segunda-feira, 13 de agosto de 2018

O Mundo Fantástico de Fernandinho


Publicado originalmente no site Meus Sertões, em 18 de julho de 2017 

O Mundo Fantástico de Fernandinho 

Por Paulo Oliveira 

Hidroaviões aterrissavam no rio São Francisco, a locomotiva e os vagões dos trens de carga e de passageiros eram desengatados para serem transportados por ferry-boat de Sergipe para Alagoas. O cenário fantástico de Propriá, entre 1948 e 1980, tinha tudo a ver com os filmes que os cinemas existentes nesse período passavam em suas telas.

O faroleiro da reserva da Marinha, Luiz S. Britto, um dos 15 filhos do empresário Clementino Brito Jr., lembra do tempo em que trabalhou de bilheteiro e projetor de filmes no Cine Fernandes, construído por seu pai. O nome do estabelecimento é uma referência ao sobrenome de parentes renomados do proprietário e valeram ao dono o apelido de Fernandinho.

“Eu ficava na bilheteria quando meu pai viajava para Salvador, onde assinava os contratos com a distribuidora de filmes, na Avenida Sete. Na época, só passavam grandes filmes: Ben Hur, Dez Mandamentos, E o Vento Levou, Último Tango em Paris. Tinha sessão todos os dias e nos finais de semana havia matinê. As latas com as películas chegavam em sacos de algodão trazidos pela empresa de ônibus Bonfim” – recorda Luiz.

Entre os 13 e 14 anos de idade, o filho de Fernandinho operava um dos projetores à carvão:

“O cinema tinha o porteiro e mais dois funcionários. Enquanto o que trabalhava na projeção apagava uma das máquinas, eu acendia a outra. Normalmente, as películas dos filmes vinham em dois rolos. As sessões aconteciam das 20h às 22h. Na plateia tinha gente de Itabi, Canhoba, Cedro, Amparo de São Francisco, Colégio e outras cidades e localidades de Sergipe e Alagoas” – acrescenta.

O cine Fernandes era muito mais que um cinema. Era uma casa de espetáculos, dotada com palco onde foram realizados shows memoráveis. Por ali passaram Nelson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Orlando Silva, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Waldick Soriano, Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol, Jerry Adriani, os comediantes Oscarito e Grande e muitos outros.

Antes do show era projetado um filme, segundo Luiz. Isto dava tempo para os artistas hospedados no Hotel Florelisa se prepararem com calma. Permitia ainda que os espectadores lotassem os 850 lugares e o bar do mezanino, que tinha 12 mesas. Era possível ver filmes e shows, saboreando aperitivos e tomando bebidas.

Já a sorveteria, no andar térreo, fazia sucesso com a garotada que sorvia deliciosos picolés de coco e chocolate.

QUEM ERA FERNANDINHO?

Luiz define o pai como um homem apaixonado por cinema. Filho de um rizicultor da região, o empresário casou quatro vezes e teve 15 filhos (na ordem de casamentos teve 2, 2, 5 e 6 filhos). Foi proprietário de dois cinemas (o Fernandes e outro no município de Cedro de São João), em períodos diferentes, e arrendou o Cine Odeon, em 1965.

“Não acompanhei essa fase do Odeon, porém, sei que fechou e no mesmo local surgiu  outro chamado Veneza. Propriá teve três cinemas funcionando ao mesmo tempo” – diz.

Ainda de acordo com militar da reserva, o pai costumava escrever para os estúdios de cinema, atores e estações de rádio no Brasil e exterior , pedindo fotos autografadas. Fazia o mesmo para obter lembranças de cantores brasileiros e políticos internacionais.

O faroleiro guarda mais de 60 retratos e cartas que Fernandinho recebeu. Na lista de fotos que preenchem quatro álbuns estão Charles Chaplin, Harold Lloyd, Carmem Miranda, Bobby Brenn, Oliver Hardy e Stan Laurel (O Gordo e o Magro), Abott e Costelo, Alexis Smith, Francisco Alves, Orlando Silva, Quarteto de Bronze e muitos outros. Algumas fotografias têm apenas o autógrafo de pessoas, outras possuem dedicatórias endereçadas a Clementino. Há casos, como o de Margareth Thatcher, que a correspondência foi respondida por um de seus secretários.

No acervo de Luiz constam ainda panfletos de propaganda de filmes como Quo Vadis, Ben Hur, Terremoto. Interessantes também são os panfletos que anunciavam os shows de grandes cantores (ver galeria de fotos abaixo).

Luiz Britto conta que o pai ficava na sorveteria durante as projeções. Para entender o que os artistas diziam, já que só escutava os diálogos, fez curso de inglês no Instituto Canadense e ficou fluente.

O CÉU POR TESTEMUNHA

Em artigo publicado no site Propriá News, o professor de história Aderval Marques conta que Fernandinho cresceu assistindo filmes no Cine Odeon. Em 1950, comprou seu primeiro cinema, no município de Cedro de São João. O estabelecimento foi vendido três anos mais tarde quando o pai do empresário morreu.

Aderval conta que Fernandinho resolveu comprar cinco casas da rua Serapião de Aguiar para construir o que viria a ser o melhor cinema da cidade, “talvez do Nordeste”, após perder a concorrência da compra do cine Propriá para seu primo Jackson Figueiredo Guimarães. Assim, no dia 24 de julho de 1959, surgiu o Cine Fernandes. A renda do filme de inauguração, “O céu como testemunha”, foi cedida para ajudar na reforma da Igreja Matriz.

“Ir ao Cine Fernandes aos domingos era uma grande festa, todos vestiam sua melhor roupa para o desfile que acontecia antes das projeções (…). O melhor lugar para namorar era na parte térrea, logo abaixo da cabine de projeção, no “escurinho do cinema”, local conhecido como o “ boi” onde retratava na parede o bumba meu boi do nosso folclore. Nas laterais visualizava-se o colorido do navio “Comendador Peixoto”, que durante a festa do Bom Jesus dos Navegantes, conduzia a imagem do santo durante a procissão no leito do Rio São Francisco, em Propriá, feito pelo pintor canhobense Olívio Matias, o “mestre Olívio”, além das placas comemorativas de cantores famosos, quando das suas apresentações no palco do cine Fernandes” – descreve Aderval.

Em 1982, Fernandinho vendeu o imóvel.

Texto e imagem reproduzidos do site: meussertoes.com.br

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O Gordo e o Magro


Publicado originalmente no Facebook/Nirton Venancio, em 20/07/2018

Você que me diz a verdade com frases abertas

Por Nirton Venâncio

O Gordo e o Magro não eram somente a graça e o humor ingênuo que os definiam. O que igualmente fascina é o sentimento de amizade entre eles. Assim como os personagens, os atores Oliver Hardy e Stan Laurel foram amigos inseparáveis.

