segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Era uma vez no cine Tupy…


Originalmente publicado no site maisbahia.com.br, em 18/01/2013.

Era uma vez no cine Tupy…
Por Andre Setaro. 


Minha formação de cinéfilo deve muito ao cinema Tupy, que li numa reportagem recente, transformou-se em cinema pornô de última categoria, onde são exibidos filmes de alta tensão pornográfica, sendo que alguns, inclusive, feitos em casa, domésticos. Acredito, mas não posso afirmar, que a projeção é em DVD. Algumas salas da cidade já abandonaram o celulóide e possuem potentes projetores que passam bem cópias em DVD e o público não repara, a pensar que são filmes em película como antigamente. Segundo um especialista no assunto, um diretor do grupo Severiano Ribeiro, do Rio, o Festival de Cannes já abandonou o celulóide, e passa todos os filmes em digital. E um filme médio em longa metragem é do tamanho de uma carteira de cigarros. O que estabelece uma diferença monumental com as latas de celulóides, pesadas, que precisavam de carreto para chegar às salas de cinema, com os fretes caros etc. Vai chegar um dia em que (se é que não chegou) o filme será programado em tal hora e, nesta, a sala recebe um sinal que permitiria a sua projeção, assim como uma televisão a cabo ou por satélite. Mas o Tupy foi o cinema que passava os filmes na bitola de 70mm, chegando o exibidor a fazer uma propaganda enganosa a chamá-lo, nos anúncios em jornais, de “Tupy-Cinerama”. A rigor, o processo Cinerama, no Brasil, existiu apenas no cine Comodoro, na Avenida São João, na capital paulista. O Tupy tinha a grandiosidade da bitola 70mm, mas não Cinerama.

Foi nesta sala exibidora que vi os grandes épicos de Hollywood. Foi aí que estive presente ao lançamento de "Os dez mandamentos", de Cecil B. De Mille, no primeiro semestre dos já longínquos 1960. Inaugurado em 31 de julho de 1956, o cine Tupy sofreu a decadência da Baixa de Sapateiros, que obrigou ao fechamento do Jandaia, Aliança e Pax.
 
O exibidor Francisco Pithon gostava de colocar em seus cinemas nomes indígenas, a exemplo do Tupy, Guarany, Tamoio e Timbira (este em Feira de Santana). A exceção era o Liceu (da rua Saldanha da Gama) para preservar o nome da instituição que o abrigava: o Liceu de Artes e Ofícios.

Época dos grandes épicos hollywoodianos, todos eles eram lançados no Tupy: além de "Os dez mandamentos", "Ben-Hur", de William Wyler, "Spartacus", de Stanley Kubrick (com Kirk Douglas no papel-título), "El Cid", de Anthony Mann, entre outros, e, mais adiante, em janeiro de 1969, a "space opera" "2001, uma odisséia no espaço", de Kubrick, além de musicais como "Funny Girl", de Wyler, filme que deu o Oscar a então estreante Barbra Streisand, "Sweet Charity", de Bob Fosse, com Shirley MacLaine (musical inspirado em "As noites de Cabíria", de Federico Fellini), "Hello Dolly", de Gene Kelly, também com Streisand e Walter Matthau. O espaço não daria para ficar a citar os filmes memoráveis que vi na tela gigantesca do Tupy.

O primeiro filme que vi neste cinema foi "A volta ao mundo em 80 dias", de Michael Todd, superprodução baseada no livro homônimo de Jules Verne, com David Niven, Shirley MacLaine, Cantiflas (o comediante mexicano Mario Moreno – o produtor chegou a fazer um convite a Oscarito para este papel, mas o genial comediante brasileiro não aceitou porque não queria sair do Brasil, do seu Rio de Janeiro). Lembro-me que o Tupy fechou por algumas semanas para ajustar seu projetor às exigências da bitola, pois não possuía ainda a lente anamórfica (lançada na Bahia pelo Guarany em “O manto sagrado”).

O cinema, que tinha, no teto, assustadoras teias de renda negra, foi reformado em meados de 1968, e, reaberto, era outro, com tudo mudado, feita, realmente, uma reforma completa com a instalação do projetor de 70mm, mudança total das poltronas e da tela e, ainda, a colocação de um moderno sistema sonoro. O filme que o reinaugurou foi “Uma batalha no inferno”, de Ken Annakin.

Salvador não tinha cinemas que pudessem exibir filmes na bitola 70mm, ainda que, na década de 60, muitos fossem rodados nesta dimensão de película. Os grandes espetáculos, nesta bitola, eram aqui apresentados em 35mm. O novo Tupy veio para atender a uma necessidade. Seu exemplo foi seguido pelo Capri (no Largo 2 de Julho) e, por incrível que pareça, pelo Rio Vermelho. Mas nenhum destes tinha a majestade do cinema Tupy. Os filmes mais antigos, originariamente em 70mm, foram reapresentados nesta magnífica sala exibidora, a exemplo dos épicos citados e de outros como "My fair lady", "Lawrence da Arábia", "Dr. Jivago", "A filha de Ryan", etc.

A sua sala de espera era um espetáculo à parte. Idealizada pelo artista Juarez Paraíso, com os painéis brancos, a dar uma impressão de ficção-científica, neles era contada a história do cinema, com gravuras de antigos projetores, filmadoras, o cinematógrafo dos Irmãos Lumières (inventores do cinema), e até os retratos de Walter da Silveira e Glauber Rocha. Em meados da década de 70, porém, Pithon (em associação à Condor Filmes) pressentiu a decadência dos cinemas de rua e, particularmente, os situados na Baixa de Sapateiros. E transferiu o controle a terceiros. A UPI (que se chamava CIC – Cinema Internacional Corporation) passou a ter o controle programativo do Tupy, e a primeira coisa que fez foi jogar, no lixo, os murais de Juarez Paraíso.

Era o fim do grande cinema Tupy.

Texto e imagem reproduzidos do site: maisbahia.com.br

2 comentários:

  1. Prezado Armando Maynard, boa tarde, tudo bem?

    Estive vasculhando pela internet quando, para minha surpresa, me deparei com um banner do meu blog linkado ao seu espaço, aliás, congratulo pelo seu blog, que resgata fascinantemente muito da memória cinematográfica, seja pelos seus filmes ou pelas suas antigas salas de exibição.

    Adicionei o link do seu blog no “BlogRoll” do FILMES ANTIGOS CLUB, bem como pus um banner na ala de “Parceiros” no mesmo espaço. Parabéns pelo CINEMATECA DA SAUDADE e pelas matérias de qualidade e primor.

    Abraços do
    PAULO TELLES
    Editor do Blog FILMES ANTIGOS CLUB.
    http://articlesfilmesantigosclub.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigado caro Paulo Telles e um grande abraço.

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