quarta-feira, 9 de setembro de 2020

‘Coordenadores de intimidade’: os vigilantes do novo sexo de Hollywood


Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 18/11/2018 

‘Coordenadores de intimidade’: os vigilantes do novo sexo de Hollywood

HBO é pioneira em criar uma nova figura encarregada de supervisionar as cenas de nudez e sexo em suas filmagens para assegurar a segurança física e emocional dos atores. Falamos com Amanda Blumenthal, que desempenha essa tarefa à rede

Por Carlos Megia 

“Às vezes era humilhante, me senti como uma prostituta”, disse a atriz francesa Léa Seydoux ao ser perguntada sobre as cenas íntimas do polêmico filme Azul É a Cor Mais Quente. “Depois de passar nove horas filmando cenas de sexo fiquei tremendo, as lágrimas escorriam pelo meu rosto”, afirmou Siena Miller, protagonista da adaptação ao cinema do romance de Dennis Lehane A Lei da Noite. “Eu me senti humilhada e, para ser honesta, um pouco estuprada por Brando e Bertolucci. Pelo menos foi somente uma tomada”, confessou Maria Schneider em 2007, quatro anos antes de morrer, sobre a que talvez seja a cena sexual mais controversa da história do cinema, a da manteiga em O Último Tango em Paris. Depoimentos como esses são tão pungentes como habituais entre a maioria das atrizes de Hollywood que, durante décadas, viram como sua segurança e consentimento foram desrespeitados sem nenhum pudor por parte de produtores, diretores e membros da equipe técnica. Com o surgimento de movimentos ativistas como o #MeToo e Time’s Up, os estúdios de filmagem de redes como a HBO contam agora com uma nova figura na equipe: os ‘coordenadores de intimidade’.

Amanda Blumenthal desempenha essa tarefa à rede. Seu trabalho consiste em cuidar da segurança emocional e física dos atores nos momentos de gravação mais íntimos. “Converso com eles antes de entrar no estúdio sobre como se sentem e lhes pergunto se têm alguma dúvida ou preocupação. Algumas vezes mudam de opinião sobre suas cenas de nudez e o quanto querem mostrar, de modo que levo essas inquietações ao diretor e a uma série de departamentos - como o de figurino - para ter a segurança de que têm tudo o que precisam. Durante a gravação também estou presente”, diz Blumenthal a S Moda.

Atualmente a ‘especialista da intimidade’ trabalha na esperadíssima série da HBO Euphoria, produzida pelo rapper Drake e protagonizada por Zendaya, uma das atrizes jovens mais respeitadas de Hollywood. A ficção acompanha o dia a dia de um grupo de estudantes de colégio e suas relações com as drogas, as redes sociais e o sexo, de modo que seu papel na gravação das cenas mais quentes será fundamental à comodidade de um elenco quase adolescente. Como ela explica, o trabalho começa várias semanas antes de entrar no estúdio. “Falo com o diretor sobre como pensam em realizar cada cena para depois passar individualmente aos atores o que se pedirá a eles. É nesse momento que lhes pergunto sobre seus limites e sobre o que se sentem confortáveis fazendo. Se há qualquer discrepância entre o desejo do cineasta e o consentimento do ator, volto a me reunir com o diretor e tentamos encontrar uma solução criativa ao problema”.

'Outlander' tem as cenas de sexo mais 
aplaudidas da televisão.

De acordo com publicação da revista Rolling Stone em outubro, a HBO implementou provisoriamente essa medida a pedido da atriz Emily Meade, que interpreta uma prostituta transformada em estrela do pornô na série The Deuce (de David Simon), protagonizada por James Francos e Maggie Gyllenhaal. A atriz se perguntou por que não existia uma equipe de especialistas que supervisionasse as cenas íntimas, semelhante à que é utilizada em cada cena de ação. O teste foi um sucesso e a rede decidiu colocar esse profissional em todas as suas produções, tanto cinematográficas como televisivas. Tudo leva a crer que outras redes e produtoras seguirão seus passos e já existem até organizações sem fins lucrativos como a Intimacy Directors International, que representa coordenadores de intimidade e coreógrafos de cenas mais quentes.

Blumenthal, que antes de criar esse recente cargo profissional desempenhava seu trabalho como coach de sexualidade e relações sentimentais, considera imprescindível que essa figura passe a ser comum em qualquer set de filmagem. “Para que os atores possam dar seu total consentimento a uma cena devem estar completamente informados sobre o que se espera deles. Há anos não era raro que os diretores pedissem que improvisassem enquanto a câmera estava filmando, mas esse tipo de situação é perigoso e pode levar a uma situação de assédio sexual”. Os coordenadores também são os encarregados de prevenir qualquer ‘liberdade’ do diretor, auxiliando na coreografia e nos ensaios das cenas íntimas.