Na biografia "Mr. Laurel and Mr. Hardy: An Affectionate Biography" escrita por John McCabe em 1961, há relatos de extrema sinceridade entre eles, um apontando os defeitos do outro, um dizendo o que achava que o outro precisava mudar. A amizade não se restringia a uma idealização dos personagens.

Quando Oliver (o Gordo) adoeceu, em 1955, de um infarto, Stan ficou profundamente abatido, e no ano seguinte sofreu o que hoje chamamos de AVC. Recuperou-se, mas ficou novamente arrasado com a morte do amigo, em 1957. O Magro nunca mais se restabeleceu da tristeza. Parou de trabalhar e viveu até os 74 anos em um hotel na cidade de Santa Mônica, EUA, falecendo de um ataque cardíaco, em 1965.

À parte a consternação nos momentos finais dessa relação, o que é comovente é o carinho, o respeito, a tolerância, o desprendimento de orgulho pessoal que uniam dois amigos.

Como bem definia Vinicius de Moraes, "amigos não se faz, reconhece-os.”

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nirton Venancio.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Lembranças Dos Cinemas Em Itabaiana


Publicado originalmente no site Faxaju, em 29/06/18

Lembranças dos cinemas em Itabaiana

Por Professor José Costa

Uma das melhores lembranças que tenho da minha infância e da juventude era de assistir a filmes, principalmente no Cine Santo Antônio, e provavelmente da maioria dos itabaianenses que nasceram algumas décadas atrás. Os meus filmes preferidos eram os de cowboy com Django, Sartana e Ringo eternizados por suas músicas orquestradas, Mazzaropi, Tarzan e os chineses de lutas e espada.

Para os que não conheceram ou frequentaram o Cine Santo Antônio, também conhecido como cinema do padre, ele ficava no Edifício Pio XII na Praça João Pessoa que também teve o estúdio da Rádio Princesa da Serra AM a partir de 1978, onde hoje é o Supermercado Nunes Peixoto. O Cine Santo Antônio era enorme com cadeiras de madeira e acolchoadas. Nas laterais ficavam algumas portas grandes e largas, em cada lado existia um corredor onde as pessoas ficavam se refrescando nos dias de calor enquanto aguardavam o início do filme ou batendo papo com os amigos.

O Cine Santo Antônio foi marco cultural de Itabaiana, porque além de exibir filmes também cedia seu espaço para eventos tais como: shows com cantores nacionais, de calouros e político, a exemplo do lançamento da candidatura de Djalma Lobo para deputado estadual.

Os filmes eram exibidos à noite e na matinê aos domingos. Quando o público era insuficiente, o dinheiro do ingresso era devolvido, isso aconteceu algumas vezes na sessão do domingo à tarde. Na frente do cinema eram colocados cartazes do filme em exibição e lançamentos. Quando a pessoa passava pela portaria adentrava a um salão onde ficavam expostos cartazes de filmes e do lado direito tinha uma bomboniere que vendia balas, chicletes, drops, pirulitos e guloseimas em geral. Um funcionário, Queixinho, era quem colocava os cartazes dos filmes, inclusive em alguns pontos do centro da cidade, a exemplo do Bar Simpatia.

Enquanto o público aguardava o início da película, ouvia músicas orquestradas transmitidas nas caixas de som do cinema. Na matinê, as portas laterais eram fechadas para que o ambiente ficasse escuro e a noite as portas ficavam abertas, e quando as luzes eram apagadas, as pessoas gritavam de euforia pelo início do filme. No início, passava um documentário do Canal 100, principalmente sobre o futebol, depois passava os trailers de filmes que entrariam em cartaz e finalmente iniciava o filme. Era comum ao término do filme, as pessoas ficarem olhando o cartaz e as fotos na frente do cinema para relembrar das cenas.

De tanto frequentar o Cine Santo Antônio ainda tenho lembranças dos funcionários que trabalharam no período a exemplo do gerente João Carteiro, que morava próximo a minha casa, Antônio Santana do Dnocs e seu filho Dode, ambos trabalharam na bilheteria e portaria, Oseas e Mané Roló como porteiros e Roberto, mais conhecido como filho de Deus, operador de máquina, o que passava o filme e Queixinho.

Comecei assistir a filmes no cine Santo Antônio no final da década de 60 até o início dos anos 90 quando o mesmo parou de exibir as produções cinematográficas. A partir desta data, Itabaiana ficou sem um cinema por causa da febre das locadoras de filmes e dos videocassetes e posteriormente dos DVDs, já que quase todo mundo possuía um em sua casa.

Tenho lembranças de algumas situações que ocorriam durante as exibições de filmes como: quando a fita do filme quebrava, o operador acendia as luzes enquanto a consertava, e as pessoas impacientes pela demora ficavam batendo as cadeiras de madeira até o reinício da exibição; igualmente ocorria quando faltava energia durante a apresentação, e que às vezes a energia não retornava e as pessoas recebiam o ingresso para voltar outro dia; quando o filme era ruim as pessoas se levantam e iam embora antes do término, geralmente o filme ficava um dia em cartaz, mas quando era bom, ficava a semana toda em exibição; em algumas datas especiais, a exemplo da Sexta-feira Santa, o filme passava em duas sessões seguidas com um ingresso apenas para quem quisesse assistir.

Teve uma época que bastava mudar o cartaz e eu ia para o cinema, para isso, ganhava alguns trocados pegando carrego com a carroça de mão para Tonho cacetinho, que tinha uma bodega na esquina do Grupo Escolar Guilhermino Bezerra, e ao fazer compras no mercadinho me chamava para ir buscá-las. Também ajudei no bar de Gleide de Dedé de Tutu nos finais de semana para ganhar algum dinheiro e poder ir ao cinema. Meu pai, Josias Costa, morreu quando eu tinha 10 anos e minha mãe recebia a pensão e também trabalhava de costureira, e o dinheiro era pouco.  Certa vez, pedi dinheiro a ela para assisti o filme de Mazzaropi, mas como não tinha, disse que se recebesse o dinheiro de uma costura até à noite me daria, mas com uma condição, eu tinha que varrer o quintal.  Assim o fiz, e depois do café, naquela época não falava jantar, a freguesa pagou-lhe e assim que ela me deu o dinheiro, saí correndo para o cinema, pois sabia que seria casa lotada. Comprei o ingresso, entrei e sentei em uma cadeira de madeira próxima ao corredor do lado direito e ao lado de uma cadeira vazia, foi quando chegou um casal e propôs comprar o meu lugar com o dinheiro correspondente a do ingresso, aceitei e assisti ao filme sentado no batente de uma das portas. Enquanto assistia ao filme, fiquei pensando no que fiz, pois deixei de sentar em um lugar confortável, e que, talvez, mãe tivesse feito um sacrifício em me dá o dinheiro. Ao chegar em casa, mãe estava costurando, coloquei a mão no bolso da bermuda e entreguei o dinheiro a ela que perguntou se eu não tinha ido ao cinema, e respondi que sim. Contando o que tinha acontecido, ela me entregou o dinheiro e disse que era meu e gastasse como quisesse.

