada ano com a sua sobrevivência”.

Sede da cinemateca em São Paulo
Foto trilhosurbanos.com

Desde então o filme em cartaz foi o das mobilizações e promessas de repasses, propostas de mudanças de modelo da gestão de Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) para OS (Organização Social, com mais agilidade na busca de investimentos), ciclos e festivais adiados, programação pela metade, crise, apenas um monitor para apoio ao Cine-Educação, um único projecionista e só uma das salas de exibição em funcionamento.

Mas o que mais se temia, aconteceu!

O retrocesso prejudicou o ritmo de trabalho de preservação, catalogação, restauração, documentação, trabalhos de laboratório de imagem e som, o funcionamento da biblioteca que detém documentação preciosa – folhetos, fotos, cartazes raros—e está fechada. A Cinemateca, sempre gerida por gente da casa com idealismo e aquilo que a burocracia não entende –amor ao cinema — paralisou. O prédio é tombado pelo Condephaat, e a Cinemateca, responsável pela produção de audiovisuais.

Atos públicos apontaram a falta de sensibilidade do governo. Chamaram atenção para a realidade de uma Cinemateca como a Brasileira funcionar com apenas 20 funcionários, entre eles dois motoristas e 17 em vias de pedir a aposentadoria. O contrato dos 24 técnicos contratados pela SAC terminou há dois anos.

Assim mesmo a Cinemateca recuperou o filme Limite de Mário Peixoto (1931), Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade (1969), Xica da Silva, de Cacá Diegues (1976). E quando viu restaurado Cabra Marcado para Morrer (1985), Eduardo Coutinho alertou para o escândalo de não se atentar para a conservação dos filmes do país. “Tem filmes de dez anos atrás que está liquidado, a Cinemateca tem de voltar a ser o que era”, disse o cineasta. Coutinho foi assassinado pelo filho no ano passado e a Cinemateca pegou fogo este ano.

Filmes de Glauber Rocha restaurados 
na Cinemateca/festivalmarginal.com.br

O governo sempre negou a crise. Na época a Ministra da Cultura era Marta Suplicy. Mudou o governo, começaram os planos para recuperação dos cine-jornais históricos da companhia Atlântida (estarão entre os queimados neste incêndio?). Houve pregões para contratação de empresas, readmissão dos funcionários… nenhum requisito cumprido. Ditos e desmentidos, pronunciamentos equivocados, realização duvidosa de projetos de parceria com pastas da Cultura e Ciência, Tecnologia e Educação e a implantação de cinemas em universidades para exibição do acervo da Cinemateca

O ministério da Cultura declarou esta semana outro plano: o de que não tem plano para evitar novos incêndios. O novo secretário de Audio-Visual, Pola Ribeiro, justificou a ausência de seguro. “Que Seguradora asseguraria um prédio com nitrato de celulose, e quanto cobraria? É quase uma morte anunciada”

Fundada em 1940 pelos estudantes de Filosofia Paulo Emilio Sales Gomes, Antonio Cândido de Mello e Souza e Décio de Almeida Prado, a Cinemateca, então Cine Clube, foi fechado pelo departamento de Imprensa e Propaganda de Getúlio Vargas mas conseguiu a oficialização em 1946.

Em 1954 os cinéfilos viveram o maior festival de cinema do país durante o IV Centenário, com a presença de Errol Flynn e do diretor Eric von Stroheim, que viu no extinto cinema Marrocos a estréia de seu filme A Marcha Nupcial, assistido por 4 mil pessoas ate penduradas até do lado de fora.

A Cinemateca ficava no topo de um prédio de 13 andares que pertencia aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Foi financiada pela família de Cicicllo Matarazzo, dirigida pelo filho de Oswald de Andrade e Pagú, Rudá de Andrade, sempre com a orientação de Paulo Emilio Salles Gomes.

“Não é possível esquecer”, diz Nelson Pereira dos Santos, “cinéfilos chegavam de toda parte, Glauber, Jean-Claude Bernadet, Vladimir Herzog…” O produtor e cineasta Maurice Capovilla lembra que Rudá organizava festivais de expressionismo alemão, nouvelle vague, o novo cinema polonês. “À frente da Cinemateca, foi o grande transformador da nossa geração de cineastas. Mais tarde tentamos atrair operários no Núcleo de Cinema do Centro Popular de Cultura, o CPC, frequentado por Jabor, Cacá Diegues, Ferreira Gullar, Vianinha”. Um verdadeiro agitador cultural.

Depois de sucessivos incêndios e sete mudanças de sede, conseguiu-se em 1957 um espaço no antigo matadouro de carnes, doado pelo então governador Jânio Quadros.

Seria a sede definitiva da Cinemateca Brasileira na Vila Clementino, que Rudá assumiu para fazer a reforma, conservar os filmes, organizar o Conselho, atrair cineastas. “Tudo o que a gente queria era uma atmosfera para criar cinema”. Para preservar o acervo, na ditadura, por medo de que os militares queimassem tudo, a Cinemateca fazia intercâmbio com a cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio, cada uma com a cópia de todos os filmes da outra, por garantia. “A Cinemateca era um Centro de resistência, o DOPS vivia atrás do nosso fichário. Um dia queimamos mais de 2000 nomes e eles nunca pegaram”.

Os amantes do cinema fizeram tal qual o arquivista e pioneiro na preservação de filmes da Cinemateca francesa, Henri Langlois, que na véspera da Ocupação alemã na França escondeu latas e latas de filmes nos esgotos de Paris.

Depois que deixou a Cinemateca, Rudá nunca se recuperou da perda e lastimou não fazer parte da equipe até morrer aos 78 anos em 2009. O que ele mais queria era reviver a atmosfera de amor ao cinema como aconteceu no começo de tudo. Até hoje é Conselheiro Emérito.

Os cinéfilos podem dizer que viveram uma atmosfera parecida até a intervenção do MinC no final de 2012. Mesmo durante a última e 39ª. Mostra de Cinema Internacional de São Paulo, no ano passado, o público assistiu a mais de 30 filmes na única sala em funcionamento, a BNDS, incluindo Limite. Mas o ponto alto foi a apresentação com música ao vivo, na área externa, de um dos primeiros filmes de Alfred Hitchcock, O Inquilino (1926), dado como perdido, restaurado pelo BFI Nacional Archive. Um privilégio.

Este ano esta memória apagada pode ser estopim para um choque no governo. Quem sabe? Pelo menos o secretário Pola Ribeiro já reconheceu que a Cinemateca precisa ganhar um rumo seguro. “É a jóia da Coroa”. Os cinéfilos aguardam.

Texto e imagens reproduzidos do site: observatoriodaimprensa.com.br