Emily Meade em 'The Deuce'.HBO

Os sistemáticos abusos sofridos pelas atrizes de Hollywood já deveriam ser uma recordação ruim do passado, sem lugar em uma indústria extremamente profissional. Nem com o método Stanislavski como desculpa. “Os atores fazem seu melhor trabalho quando se sentem seguros, apoiados e empoderados. Quando não precisam se preocupar sobre ser assediados sexualmente e sentir que estão cruzando os limites marcados podem colocar toda a sua energia no personagem e em entregar uma grande interpretação”, diz. Em plena era #MeToo um cargo como o seu, além de surgir como imprescindível, também facilita o trabalho do restante da equipe. “Sempre fui muito bem recebida em cada set em que estive. Eles me demonstraram uma espécie de alívio porque muita gente se sente incômoda lidando com temas de sexualidade e nudez, de modo que minha presença torna sua vida mais fácil. O que mais me dizem é que não podem acreditar que o trabalho de coordenador de intimidade não tenha sido criado antes”.

Tal como colocam no Mashable em um artigo chamado A Nova Cena do Sexo, o movimento #MeToo não significa exclusivamente expulsar alguns predadores sexuais do panorama de Hollywood e sim de como a meca do cinema deve mudar suas contribuições a uma cultura sexual tóxica. De modo que o papel dos coordenadores, além de garantir o bem-estar dos atores, é fundamental à representação e aos papéis sexuais de homens e mulheres na telona e como os espectadores veem isso. “Noto que as pessoas têm muito mais precaução e estão muito mais sensibilizadas quando é preciso rodar uma cena de sexo e com nudez. Há um nível maior de alerta e de conscientização”, diz Blumenthal. Mesmo que o caminho a percorrer ainda seja tão longo e complicado, as ficções dão um novo passo à frente com a existência desse novo cargo que deverá ser fundamental nos filmes e séries do presente e futuro. Uma figura que impedirá que se repitam as injustiças e o assédio sexual a que se viram submetidas Léa Seydoux, Siena Miller, Maria Schneider e tantas outras artistas.

Uma das cenas de 'Me Chame Pelo Seu Nome'.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

domingo, 6 de setembro de 2020

Sexo real ou arte cinematográfica?...

Donald Sutherland e Julie Christie mostram a intimidade 
de um casal no filme ‘Inverno de Sangue em Veneza’.

Publicado originalmente no site do jornal EL PAÍS BRASIL, em 22 de agosto de 2020

Sexo real ou arte cinematográfica? A verdade sobre a cena erótica mais controvertida da história do cinema

A lenda que cerca o cultuado clássico ‘Inverno de Sangue em Veneza’ aponta que Julie Christie e Donald Sutherland, bons amigos e companheiros de baladas, deixaram-se levar pela situação e acabaram fazendo sexo na frente das câmeras

Por Miquel Echarri

A versão oficial não mudou em 47 anos: a cena de sexo de Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, 1973), uma das mais expressivas, convincentes e controvertidas da história do cinema, é pura simulação. Arte cinematográfica de alto quilate, capaz de traduzir para a tela a vertigem, a paixão e a desordem do sexo real. Mas não sexo real. Não “pornografia sublimada e elevada ao cubo”, como insistiu em descrevê-la Claire Fagan em um artigo recente na revista Vinyl Writers.

No entanto, a teimosa lenda que persegue o filme desde sua estreia aponta para outra direção. Uma atriz e um ator que tinham trabalhado juntos em várias ocasiões, que eram bons amigos e companheiros habituais de baladas nos libertinos, narcóticos e promíscuos anos setenta, rodam uma cena íntima de uma intensidade praticamente sem precedentes sob o comando de um diretor inovador (Nicolas Roeg), deixam-se levar pela situação e acabam fazendo sexo na frente das câmeras.

Ele comete inclusive a indiscrição de admitir isso em uma entrevista, achando que essa confidência atrevida pode ser uma ótima promoção para o filme, que é magnífico, mas também modesta, e talvez precise de um empurrão. No dia da estreia, assustados com a repercussão de sua travessura, atriz e ator, com a cumplicidade reticente de seu diretor, chegam à conclusão de que é preferível negar os fatos, não admitir nunca mais que há algo real, genuíno e “pornográfico” nesses quatro minutos e meio de sexo eletrizante embalado a vácuo.