No palco do cine Santo Antônio, apresentavam-se vários cantores de renome nacional da época e eu assisti a alguns shows, entre eles, o de Ronnie Von, Marcio Greyck, Perla paraguaia, Waldick Soriano que geralmente eram acompanhados por seus violinistas e pelas bandas sergipanas Brasa 10 e Los Guaranis. Uma lembrança que tenho de um show foi quando eu ia para o cine Santo Antônio e ao passar no bar de João Marcelo, na Praça João Pessoa, vi Waldick Soriano tomando algumas doses de cachaça. Ele deve ter gostado bastante, pois comprou algumas garrafas e ao passo que caminhava, ia cumprimentando as pessoas que cruzavam com ele pela praça. Vizinha ao cinema, ficava a casa de Zeca Titia onde o cantor pediu para que guardassem as garrafas dele até o término do show. Durante um desses shows, o cantor oportunizou a Queixinho que cantasse para o público com o seu violão, já que o mesmo gostava muito de cantar, mas infelizmente o itabaianense não alcançou a profissão.

Também assisti filmes no Cine Arrojado, que ficava na Rua Barão do Rio Branco, atualmente Lucy Decorações, e sem pagar, já que Arrojado era amigo do meu pai e também me conhecia, pois eu vendia a serviço dele, os escapulários de Nossa Senhora do Carmo, na Praça Fausto Cardoso, na comemoração do dia da santa. O cinema era muito simples com um espaço dividido para exibição de filmes e venda de frutas. O cinema tinha alguns bancos de madeira, as pessoas que chegavam atrasadas assistiam ao filme sentadas no chão ou de pé.

No cine Popular, situado na Rua 13 de maio, onde atualmente é a Rádio Princesa da Serra AM, assisti a poucos filmes, mas o que mais me marcou foi O exorcista, filme de terror, e apesar de não ter a idade exigida pela censura que era de 14 anos, o porteiro me conhecia e permitiu a minha entrada. O Cine Popular era pequeno e tinha dois pavimentos para o público, o maior, que ficava no térreo e o menor, na parte superior. Os cinemas Santo Antônio e Popular eram do empresário José Queiroz da Costa, que também tinha alguns cinemas em Aracaju.

Atualmente, Itabaiana possui salas de cinema no shopping, mas eu não fui ainda assisti um filme, talvez pela facilidade de ver filmes em casa pela netflix, youtube, sky, dvd, computador ou tv, eu sei que não é a mesma coisa, mas nada comparado a simplicidade e o glamour de frequentar o Cine Santo Antônio algumas décadas atrás. Que saudades dos tempos que não voltam mais…

Texto e imagem reproduzidos do site: faxaju.com.br

terça-feira, 19 de junho de 2018

Era uma vez


Publicado originalmente no Facebook/Nirton Venancio, em 17/06/2018

Era uma vez
Por Nirton Venancio

O cineasta Sergio Leone consagrou o que se denominou de Western Spaghetti, um gênero lançado nos anos 60 por vários diretores italianos. Os filmes eram rodados na Espanha, numa região desértica que lembrava o velho oeste americano.

De sua filmografia de 13 títulos, duas grandes obras cristalizaram sua genialidade e estilo, "Era uma vez no Oeste" (C'era una volta il West/Once upon a time in the West), 1969, e "Era uma vez na América", (Once upon a time in America), 1984, onde reconstitui o estilo emblemático norte-americano em um épico gangsterista como nunca Hollywood ousou, a construção de roteiro e edição perfeitas em módulos narrativos de flashback. Os dois filmes encerram o que ele chamava de Trilogia da América, iniciada em 1966, com o ótimo "Três homens em conflito" (Il buono, il brutto, il cattivo/The good, the bad and the ugly).

Com seus heróis empoeirados, o italiano reinventa o Oeste em um gênero de relato sensorial, ao contrário do cinema operístico de John Ford e seus cowboys assépticos, muitos deles personificados por John Wayne, emoldurados no Monument Valley.

A genialidade de Leone soube muito bem utilizar três grandes atores ícones de um mega cinema industrial, do star-system: Clint Eastwood, Henry Fonda e Robert De Niro.

Falecido em 1989, o cineasta não teve tempo para realizar o que seria mais uma grande obra, "Era uma vez na Rússia", sobre a Revolução Bolchevique.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nirton Venancio

Dona Flor e Seus Dois Maridos, agora sem cortes

Dona Flor e Seus Dois Maridos: Sônia Braga em sua
 melhor forma e trama cativante baseada em Jorge Amado
Imagem: Divulgação

Publicado originalmente no site da reviista Istoé Gente, em 03/12/2001

Dona Flor e Seus Dois Maridos

Maior bilheteria da história do cinema nacional volta às telas em cópia restaurada, com algumas cenas inédita

Por Mauro Ferreira

Em 1976, Dona Flor e Seus Dois Maridos arrastou cerca de 12 milhões de espectadores ao cinema – um recorde antológico que nunca seria superado por produções nacionais. Foi a consagração do cineasta Bruno Barreto, que deu um banho de loja no filme para relançá-lo em circuito nacional a partir da sexta-feira 30, com cenas extras, suprimidas da versão original por ordem da censura da época.

A idéia é comemorar os 25 anos do filme. Bem, se você foi um dos 12 milhões de espectadores de 1976, as imagens inéditas não justificam nova ida ao cinema. Há, apenas, uma lírica cena de sexo anal entre Flor (Sônia Braga, no auge da forma) e Vadinho (José Wilker), além de algumas seqüências que, se foram ousadas para a época, hoje soam banais diante da erotização da televisão brasileira.

Vale, sim, rever o filme por conta dos detalhes técnicos que tornam ainda mais saborosa a história de Jorge Amado. O som, agora em dolby estéreo, põe o filme em pé de igualdade com os últimos lançamentos do cinema. E a imagem da cópia restaurada é perfeita, por acentuar o contraste de cores, apagadas na fita original.

Técnica à parte, o melhor de Dona Flor ainda é sua trama cativante, filmada por Barreto sem pretensões intelectuais. História apimentada pelo cenário natural do filme, a Bahia sensual de Jorge Amado, com malandros, prostitutas e uma quituteira fogosa como Dona Flor. A receita era mesmo infalível e trouxe, de sobremesa, desempenhos irretocáveis de Sônia, Wilker e Mauro Mendonça (impagável como o conservador Teodoro). Enfim, um clássico que merecia a tecnologia digital para se eternizar nas telas. Sexo com dendê.

Texto e imagem reproduzidos do site: terra.com.br/istoegente

quarta-feira, 16 de maio de 2018

O Cinema de Roberto Farias

Foto: Fabio Seixo

Publicado originalmente no Facebook/Nirton Venancio, em 15/05/2018

O Cinema de Roberto Farias 

Por Nirton Venancio

Em 2015, o cineasta e produtor Roberto Farias foi o homenageado no 14º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, evento organizado anualmente pela Academia Brasileira de Cinema, que tem votação dos profissionais da área para aqueles que se destacaram em cada categoria.

No começo da década de 60, Farias dirigiu um dos mais importantes filmes da história do nosso cinema, “Assalto ao trem pagador”, com roteiro de Luiz Carlos Barreto e Alinor Azevedo, com narrativa próxima à estética neorrealista, baseado no roubo ao comboio da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Sem desconsiderar a relevância dos seus primeiros filmes, o trabalho pelo qual é sempre lembrado é o drama de ficção histórica "Pra frente, Brasil", sobre o período de repressão da ditadura Médici, corajosamente realizado quando Figueiredo foi presidente, 1982. Baseado em argumento do irmão Reginaldo Faria e de Paulo Mendonça, o roteiro descia aos porões do regime militar com audácia surpreendente, desafiando a censura e colocando à prova a abertura política na área cultural. No ano "milagroso" de 1970 o Brasil inteiro torcia com a seleção de futebol no México, enquanto prisioneiros políticos eram torturados e inocentes vítimas de arbitrariedade. Todos esses acontecimentos são vistos no filme pela ótica de uma família quando um dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista político e "desaparece".

Afastado dos sets de filmagens desde final dos anos 80, e dedicado à televisão nos anos 90, Roberto Farias é o cineasta que, como bem apontou o crítico Inácio Araújo, ilumina a complexidade e contradições do cinema brasileiro, fazendo sua trajetória desde a chanchada (“Rico ri à toa”, “Um candango na Belacap”), passando pelo policial (“Assalto...”, “Cidade ameaçada”), pela comédia (“Toda donzela tem um pai que é uma fera”), a aventura musical (a trilogia com Roberto Carlos), o documentário (“O fabuloso Fittipaldi”), e logo após o engajado “Pra frente, Brasil”, a comédia-paródia, “Os Trapalhões no Auto da Compadecida”, seu último filme, e o mais sofisticado da franquia do quarteto trapalhão.

Complexidade também quando durante o governo Geisel, assumiu a direção da Embrafilme. A mesma que depois financiou “Pra frente, Brasil” e gerou a demissão de Celso Amorim, então diretor do órgão.

Roberto Farias faleceu ontem, aos 86 anos, abatido pela complexidade de um câncer.

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nirton Venancio

terça-feira, 15 de maio de 2018

Morreu Margot Kidder, a Lois Lane dos primeiros filmes do Superman

Superman (1978)

Publicado originalmente no site Papel Pop, em 14/05/2018

Morreu Margot Kidder, a Lois Lane dos primeiros filmes do Superman, aos 69 anos

Por Thiago Borbolla  
  
Margot Kidder, a atriz que ficou famosa e marcou uma geração interpretando a Lois Lane ao lado do Superman de Christopher Reeve no fim dos anos 70 e 80, morreu nesse domingo (13), na sua casa, em Montana, nos EUA. Ela tinha 69 anos.

Nascida no Canadá, Margot chegou a ser diagnosticada com transtorno bipolar depois de uma aparição pública em 1996, também estrelou a versão original de “Horror em Amityville”, de 1979, e chegou fazer participações em “Smallville”, “Brothers & Sisters” e “The L Word”.

Margot tinha apenas uma filha, Maggie, e as causas da morte ainda não foram divulgadas.

Fonte: papelpop.com e youtube.com



domingo, 29 de abril de 2018

Defeito na sala do cinema atrasa pré-estreia em 2 horas


Fotos: Jéssica Gama

Publicado originalmente no site do Portal Infonet, em 26/04/2018 

Defeito na sala do cinema atrasa pré-estreia em 2 horas

Algumas sessões iniciaram com duas horas de atraso

O público que foi ao Cinemark do shopping Riomar na noite desta quarta-feira, 25, assistir à pré-estreia do filme ‘Vingadores: Guerra Infinita’ enfrentou problemas para acompanhar a continuidade da saga. Muitas pessoas precisaram esperar mais de duas horas para que pudessem assistir ao filme, isso porque o cinema apresentou uma série de problemas técnicos no momento da exibição.

O estudante de medicina Davi Anchieta foi um dos muitos fãs da saga que relataram os problemas no cinema. Segundo ele, a previsão era que o filme começasse a ser exibido a partir da meia-noite, porém, por conta das falhas, ele só conseguiu assistir ao filme depois das 2h da madrugada. “O trailer já começou com meia hora de atraso. Depois a imagem 3D foi apresentando defeitos”, conta.

Ele relata ainda que as quatro salas disponibilizadas pelo cinema apresentaram o mesmo problema, e que, posteriormente em duas delas os problemas foram solucionados, mas o público que estava destinado às outras duas salas precisou esperar a sessão terminar para poder assistir.

Quem também teve que lidar com o problema foi a estudante de Design Gráfico, Jéssica Gama. Ela conta que por conta da demora na resolução do problema, muita gente que pretendia assistir ao filme acabou indo embora.

Jéssica ainda relata que também houve demora para que a administração desse algum posicionamento. “Ficamos cerca de uma hora esperando alguém dar informação sobre o que tinha acontecido. Depois vieram avisar que quem quisesse assistir o filme teria que esperar a sessão acabar em uma das salas em que o projetor estava funcionando”, conta.

Já o jornalista Wendel Barbosa, que também foi assistir a pré-estreia, conta que tudo ocorreu normalmente na sala em que estava. “Cheguei às 23h30 no cinema e não houve problemas na sala em que eu estava”. Segundo Wendel, o problema foi verificado em duas salas. Ele declara ainda que o público recebeu cortesias como forma de compensar os fãs do filme. “Receberam a cortesia quem não pode assistir e quem ficou esperando também. O horário excedido no estacionamento foi ressarcido”, declara.