Dois amigos nus

A cena foi rodada em um hotel de Veneza, em uma tarde de final de janeiro de 1973. No quarto do Bauer Grunwald (hoje hotel Bauer Palazzo, às margens do Grande Canal) se reuniram quatro pessoas. Os dois atores, Julie Christie (Chabua, Índia, 1940) e Donald Sutherland (Saint John, Canadá, 1935), o diretor, Roeg (Londres, Reino Unido, 1928), e o diretor de fotografia, Tony Richmond. Como explicou Sutherland em uma entrevista à Vulture em março de 2018, “foi filmada com duas câmeras Arriflex sem som, em tomadas muito curtas, de uns 15 ou 20 segundos, com Nic e Tony muito próximos de nossos corpos nus”.

Entre uma tomada e outra, Roeg corrigia a posição dos atores e lhes dava instruções básicas: “Julie, aconchegue-se nas costas de Donald e morda delicadamente o pescoço dele. Donald, incline-se devagar em direção a ela e passe o braço em volta do pescoço [de Chrtistie]”. O diretor tinha garantido aos atores que aquilo seria rápido e indolor, que as tomadas ficariam prontas em menos de dez minutos. Mas Sutherland lembra que eles ficaram “cerca de meia hora, talvez um pouco mais” nus naquela cama “fazendo contorções estranhas”, um pouco constrangidos, mas muito concentrados, em um clima de tensa calma.

No relato tardio do ator, fica claro que não foi uma experiência íntima, mas também não foi totalmente incômoda. Perto do final dessa sessão vespertina, Christie começou a rir, Roeg parou de dar instruções e os atores começaram a se deixar levar pela inércia do momento. A rígida coreografia de corpos nus se mexendo sob ordens quase marciais deu lugar a algo muito mais espontâneo, intuitivo e dinâmico, muito mais parecido com o verdadeiro sexo.

A maioria das tomadas incluídas no filme é desses últimos minutos, quando surgiram o humor, o entusiasmo e a magia. Incluído o cunnilingus (não explícito, mas quase), iniciativa de Sutherland. Era a primeira vez que essa prática tão frequente na intimidade de milhões de casais aparecia na telona em um filme não pornográfico.

Uma ideia de última hora

A cena não estava nem prevista no roteiro. Inverno de Sangue em Veneza pretendia ser um filme de gênero, um terror psicológico em uma Veneza sombria e enevoada, e não precisava de interlúdios eróticos. Para Roeg, um veterano diretor de fotografia que tinha estreado na direção três anos antes com Performance, a essência do filme estava em mostrar como uma tragédia inconcebível, a morte acidental de sua pequena filha, acabava destruindo a conexão física e emocional de um casal. Ele já tinha rodado cenas de desentendimentos e longas discussões entre Christie e Sutherland, mas sentia que em seu retrato de amor e intimidade gradualmente reduzidos a escombros pelo infortúnio faltava precisamente essa dose de amor e intimidade.

Assim, concebeu essa breve cena: marido e mulher em um quarto de hotel, aproximando-se um do outro sem aviso prévio e cedendo a um repentino impulso erótico depois de semanas, talvez meses sem se tocar. Roeg propôs a cena primeiro a Julie Christie e ela, uma atriz já consagrada em Hollywood, mas formada no compromisso com a realidade do free cinema britânico do início dos anos sessenta, não teve nenhum problema. Quem se sentiu incômodo com a proposta foi o canadense Sutherland, um ator com fama de iconoclasta e subversivo, intimamente ligado à contracultura da nova Hollywood graças a filmes como M*A*S*H (Robert Altman, 1970) e Klute (Alan J. Pakula, 1971), mas que ainda hoje se define como “muito tímido e muito pouco acostumado a tirar a roupa na frente de outras pessoas”. No entanto, aceitou, convencido, como sempre esteve, de que “o mínimo que se pode exigir de um verdadeiro ator é que se comprometa com o filme que está fazendo”.

Roeg lhes garantiu que, da forma como ele a concebeu, aquela cena de sexo seria diferente de todas as outras. E foi mesmo. Praticamente pela primeira vez, embora fosse em uma produção ítalo-britânica de médio orçamento, era exibida a intimidade de duas estrelas de Hollywood sem recorrer a filtros, elipses recatadas, dublês de corpo ou lençóis de cetim traçando pudicas fronteiras na superfície da pele.

A intimidade vista de outra maneira

Aquela cena era uma sinfonia de lubricidade crua e entusiasmada. De lábios inchados, rubor nas bochechas, mordiscos nos braços e panturrilhas, lambidas nas axilas e na sola do pé. Vista hoje, surpreende por sua naturalidade e faz com que pensemos, como escreveu Nick Schager em um artigo na Esquire, em “como o cinema nos mostra frequentemente a primeira vez de duas pessoas que acabam de se conhecer e como é estranho observar a intimidade de um casal com suas rotinas conjugais, suas pequenas perversões consensuais e compartilhadas, seu conhecimento do corpo um do outro e dos estímulos que ativam seu desejo”. Ao mesmo tempo, Roeg nos lembra como pode ser moderno e sugestivo fazer cinema com o corpo, em sintonia com seus ritmos, com seus gestos.