Cinemark

A Rede Cinemark informou que uma falha técnica causou atraso na pré-estreia de “Vingadores: Guerra Infinita”, em duas salas do shopping RioMar de Aracaju, na noite de 25 de abril. A rede lamentou o ocorrido e esclareceu que os clientes foram avisados do problema, e que a gerência ofereceu convites para que eles voltassem ao cinema. Os clientes que optaram por não receber os convites na hora podem retornar ao cinema para outra sessão do filme, apresentando o comprovante de compra.

por Yago de Andrade

Texto e imagens reproduzidos do site: infonet.com.br

domingo, 22 de abril de 2018

Homenagem a Nelson Pereira dos Santos (1928 - 2018)

Foto reproduzida do site a BandNews e postada pelo blog, 
para ilustrar o presente artigo

Texto publicado originalmente no Facebook/Clara Angélica Porto*, em 21/04/2018

Abro o telefone para ver se tem mensagem. Nada. Mas Facebook tem. Vou lá. Dou logo de cara com Nirton Venancio anunciando a morte de Nelson Pereira dos Santos. Fiquei muda, gritei de susto, tudo junto. Lembrei de Nelson, a quem conheci aqui em Nova York, numa exibição de Vidas Secas, no BAM. Depois do filme, Nelson foi chamado para perguntas e respostas, mas ficou complicado, pois o inglês dele não era fluente. Pediram ajuda, levantei-me e fui. Quando acabou, ele me convidou para um jantar que a diretoria do BAM estava lhe oferecendo. Fui e tive a honra de sentar ao lado dele. Não hesitei e pedi logo uma entrevista, uma das melhores entrevistas que tive o grande prazer de publicar no jornal The Brasilians. Fiquei encantada com Nelson, e quem não ficaria? Não era só pela inteligência, pela arte, pelo cavalheirismo, pelo cuidado de segurar o guarda chuva na fina chuva de Nova York para que eu não me molhasse - era por tudo o que era Nelson Pereira dos Santos. No ano seguinte, um telefonema inesperado. Nelson me ligava do Rio, contando que viria participar do Tribeca Film Festival com Brasília 18% como competidor, e Iria também mostrar Vidas Secas. Vibrei, mas o melhor estava por vir: “quero que você seja minha intérprete/acompanhante e contato com a imprensa. E tenho verba!” “Ah, Nelson, para você eu faço de graça, Deus me livre, qualquer coisa por você.” “Eu sei, Clara Angelica, mas eu insisto, tenho verba para isso e tem que ser você”. E foi. Ele veio com a esposa Ivelise e a filha. Levei varios jornalistas de diferentes jornais para entrevistar Nelson no hotel. Fui intérprete em todas as perguntas e respostas de todas as exibições. Participei ao lado dele de todos os almoços, jantares, festas e recepções. Ao lado dele e de todos os atores e diretores do festival, inclusive Robert De Niro, que o tratou com especial reverência. Ver Vidas Secas ao lado de Nelson foi emoção para alimento de alma por muito tempo. Ajudei-o a retirar do recinto no meio do filme, uma senhora que ficou tão tocada com Vidas Secas, que teve um ataque incontrolável de choro. Voltamos trêmulos para ver o resto do filme. Levei ele e Ivelise a Chinatown, saímos chutando lata por Nova York, livres e felizes. Quando fui ao Rio, ele me disse que ia fazer a sopa dele de peixe, o único prato que fazia bem. Fui ao apartamento deles, tomamos vinho tinto, namoramos o Cristo Redentor da varanda, vi o sótão onde o artista trabalhava. A velha máquina de montagem lá estava, já aposentada pela tecnologia digital, mas ainda o brinquedo preferido de Nelson - “sou um montador”. Momentos inesquecíveis, momentos lindos. Um homem simples, um homem complexo, um homem único e plural. Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha são a essência do Cinema Novo brasileiro. Sinto uma tristeza enorme. A vida fica mais seca sem Nelson Pereira dos Santos. Deixa um legado imenso na história do cinema brasileiro, este homem que levou páginas belas da literatura para as telas. Tudo que Nelson tocou, virou ouro. Tenho uma coleção sem preço de filmes de Nelson e acho que Memórias do Cárcere é uma obra prima. Nelson foi diretor/montador de obras primas. Nelson Pereira dos Santos foi uma obra prima. Estará sempre vivo no meu coração.

* Depoimento de Clara Angelica Porto, em post no seu perfil do Facebook, no dia 21/04/2018

Texto reproduzido do Facebook/Clara Angelica Porto

Morre, aos 89 anos, o cineasta Nelson Pereira dos Santos

Foto reproduzida do jornal O Globo

Texto publicado originalmente no site do G1/Jornal Nacional, em 21/04/2018 

Morre, aos 89 anos, o cineasta Nelson Pereira dos Santos

Cineasta era considerado um dos precursores do Cinema Novo.

Em 2006, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

Morreu, neste sábado (21), no Rio, aos 89 anos, um dos maiores cineastas brasileiros, Nelson Pereira dos Santos. Ele foi pioneiro do Cinema Novo no Brasil.

Nelson Pereira dos Santos deu entrada no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio, no meio da semana passada, com pneumonia. Ele foi diagnosticado com câncer no fígado. Um câncer muito agressivo, que já estava num estágio avançado. Neste sábado, às 17h, a família confirmou a morte do cineasta. O corpo de Nelson Pereira dos Santos vai ser velado na sede Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio, e enterrado no Cemitério São João Batista.

É, basicamente, uma questão de escolha. O lugar onde o olhar se demora.
Os detalhes que ele procura. As imagens que ele guarda. E desde muito cedo ele fez questão de mostrar para onde apontava o seu olhar. Pode-se dizer que sua grande lente aberta enxergava o Brasil. Mas fechando o foco o que ele mostrava em detalhes era nossa gente.

Um processo que começou na década de 50. Quando o jovem paulista, diplomado em cinema na França, veio ao Rio de Janeiro mostrar em preto e branco a pobreza dos morros cariocas.

Rio 40 graus conta a história de cinco meninos pobres que correm a cidade vendendo amendoim. Foi um marco do cinema novo, mas o chefe da segurança pública da época viu e não gostou. Censurou o filme dizendo, entre outras coisas, que ele tinha uma mentira térmica: nunca fez 40º no Rio. Mas não havia censura capaz de impedi-lo de cumprir o seu destino.

Aliás, diga-se que Nelson Pereira do Santos foi um predestinado. Ainda pequeno de colo, era levado pelos pais todo domingo para ver filmes no cinema. A mãe carregava mamadeira para as sessões.

O menino cresceu lendo a nossa literatura: Jorge Amado, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos. Aquelas histórias formaram imagens que Nelson nunca mais esqueceu. E assim que pôde correu atrás de cada uma delas. De Amado, a Tenda dos Milagres. De Graciliano, Vidas Secas.