Já na mesa de montagem, o diretor londrino teve uma nova intuição que acabou de transformar aquela cena em algo excepcional. Decidiu alternar sequências de Laura (Christie) e John (Sutherland) fazendo amor com breves inserções do casal se vestindo para jantar após sua improvisada sessão de sexo. Segundo o próprio Roeg, foi principalmente uma tentativa de reduzir a crueza da cena para que o filme pudesse passar pelo corte da censura no Reino Unido. Mas foi também, nas palavras de Schager, “um enorme acerto criativo, porque integra presente e futuro imediato, permitindo que sejamos testemunhas, de maneira simultânea, da intensidade da relação sexual, um prazer efêmero, e da placidez pós-sexo, do momento de relaxamento em que os amantes terminam de processar e, portanto, desfrutam novamente o que fizeram”.

Os censores britânicos aprovaram a cena. Eles a consideraram muito digna, “realizada com bom gosto e perfeitamente justificada do ponto de vista narrativo”, demonstrando que nem todos que exercem a censura são caretas de olhar turvo. Nos Estados Unidos, Roeg só precisou eliminar nove fotogramas (nos quais se intuía o pênis de Sutherland e sua língua entre os quadris de Christie) para que o filme fosse qualificado como “R” (que pode ser visto por adolescentes acompanhados por pais ou responsáveis) em vez de “X” (proibido para menores). Nas palavras do diretor: “Examinaram [a cena] com lupa e não encontraram nada reprovável. É claro que foi montada de uma forma que fica muito mais explícita na mente do espectador do que na tela. Se você vê que os atores estão iniciando um determinado movimento, em seguida é inserido um plano muito breve de outra coisa e aí você volta para eles e os corpos mudaram de posição, é óbvio que sua mente preenche os espaços vazios. Mas o fato é que eu não mostrei nada que os critérios da época proibissem, por isso não puderam me obrigar a suprimir a cena”.

Uma pequena indiscrição

A verdadeira polêmica veio meses depois, coincidindo com a estreia do filme tanto no Reino Unido, em 16 de outubro de 1973, como nos Estados Unidos, poucas semanas depois. Aparentemente, em uma entrevista com o crítico de cinema do tabloide britânico Daily Mail, Sutherland chegou a dizer off the record que, se a cena parecia real, era “por razões óbvias”. A frase não foi publicada na entrevista, mas citada em uma coluna de rumores e fofocas na qual se afirmava também (aparentemente sem fundamento) que Warren Beatty, namorado de Julie Christie na época, tinha viajado para Londres para convencer o Nicolas Roeg a cortar a cena. A própria Christie declararia anos depois que aquela era uma lenda urbana “mal-intencionada e ridícula”: “Warren era meu namorado, não meu agente nem meu tutor legal. Não era ninguém que pudesse tomar decisões sobre minha carreira nem fazer exigências desse tipo”.

O fato é que a (suposta) indiscrição de Donald Sutherland teve muito mais peso durante anos do que os contínuos desmentidos de Christie, de Roeg e do próprio Sutherland. Pois é, na dúvida entre a lenda e a realidade, publique a lenda. Inúmeros artigos e até ensaios sobre cinema e sexualidade optaram por publicar a lenda. Alguns deles espalharam a tese de que Inverno de Sangue em Veneza foi uma espécie de elo perdido na conquista de um novo olhar erótico cinematográfico, o grande precursor de filmes muito posteriores que mostraram sexo real, não simulado, sem por isso incorrer abertamente na pornografia, como Os Idiotas (Lars von Trier, 1998), Romance (Catherine Breillat, 1999), Intimidade (Patrice Chéreau, 2001), 9 Canções (Michael Winterbottom, 2004) e All About Anna (Jessica Nilsson, 2005).

O próprio Winterbottom contribuiu involuntariamente para a confusão ao afirmar que o filme de Roeg é a prova mais clara de que se pode “filmar sexo real entre seres humanos sem cair na estereotipada e degradante estética pornográfica, tudo é questão de como iluminar, como escolher os ângulos de câmera e como editar depois o resultado”. Uma frase impecável, se não fosse porque Roeg não filmou, aparentemente, sexo real entre seres humanos, apenas uma imitação cinematográfica muito boa.