Na década de 70, roda uma mistura de aventura e comédia. "Como era gostoso o meu Francês" levou 800 mil espectadores às salas de cinema. Em 1984, mais um flerte literário, Nelson Pereira dos Santos volta a rodar um filme inspirado em Graciliano Ramos: Memórias do Cárcere.

“Eu acho que o Graciliano, para mim, não somente para mim, mas para todos os brasileiros da minha geração, é um grande pai cultural. É um homem que deixou na sua obra um caminho que deve ser percorrido. Essa relação com a realidade social e humana que existe no Brasil”, disse o cineasta na época.

Em 2006, Nelson Pereira dos Santos foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O primeiro cineasta entre os imortais. Ocupou a cadeira que tem como patrono Castro Alves.

Mas ainda tinha outra paixão: a música. A música brasileira. Um dos últimos filmes de Nelson foi lançado em 2011: “a música segundo Tom Jobim”.

“O Nelson era um grande contador de histórias, talvez um dos maiores do cinema brasileiro e um dos maiores do cinema. Ele tinha um afeto e, ao mesmo tempo, um rigor com seus personagens que fazia com que os filmes dele fossem muito únicos”, destaca Bruno Barreto, cineasta.

“Ele tinha essa visão de um homem que amava o Brasil, que amava essa terra, como poucos. E amor ao povo brasileiro, que é um povo trabalhador, esforçado, que luta todo dia. E eu acho que é isso que está nos filmes dele, esse amor que ele tem pelo país, esse amor que ele tem pela nossa gente”, comenta Ney Sant'anna, ator e filho do Nelson.

“O que eu espero é viver metade da vida que ele viveu, assim. O meu avô foi uma presença muito importante na minha vida, não só como figura pública e tal. A coisa de descobrir que o meu avô é um grande cineasta, mas ele foi um super avô” conta Mila Chaseliov, neta de Nelson.

Patrono do cinema, amigo querido, pai dedicado, avô exemplar. Se a vida passa depressa como um curta metragem quantos protagonistas um homem é capaz de ser?

“O Nelson inventou uma maneira de fazer cinema no brasil. Todo o cinema moderno brasileiro foi inventado por ele. Ele foi o primeiro a filmar a favela como um tema nobre. Ele foi o primeiro a fazer cenas na rua, como a gente precisava conhecer o Brasil. Ele inventou um cinema para o país e o país coube dentro do cinema dele. A única coisa que me dá uma certa esperança é que o Nelson é uma chama que não se apaga”, afirma Cacá Diegues.

Texto reproduzido do site: g1.globo.com/jornal-nacional

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Morre o diretor Milos Forman, um outsider em Hollywood

Milos Forman, em Paris em 2009 Martin Bureau AFP 

Publicado originalmente no site El País Brasil , 14 ABR 2018

Morre o diretor Milos Forman, um outsider em Hollywood

Cineasta tcheco, de 86 anos, recebeu dois ‘Oscars’ por 'Um Estranho no Ninho’ e 'Amadeus'

Por Gregorio Belinchón 

Milos Forman (Caslav, 1932), diretor de filmes como Amadeus e Um Estranho no Ninho, faleceu em sua casa em Hartford (Connecticut) aos 86 anos, após uma breve doença. “Morreu tranquilamente na sexta-feira, cercado por sua família e amigos mais próximos”, disse sua viúva, Martina. Além dos filmes citados, o cineasta deixou obras primas à história, como Hair e Pedro, o Negro.

O tcheco foi um cineasta especial, que demonstrou que era possível trabalhar dentro de Hollywood com um toque subversivo. Essa mesma aposta iconoclasta, contra o poder – seu cinema refletiu a luta do indivíduo contra a opressão do sistema – e com tons satíricos foi o que provocou sua saída de seu país natal no final dos anos sessenta após a invasão da Tchecoslováquia em 1968.

É curioso, como Guillermo del Toro lembra em seu artigo (em espanhol), como Forman sempre se conectou com o grande público, independentemente do tamanho da produção de seu filme, e como defendia seus personagens protagonistas, por mais estranhos que parecessem no começo de cada narração. “Às vezes são as mentes mais sujas que amam da maneira mais limpa”, contou na divulgação de O Povo contra Larry Flint, Urso de Ouro do festival de Berlim. Seu primeiro filme nos Estados Unidos, Um Estranho no Ninho, exemplifica esse talento, com um Jack Nicholson soberbo que encarnou não só um rebelde como alguém que conseguiu despertar seus colegas de hospício no sentido da liberdade que estava adormecida. Lembrou daquela filmagem em uma oficina de cinema em Málaga em 2009: “Quase não precisei falar com ele e dirigi-lo, porque os grandes atores são também grandes profissionais. Jack se sentiu estranho e me disse que eu era o único diretor que não o incomodava durante a filmagem”. Com a produção ganhou seu primeiro Oscar de melhor direção, um dos cinco obtidos pelo filme.

Mozart e o Holocausto

Mas o maior sucesso de sua carreira viria em 1984 com Amadeus. A história da inveja e da secreta admiração que Antonio Salieri sentia por Mozart ganhou oito Oscars (sua segunda estatueta como diretor) e se transformou em um dos títulos mais emblemáticos dos anos oitenta. No filme havia também um desejo realizado: foi filmado em seu país natal – à época Forman já tinha a nacionalidade norte-americana – e pôde voltar a sua casa como um vencedor. Em sua biografia, Turnaround: A Memoir (1994), escreveu que tudo na vida o havia “condicionado a vencer”, ainda que a sua maneira.

Como diretor, o tcheco nunca se importou em filmar roteiros de outros. E mais, de seus oito filmes no exílio, só escreveu o roteiro de dois: “Eu prefiro ter um roteiro sólido no qual me apoiar, mas gosto que exista lugar à improvisação na filmagem da sequência. 10% de improvisação na hora de filmar pode trazer momentos únicos, incríveis. Gosto de filmar com atores que não saibam o roteiro nos mínimos detalhes, mas fazê-los representar seguindo o roteiro, que eu já sei de cor, dando-lhes indicações para que o diálogo seja mais real, mais fresco, mais vivo”, afirmava.