O coadjuvante linguarudo

Os ecos da velha polêmica já tinham praticamente se dissipado quando, em 2011, um coadjuvante surgiu em cena reivindicando seus 15 minutos de fama. O jornalista Peter Bart, que tinha sido produtor executivo da Paramount em 1973, publicou Infamous Players: A Tale of Movies, the Mob (and Sex), um livro de memórias de seus anos dedicados ao cinema, com clara vocação de best seller polêmico. Nele, afirmou que esteve presente durante a filmagem da cena e assistiu, com crescente espanto e incômodo, “ao vaivém” do pênis de Sutherland muito perto da vagina de Christie. Em determinado momento, sempre segundo a versão de Bart, “o ângulo em que os dois corpos estavam não deixava dúvidas: estavam transando diante das câmeras”.

Bart afirma que até sugeriu a Roeg que parasse de filmar, já que Christie e Sutherland precisavam de “intimidade”, porque já não estavam atuando, e o diretor lhe respondeu: “Espere um pouco, quero ter certeza de que tenho todo o material necessário. Depois os deixamos em paz”. O produtor afirmou também que foi ele quem recebeu, poucas semanas depois, um telefonema de Warren Beatty em que o ator criticava o “jogo sujo que fizeram com Julie” e se oferecia para ajudar Roeg a remontar de uma maneira “aceitável” a cena. “Vocês querem destruir a carreira dela?”, perguntou Beatty, nas palavras do ex-produtor. “Ela confiou em Nic, colocou-se nas mãos dele, e é assim que vocês pagam?”, acrescentou o ator, segundo Bart.

O relato de Bart foi desmentido categoricamente por Sutherland. O ator garantiu, em um breve comunicado, que “apenas quatro pessoas estavam naquele quarto, e estamos falando de uma época em que não havia monitores de vídeo, por isso ninguém mais pôde ver o material enquanto estávamos filmando”. Peter Katz, produtor do filme, endossou a versão de Sutherland, afirmando que “a cena de sexo é simulada e o que Bart diz é produto de sua imaginação, sua falta de ética ou sua má memória”. Até Julie Christie, que há anos tenta ficar à margem dessa polêmica tão incômoda e recorrente, declarou que, se a cena “parecer tão real, é porque tanto Nic como Donald e eu fizemos um ótimo trabalho”.

Como o zumbido de uma máquina de costura

Na entrevista com a Vulture, Sutherland fez um grande esforço para resolver o assunto de uma vez por todas. Para mostrar até que ponto suas lembranças da filmagem são precisas, o ator canadense descreveu até “o zumbido das duas câmeras Arriflex, que soam como uma máquina de costura Singer cheia de anfetaminas”, os cortes contínuos e as breves e muito precisas instruções de Roeg. Naquelas circunstâncias, segundo Sutherland, excitar-se a ponto de fazer sexo de verdade teria sido impossível: “Eu estava muito constrangido. Julie, por razões muito concretas que não vêm ao caso, também estava muito constrangida. Estávamos lá, naquela cama, tímidos, nus e na expectativa, como Adão e Eva esperando que alguém nos oferecesse uma maçã”.

Em 2013, como preparação para a filmagem da primeira temporada de Masters of Sex, a equipe da série, produtores, técnicos e atores, buscou inspiração vendo e comentando uma seleção de 50 cenas de sexo de filmes dos últimos 40 anos. A melhor, na opinião de quase todos eles, era a mais antiga. A de Inverno de Sangue em Veneza. A roteirista e produtora Michelle Ashford explica que eles ficaram entusiasmados vendo como a cena “acaba sendo erótica sem nem mesmo pretender isso, como a sensualidade está na expressão de seus rostos, no cabelo despenteado e nos lábios ligeiramente inchados de Christie, no desleixo com que Sutherland coloca a gravata logo depois de fazer amor”. John Madden, o diretor do capítulo piloto da série, compartilhou com a equipe que todas as cenas eróticas que ele rodou em sua carreira “foram inspiradas diretamente na de Inverno de Sangue em Veneza, nessa difícil naturalidade que a aproxima tanto da experiência do sexo real”.