“Prefiro um país livre abarrotado de mau gosto a um país refinado, mas sem liberdade”

Milos Forman tinha uma ideia muito clara sobre seu exílio. “Prefiro um país livre e abarrotado de mau gosto a um país refinado, mas sem liberdade”, dizia. “A censura é o pior dos males. Vivi sob um regime totalitário em que existia a pressão da censura ideológica. Agora vivo em um país em que se existe alguma pressão é a comercial. Sem dúvida, prefiro essa última, pelo menos nela milhares de pessoas decidem e não só uma”. Ele mesmo sofreu na pele várias ditaduras. Nascido em Caslav em 1932, tanto sua mãe, Anna Suabova, como o homem que ele pensava que era seu pai, um professor chamado Rudolf Forman, morreram assassinados pelos nazistas em campos de extermínio. Apesar de ter se educado no protestantismo, Forman às vezes dizia ser meio judeu. Somente após a publicação de suas memórias, escritas com Jan Novak, sua história foi conhecida: em meados dos anos sessenta, Forman encontrou uma amiga de sua mãe em Auschwitz a quem ela confessou que o verdadeiro pai do cineasta era um amante seu, um arquiteto judeu que sobreviveu ao Holocausto e que Forman chegou a conhecer no Peru.

Por isso Jan Tomáš Forman, seu nome verdadeiro, cresceu com pais adotivos. Estudou cinema na Escola de Praga, e desde o começo seus filmes – Pedro, o Negro (1964) e Os Amores de uma Loira (1965) – chamaram a atenção dos festivais internacionais. Com The Firemen's Ball, em que ironizava a burocracia em um destacamento de bombeiros voluntários, começou a sentir a pressão das autoridades comunistas. De modo que quando as tropas soviéticas entraram na Tchecoslováquia em agosto de 1968, Forman, que estava em Paris negociando seu primeiro projeto norte-americano, decidiu não voltar.

Início difícil nos EUA

Seu primeiro trabalho nos EUA foi a comédia Procura Insaciável (1971). Não foi nada bem, e Forman entrou em depressão em seu quarto do nova-iorquino hotel Chelsea. Somente Um Estranho no Ninho o tirou desse estado. Em suas memórias conta que os dois produtores do filme, Michael Douglas e Saul Zaentz, o contrataram por uma ninharia. A partir daí pode escolher seus projetos: o musical Hair (1979), que dizia ter gostado pela energia dos jovens atores; Na Época do Ragtime (1981), o último filme no cinema de James Cagney; Amadeus (1984); Valmont - Uma História de Seduções (1989), um filme que teve contra ele a estreia no ano anterior de Ligações Perigosas, já que ambos eram baseados na mesma obra epistolar de Pierre Ambroise Choderlos de Laclos; O Povo contra Larry Flint (1996); O Mundo de Andy (1999) – em que a imersão total no papel de Jim Carrey, seu protagonista, quase o tirou do sério – e Sombras de Goya (2006).

A história de Goya chegou a ele por um livro, que havia lido há anos e escreveu o roteiro em parceria com seu grande amigo, o mítico roteirista Jean-Claude Carrière. “Aquele volume falava sobre a Inquisição espanhola. Existiam muitas semelhanças com coisas que eu havia conhecido. Fiquei espantado com os paralelismos que existiam entra a Inquisição espanhola e os regimes totalitários nazista e comunista”, contou em uma homenagem no festival de Sevilha. “Provavelmente, Goya não teria sobrevivido no século XXI”. E usou, efetivamente, mais uma vez o pintor para ilustrar sua eterna história, a de um indivíduo contra a opressão angustiante do poder, a da ciência e do Iluminismo contra a Inquisição.

No século XXI, Forman também dirigiu ópera, com seus filhos gêmeos, Petr e Matêj, como A Walk Worthwhile: Uma Caminhada de Valor, dos autores tchecos Jiri Slitr e Jiri Suchy que curiosamente ele já havia dirigido para a televisão tchecoslovaca em 1966. Além disso, foi um dos diretores da seção de cinema da Universidade de Columbia, e se manteve na ativa com alguns projetos que não deram certo e outros que deram, como a versão ao cinema, dirigida em conjunto com seu filho Petr, de A Walk Worthwhile: Uma Caminhada de Valor.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Interior do antigo Cine Rio Branco, em Aracaju


Com cadeiras de madeira e sem acolchoado, a sala tinha 
platéia em três pavimentos, o térreo e mais dois andares. No primeiro, antes 
o piso ia até a parede da tela, retirado em uma das reformas. No segundo andar,
num piso mais avançado, ficava a cabine de projeção.
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Imagens de arquivo: Jornal de Sergipe/Jornal da Cidade/Poster da Cidade/PMA.
Reproduzidas do blog: aracajusaudade.blogspot.com.br
Do professor Eudo Robson

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

As trilhas sonoras


As trilhas sonoras
Por José Augusto Jensen

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood instituiu a partir de 1928 prêmios anuais aos melhores filmes, atores, atrizes e diretores, o “Oscar” como ficou conhecido. Em 1934, criaram os prêmios para melhor canção e partitura musical, considerando-se a importância que estes aspectos vinham ganhando após a sonorização dos filmes. Mesmo antes disso, alguns filmes mudos vinham com partituras a serem executadas por orquestras, grandes órgãos, conjuntos ou solitários pianistas em cinemas menores. Os principais estúdios trataram de contratar os maiores nomes nos EUA e principalmente da Europa, muitos compositores oriundos da música erudita, nos anos 1930, fugindo de regimes totalitários. Mantinham orquestradores, músicos, estúdios de som, e a Metro-Goldwyn-Mayer, formou uma das melhores orquestras sinfônicas dos EUA, produzindo também complementos com peças curtas do repertório erudito. O maestro André Previn estava entre seus quadros, como músico, compositor, orquestrador e regente.

jensen_The-Gay-DivorceeFilme “A alegre divorciada” (The gay divorciee) com Fred Astaire e Ginger Rogers, direção de Mark Sandrich, com a canção de Herb Madgison e Con Conrad, “The Continental”; para a partitura, “Uma noite de amor” (One night of love) com Grace More, direção de Victor Schertzinger, o prêmio foi para Louis Silvers. Estes foram os primeiros ganhadores do Oscar de canção e música respectivamente.

Com o advento do LP nos anos 1950, foram lançadas gravações das trilhas sonoras de filmes com selos dos próprios estúdios, como a MGM Records, e seus famosos musicais, a United Artists e outros, além dos demais selos que aderiram ao lucrativo segmento.

“Matar ou morrer” (High noon) com Gary Cooper, Grace Kelly, Lloyd Bridges, direção de Fred Zinnemann, música de Dimiri Tiomkin, vencedor de 4 Oscars, ator, montagem, trilha sonora, e canção original “Do not forsake me, oh my darlin”. Produção de 1952, não foi bem no seu lançamento, mas a canção lançada em disco pelo cantor country Frankie Laine, vendeu aos milhões. No rastro desse sucesso, Matar ou Morrer foi relançado, lotou cinemas, ganhou a crítica, Oscars e tornou-se um clássico. A partir daí, produtores passaram a pedir aos compositores “canções título” para que promovessem os filmes. Virou mania, a canção associada ao filme, na maioria das vezes antecedendo o lançamento, como promoção, já tocando nas rádios e aumentando as vendas das gravadoras. Estas canções eram vendidas em discos contendo a trilha sonora com a música incidental.jensen_Nino-Rota

As lojas de discos tinham enormes seções de “trilhas sonoras”, e surgiram colecionadores, que até hoje disputam discos em sebos ou em trocas, alguns com capas e encartes ricamente ilustrados.

Algumas canções fizeram tanto sucesso que ficaram dissociadas dos filmes. “A história de Elza” (Born free) produção inglesa de 1966, com Virginia McKenna, Bill Travers, direção de James Hill. Conta a história de uma leoa e se passa no Quênia, com paisagens africanas refletidas na música de John Barry, que lhe valeu um Oscar. A música da apresentação, com letra acrescentada posteriormente por Don Black e cantada por Matt Monro, foi para as paradas. Aqui no Brasil ganhou uma versão tonitruante em português, que rendeu grande sucesso a Agnaldo Rayol, mas que não tem nada a ver com o filme. Muito melhor escutar a música com a orquestração do próprio John Barry, com cordas e metais para ilustrarem as magníficas paisagens africanas na tela grande. Tema de Lara, massacrada por inúmeros conjuntos, é do filme “Doutor Jivago” (Doctor Zhivago) de 1965, música de Maurice Jarre, também premiada pela Academia. Com Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, direção de David Lean.

Muitas orquestras lançavam coletâneas de temas de filmes, como a orquestra Boston Pops, regida por Arthur Fiedler e depois por John Williams. O próprio John Williams, Henry Mancini, John Barry, Jerry Goldsmith, Elmer Bernstein, Michel Legrand e, mais recentemente, Ennio Morricone, lançaram álbuns com suas próprias composições, algumas transformadas em suítes. Mas a lista de nomes importantes de compositores é muito extensa.

Surgiram produtores fonográficos que garimparam compositores eruditos como Dmitry Shostakovich, Vaughan Williams, William Walton, resgatando partituras para filmes e gravando-as. Algumas sobrevivem em salas de concertos, como a cantata Alexandre Nevsky Op. 78 de Sergei Prokofiev para orquestra, coro e meio soprano. Extraída do filme “Os cavaleiros de Ferro” (Alexander Nevsky) pelo próprio compositor. Produção russa de 1938, com Nikolai Cherkassov e Nikolai Okhlopov, dirigida por Sergei Eisenstein, que realizara em 1925 “O encouraçado Potemkim”, obra-prima com a famosa montagem sequência da escadaria de Odessa. O entendimento diretor-compositor foi perfeito, um compondo a música com base nos esboços pormenorizados do outro. Duas obras do mais alto nível. O filme, de uma beleza plástica impressionante, a música se integrando na célebre sequência da batalha sobre o gelo, por exemplo.jensen_Alexander-Nevsky

Com o fácil acesso a filmes pelo vídeo doméstico, depois com a derrocada da indústria fonográfica e a internet, este segmento agora só interessa a colecionadores.

Você poderia recordar as cenas e emoções dos filmes ao ouvir suas trilhas sonoras, mas agora se pode ter acesso direto ao filme. Porém muitas partituras são melhores que os filmes a que se destinaram ou têm alto valor próprio e vale a pena ouvi-las como obra independente.

Além do mais, onde está a música de filmes hoje? De tão rara, foi uma surpresa agradável sair do cinema, depois de longo tempo, podendo cantarolar as músicas do “La La Land, cantando estações” com Ryan Gosling, Emma Stone, direção de Damien Chazelle, música de Justin Hurwitz, produção 2016, ganhador de seis Oscars, incluindo melhor trilha sonora e canção original. Como escreveu Ruy Castro: “o cinema americano reduziu-se a uma extensão da indústria de explosivos”. E a música barulhenta de hoje existe para fazer frente a isso.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaideias.com.br

domingo, 3 de dezembro de 2017

O erótico “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, de 1974


Publicado originalmente no Facebook/Nirton Venancio, em 02/12/2017.

COEUR D'EMMANUELLE.
Por Nirton Venâncio.

O erótico “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, produção francesa de 1974, ao contrário da avalanche de filmes pornográficos que foram lançados no Brasil com liberação da censura no final dos anos 70, trazia outros conceitos para o gênero. Estreou em telas brasileiras em 1978.

“Emmanuelle” tinha de tudo em termo de sexo e suas possibilidades de explorar o máximo do prazer: sexo a dois, a três, a quatro, sexo em avião (que depois ficou conhecido como “mile high club”), masturbação, a técnica de pompoarismo que mostrava uma vagina fumando um cigarro etc etc etc. Tudo isso sem sexo explícito e em estilo requintado, ambientes exóticos, mulheres lindas, homens sedutores, locais paradisíacos, trilha sonora com gemidos composta por Pierre Bachelet, e uma historinha para justificar tantas sacanagens.

“Emmanuelle” mexeu com 50 milhões espectadores no mundo inteiro por conta desse erotismo “soft” que provocava a imaginação e cutucava os desejos mais reprimidos nos homens e mulheres. “Soft” , mas direto, sem arrodeios, sem muitas palavras e pouca roupa, com uma “tese” muito segura sobre uma visão do sexo fora dos padrões.

A atriz holandesa Sylvia Kristel, que morreu há cinco anos, aos 60, encarnou com perfeição a Emmanuelle que existe nas mulheres e que os homens desejam, pelo menos assim o filme provocava uma discussão no subtexto. A atriz escolhida não tinha nenhum protótipo de mulherão, de gostosa... E isso nunca foi necessário nem condição para definir beleza feminina e sensualidade. Esse poder está na essência do eterno feminino, na volúpia de sua sexualidade natural, única.

O filme teve sequências muito ruins, fazendo uma variação equivocada do primeiro, partindo para o explícito mesmo e fim de papo. Sylvia Kristel fez dezenas de outros filmes, inclusive retomando Emmanuelle como referência, e, de certa forma, ficou marcada pela personagem criada ainda no final da década de 50 pela escritora Emmanuelle Arsan. Não sei se existe algo de biográfico entre uma e outra. Sei que tem entre todos nós. Ou não?

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nirton Venancio.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Por trás das Câmeras da super-produção: "BEN-HUR"




Imagens reproduzidas da FanPage:
Facebook/Cinema Paradiso - O Museu do Cinema.
Por trás das Câmeras da super - produção: "BEN-HUR".
Ano 1959,  direção de William Wyler.