Mas nem só de sexo vive Inverno de Sangue em Veneza. Como lembra Nick Schager, “o filme tem virtudes que vão muito além desses quatro minutos e meio de êxtase sexual”. Mostra uma Veneza insólita, cheia de lugares decrépitos, morte, desolação e decadência, e a coloca a serviço de uma intriga sobrenatural rica e ambígua. Tem um clima impecável, imagens de uma pureza quase hipnótica, um roteiro com muitos mais detalhes e reviravoltas que o conto de Daphne du Maurier no qual se baseia, e um desenlace que deixa os espectadores perplexos, convidando-os a rebobinar o filme em sua cabeça, fotograma por fotograma, em busca de seus segredos ocultos. Tem tantas e tão notáveis virtudes que um grupo de especialistas reunido pela revista Time Out o escolheu em 2011 como o melhor filme britânico de todos os tempos, superando até mesmo obras-primas que geram tanto consenso como O 3º Homem, Barry Lyndon, Kes, 39 Degraus, Os Sapatinhos Vermelhos, Se..., A Solidão do Corredor de Fundo e Desencanto.

A grande pérola da filmografia de Roeg é, como diz Sutherland, “um filme do qual se orgulhar muito”. Com ou sem a fascinante controvérsia que sempre cercou a mais célebre de suas cenas.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

Filme: "Inverno de Sangue em Veneza" (1973), de Nicolas Roeg



















sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Filme: "O Cantor de Jazz" (1927), de Alan Crosland










Dez fatos sobre o “Cantor de Jazz”...

O Cantor de Jazz - Estreia lotada

Publicado originalmente no site MEGACURIOSO, em 6 de outubro de 2017

Dez fatos sobre o “Cantor de Jazz”, o primeiro filme falado da história.

Por Diego Denck

1. “O Cantor de Jazz” foi o primeiro filme falado da História a realmente mexer com o imaginário popular e estreou em 6 de outubro de 1927, na cidade de Nova York. No dia seguinte seria comemorado o feriado judeu do Yom Kippur, no qual se baseia o filme.

2. Antes de “O Cantor de Jazz”, filmes como “Don Juan”, de 1926, já traziam imagens e sons, mas nenhum de forma tão envolvente quanto este marco cinematográfico, que por conta disso ficou com a alcunha de “primeiro filme falado da História” ainda que não tenha sido.

3. O filme tem 89 minutos e teve o som gravado separadamente das imagens, através de uma tecnologia chamada Vitaphone, desenvolvida pelos estúdios Warner.

4. O sistema Vitaphone gravava sons em discos e era bastante complexo, precisando ser tocado em sincronia com a projeção. A tecnologia foi usada durante apenas 4 anos, até ser substituída por uma mais avançada.

Vitaphone

5. Como se tratava de uma transição do cinema mudo para o falado, “O Cantor de Jazz” tem longas sequências em silêncios interrompidas com canções esporádicas.

6. Na época, o racismo ainda era muito evidente nos EUA, e os negros raramente apareciam no cinema. Por isso, o ator Al Jolson utilizou a hoje bastante criticada técnica de maquiagem blackface, na qual um intérprete branco escurece o rosto para se passar por um afro-descendente.

O Cantor de Jazz

7. “Espere um minuto, espere um minuto, você ainda não ouviu nada”: essa foi a primeira frase da história do cinema, sendo eleita a 71ª melhor de todos os tempos pelo American Film Institute.

8. O filme custou US$ 500 mil – uma grande quantia para os padrões de Hollywood em 1927. Felizmente, a Warner arrecadou uma bilheteria quase 8 vezes maior (US$ 3,9 milhões) e provou que o público estava preparado para a novidade.

O Cantor de Jazz

9. A princípio, a Warner queria que o ator de teator George Jessel, que já havia levado “O Cantor de Jazz” aos palcos, atuasse no longa-metragem, mas Jessel queria cobrar um cachê mais alto por aparecer com sua voz no filme. Por conta disso, ele foi substituído por Al Jolson. 

10. Em uma triste fatalidade, um dos fundadores da Warner Brothers, Sam Warner, principal entusiasta do cinema falado e da Vitaphone, morreu às vésperas do lançamento do filme, em 5 de outubro. Os outros irmãos, Harry, Albert e Jack, que também financiaram a produção, perderam a estreia por conta do velório.

Os irmãos Warner

Texto e imagens reproduzidos do site: megacurioso.com.br

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

'Pantera Negra' é repleto de referências históricas e culturais

O herói Pantera Negra é interpretado 
por Chadwick Boseman
Foto: Divulgação

Texto publicado originalmente no site da revista GALILEU, em 21 de fevereiro de 2018

'Pantera Negra' é repleto de referências históricas e culturais

Filme da Marvel homenageia a diversidade cultural dos povos africanos e reafirma sua luta por direitos

Da redação da revista Galileu  

O ano de 2018 ainda está começando, mas a Marvel já emplacou um de seus maiores sucessos: primeiro filme da produtora protagonizado por um herói negro, Pantera Negra bateu recordes de bilheteria em seu final de semana de lançamento e já arrecadou mais de US$ 426,6 milhões — superando toda a receita de filmes da empresa como Capitão América: O Primeiro Vingador.

A história de T'Challa, líder do reino fictício de Wakanda que ganha os poderes de Pantera Negra para proteger o seu povo, ganhou elogios do público e da crítica especializada não apenas pela história bem contada e pelo visual impecável.

O filme também é histórico ao apresentar atrizes e atores negros como protagonistas, valorizando as particularidades culturais e históricas dos povos africanos para além dos estereótipos. Sem contar as personagens femininas do filme, que têm papel fundamental para o desenrolar da trama.

Além disso, Pantera Negra é repleto de referências históricas, políticas e culturais que contam a trajetória do movimento negro nos Estados Unidos pela luta por direitos sociais. Assim como no Brasil, a sociedade norte-americana conviveu com a escravidão de seres humanos durante séculos, deixando cicatrizes ainda não curadas, como a segregação, a falta de oportunidades iguais e a desigualdade econômica entre brancos e negros (alguma semelhança com nosso país?).

Ainda que dentro dos limites possíveis para um blockbuster que precisa ter fácil assimilação, algumas das cenas de Pantera Negra são uma tremenda lição para quem insiste em afirmar que o racismo não existe — de Donald Trump a exemplares de nossa política. Confira abaixo as principais referências (com quase nenhum spoiler):

Baltimore, a cidade do Pantera Negra

Na primeira cena do filme, é mostrado um flashback que acontece em Oakland, nos Estados Unidos. A escolha desse local não é por acaso: a cidade localizada no estado da Califórnia foi o berço do movimento do Partido dos Panteras Negras, que surgiu como reação após episódios seguidos de violência policial cometidos contra a população negra.

Vale lembrar que em plena metade do século 20, alguns estados norte-americanos mantinham leis de discriminação racial que não eram diferentes daquelas praticadas pelo regime branco sul-africano do Apertheid ou das primeira leis segregacionistas da Alemanha nazista. Até a década de 1960, por exemplo, salas de aula, assentos de ônibus e bebedouros eram divididos para a população branca e para a população negra.

Diante disso, movimentos e líderes negros lutaram por direitos de mínima igualdade civil. Alguns deles, como o pastor Martin Luther King Jr. (assassinado em 1968) pregava um ativismo pacífico pela conquista de direitos. Já lideranças como Malcolm X (assassinado em 1965) e os membros do Partido dos Panteras Negras acreditavam que apenas superariam a situação de opressão por meio de métodos revolucionários e violentos — em termos gerais, o personagem Killmonger (interpretado por Michael B. Jordan) é fruto direto desse cenário de tensão social. Ele é responsável por uma das frases mais fortes do filme, quando relembra os anos de escravidão sofridos pelos antepassados africanos. 

Foi apenas em 1964 que uma Lei de Direitos Civis foi promulgada nos Estados Unidos, que extinguiu as leis de segregação racial adotadas por alguns estados da federação.

Em uma das cenas que acontecem em Oakland, é possível ver um pôster com os membros do Public Enemy. Formada na década de 1980, o grupo de rap ficou conhecido por conta de suas letras politicamente engajadas e que criticam o racismo estrutural dos Estados Unidos.

Wakanda para sempre!

Pantera Negra retrata a riqueza das etnias que compõem a África. De certa forma, o reino fictício de Wakanda é uma pequena utopia que representa as potencialidades de todos os países africanos por conta de seus recursos naturais.

Aqui, vale outra pequena lembrança histórica: o cenário de guerras e instabilidades políticas que acompanharam a maior parte dos países africanos nas últimas décadas é consequência direta da ação das nações europeias, que colonizaram territórios africanos durante os séculos 19 e 20 e realizaram divisões territoriais sem levar em conta as particularidades étnicas, culturais e religiosas de cada povo.

Como consequência, as riquezas naturais continuaram sendo exploradas pelas empresas dos países ricos, enquanto grupos militares locais disputavam o poder dos territórios africanos.

Figurino impecável

Apesar da presença do discurso político e social, Pantera Negra surpreende ao retratar a diversidade cultural de todos os povos africanos. Dirigido por Ryan Coogler (que é negro), o filme apresenta trajes, máscaras e marcas corporais que são inspiradas em diferentes etnias. No Twitter, a usuária somaliana Waris mostra algumas das referências presentes no longa-metragem.

Os trajes das guerreiras de elite de Wakanda, por exemplo, são inspirados no povo Maasai, que vivem no sul do Quênia e no norte da Tanzânia:

Já os trajes coloridos utilizados por T'Challa são inspirados em algumas vestes do grupo étnico Akan, que vive no território que compreende Gana — na África Oriental.

Um dos conselheiros de T'Challa, que representa um dos grupos étnicos de Wakanda, possui um prato labial semelhante ao utilizado pelos Mursi: eles vivem no sudoeste da Etiópia e mantém tradições religiosas ligadas ao animismo — que entendem a relação entre o mundo espiritual e físico a partir da integração com a natureza (como é mostrado em algumas cenas de Pantera Negra).

Texto e imagem reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com

domingo, 30 de agosto de 2020

Chadwick Boseman, astro de 'Pantera Negra', morre aos 43 anos

Chadwick Boseman em foto de 2014
Foto: Dan Hallman/Invision/AP

Chadwick Boseman, astro de 'Pantera Negra', 
em foto de março de 2018
Foto:  Jordan Strauss/Invision/AP, File

Publicado originalmente no site G1 GLOBO, em 28 de agosto de 2020 

Chadwick Boseman, astro de 'Pantera Negra', morre aos 43 anos

Ator lutava contra câncer de cólon desde 2016 e morreu em sua casa, nos Estados Unidos.

Por G1

O ator Chadwick Boseman morreu aos 43 anos. Conhecido por interpretar o Pantera Negra no filme da Marvel, além de personagens importantes da história americana, ele enfrentou um câncer de cólon diagnosticado em 2016.

"É com imensurável pesar que confirmamos a morte de Chadwick Boseman. Chadwick foi diagnosticado com câncer de cólon de estágio 3 em 2016, e lutou contra ele nestes últimos quatro anos conforme progrediu para estágio 4", afirmou a família do ator em seu perfil no Twitter.

"Um verdadeiro lutador, Chadwick perseverou por tudo, e trouxe a vocês muitos dos filmes que tanto amam. De 'Marshall: Igualdade e Justiça' a 'Destacamento Blood', 'Ma Rainey's Black Bottom' de August Wilson e muitos mais, todos foram gravados durante e entre incontáveis cirurgias e quimioterapia. Foi a honra de sua carreira trazer à vida o rei T'Challa em 'Pantera Negra'."

De acordo com a nota, ele morreu em sua casa, acompanhado da mulher e da família. Ele nunca tinha falado sobre a doença publicamente.

Nascido na Carolina do Sul, o americano Chadwick Aaron Boseman começou a carreira na televisão, com um pequeno papel na série "Parceiros da Vida".

Depois de participações em séries como "Lei & Ordem" e "Plantão médico", ele ganhou seu primeiro papel regular em "Lincoln Heights", em 2009.

Seu primeiro personagem de destaque no cinema veio como o protagonista de "42: A História de uma Lenda" (2013).

No filme baseado em fatos, interpretou o jogador de beisebol Jackie Robinson, que em 1947 se tornou o primeiro negro a entrar para um time da principal competição dos Estados Unidos, a Major League Baseball.

O papel marcaria uma carreira repleta de personagens importantes da cultura negra americana, como o cantor James Brown, em "Get on Up: A História de James Brown" (2014), e o juiz Thurgood Marshall, primeiro membro negro da Suprema Corte americana, em "Marshall: Igualdade e Justiça" (2016).

Ainda em 2016, ele estreou no papel pelo qual seria mais lembrado. Em "Capitão América: Guerra Civil", Boseman apareceu pela primeira vez como T'Challa. Criado pela Marvel em 1966, o Pantera Negra foi o primeiro super-herói negro dos quadrinhos americanos.

Dois anos depois, estrelou seu próprio filme, "Pantera Negra". Sucesso com crítica e com o público, a história do herói de um reino africano fictício e avançado bateu a marca do US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais, ganhou três Oscar e foi indicado a outros quatro — entre eles, o de melhor filme.

Como o herói, ele ainda participou de "Vingadores: Guerra Infinita" (2018) e de "Vingadores: Ultimato (2019), e tinha presença confirmada em um novo "Pantera Negra", previsto para 2022.

Seu trabalho mais recente já lançado foi "Destacamento Blood", dirigido por Spike Lee, que estreou em junho. Ele ainda esteve em "Ma Rainey's Black Bottom", com Viola Davis, que tinha estreia prevista em 2020.

Representatividade

Em 2018, a reportagem do G1 acompanhou uma sessão de 'Pantera Negra' com jovens negros em um shopping de Niterói, no Rio de Janeiro.

"Desde criança nunca vi um herói negro, uma heroína negra. Nunca me senti representado. Hoje estou muito feliz e penso nas crianças que vão se sentir representadas", disse na ocasião o estudante Lucas Adeniran.

Texto e imagens reproduzidos do site: g1.globo.com

Filme: "Pantera Negra" (2018), de Ryan Coogler