segunda-feira, 16 de abril de 2018

Morre o diretor Milos Forman, um outsider em Hollywood

Milos Forman, em Paris em 2009 Martin Bureau AFP 

Publicado originalmente no site El País Brasil , 14 ABR 2018

Morre o diretor Milos Forman, um outsider em Hollywood

Cineasta tcheco, de 86 anos, recebeu dois ‘Oscars’ por 'Um Estranho no Ninho’ e 'Amadeus'

Por Gregorio Belinchón 

Milos Forman (Caslav, 1932), diretor de filmes como Amadeus e Um Estranho no Ninho, faleceu em sua casa em Hartford (Connecticut) aos 86 anos, após uma breve doença. “Morreu tranquilamente na sexta-feira, cercado por sua família e amigos mais próximos”, disse sua viúva, Martina. Além dos filmes citados, o cineasta deixou obras primas à história, como Hair e Pedro, o Negro.

O tcheco foi um cineasta especial, que demonstrou que era possível trabalhar dentro de Hollywood com um toque subversivo. Essa mesma aposta iconoclasta, contra o poder – seu cinema refletiu a luta do indivíduo contra a opressão do sistema – e com tons satíricos foi o que provocou sua saída de seu país natal no final dos anos sessenta após a invasão da Tchecoslováquia em 1968.

É curioso, como Guillermo del Toro lembra em seu artigo (em espanhol), como Forman sempre se conectou com o grande público, independentemente do tamanho da produção de seu filme, e como defendia seus personagens protagonistas, por mais estranhos que parecessem no começo de cada narração. “Às vezes são as mentes mais sujas que amam da maneira mais limpa”, contou na divulgação de O Povo contra Larry Flint, Urso de Ouro do festival de Berlim. Seu primeiro filme nos Estados Unidos, Um Estranho no Ninho, exemplifica esse talento, com um Jack Nicholson soberbo que encarnou não só um rebelde como alguém que conseguiu despertar seus colegas de hospício no sentido da liberdade que estava adormecida. Lembrou daquela filmagem em uma oficina de cinema em Málaga em 2009: “Quase não precisei falar com ele e dirigi-lo, porque os grandes atores são também grandes profissionais. Jack se sentiu estranho e me disse que eu era o único diretor que não o incomodava durante a filmagem”. Com a produção ganhou seu primeiro Oscar de melhor direção, um dos cinco obtidos pelo filme.

Mozart e o Holocausto

Mas o maior sucesso de sua carreira viria em 1984 com Amadeus. A história da inveja e da secreta admiração que Antonio Salieri sentia por Mozart ganhou oito Oscars (sua segunda estatueta como diretor) e se transformou em um dos títulos mais emblemáticos dos anos oitenta. No filme havia também um desejo realizado: foi filmado em seu país natal – à época Forman já tinha a nacionalidade norte-americana – e pôde voltar a sua casa como um vencedor. Em sua biografia, Turnaround: A Memoir (1994), escreveu que tudo na vida o havia “condicionado a vencer”, ainda que a sua maneira.

Como diretor, o tcheco nunca se importou em filmar roteiros de outros. E mais, de seus oito filmes no exílio, só escreveu o roteiro de dois: “Eu prefiro ter um roteiro sólido no qual me apoiar, mas gosto que exista lugar à improvisação na filmagem da sequência. 10% de improvisação na hora de filmar pode trazer momentos únicos, incríveis. Gosto de filmar com atores que não saibam o roteiro nos mínimos detalhes, mas fazê-los representar seguindo o roteiro, que eu já sei de cor, dando-lhes indicações para que o diálogo seja mais real, mais fresco, mais vivo”, afirmava.

“Prefiro um país livre abarrotado de mau gosto a um país refinado, mas sem liberdade”

Milos Forman tinha uma ideia muito clara sobre seu exílio. “Prefiro um país livre e abarrotado de mau gosto a um país refinado, mas sem liberdade”, dizia. “A censura é o pior dos males. Vivi sob um regime totalitário em que existia a pressão da censura ideológica. Agora vivo em um país em que se existe alguma pressão é a comercial. Sem dúvida, prefiro essa última, pelo menos nela milhares de pessoas decidem e não só uma”. Ele mesmo sofreu na pele várias ditaduras. Nascido em Caslav em 1932, tanto sua mãe, Anna Suabova, como o homem que ele pensava que era seu pai, um professor chamado Rudolf Forman, morreram assassinados pelos nazistas em campos de extermínio. Apesar de ter se educado no protestantismo, Forman às vezes dizia ser meio judeu. Somente após a publicação de suas memórias, escritas com Jan Novak, sua história foi conhecida: em meados dos anos sessenta, Forman encontrou uma amiga de sua mãe em Auschwitz a quem ela confessou que o verdadeiro pai do cineasta era um amante seu, um arquiteto judeu que sobreviveu ao Holocausto e que Forman chegou a conhecer no Peru.

Por isso Jan Tomáš Forman, seu nome verdadeiro, cresceu com pais adotivos. Estudou cinema na Escola de Praga, e desde o começo seus filmes – Pedro, o Negro (1964) e Os Amores de uma Loira (1965) – chamaram a atenção dos festivais internacionais. Com The Firemen's Ball, em que ironizava a burocracia em um destacamento de bombeiros voluntários, começou a sentir a pressão das autoridades comunistas. De modo que quando as tropas soviéticas entraram na Tchecoslováquia em agosto de 1968, Forman, que estava em Paris negociando seu primeiro projeto norte-americano, decidiu não voltar.

Início difícil nos EUA

Seu primeiro trabalho nos EUA foi a comédia Procura Insaciável (1971). Não foi nada bem, e Forman entrou em depressão em seu quarto do nova-iorquino hotel Chelsea. Somente Um Estranho no Ninho o tirou desse estado. Em suas memórias conta que os dois produtores do filme, Michael Douglas e Saul Zaentz, o contrataram por uma ninharia. A partir daí pode escolher seus projetos: o musical Hair (1979), que dizia ter gostado pela energia dos jovens atores; Na Época do Ragtime (1981), o último filme no cinema de James Cagney; Amadeus (1984); Valmont - Uma História de Seduções (1989), um filme que teve contra ele a estreia no ano anterior de Ligações Perigosas, já que ambos eram baseados na mesma obra epistolar de Pierre Ambroise Choderlos de Laclos; O Povo contra Larry Flint (1996); O Mundo de Andy (1999) – em que a imersão total no papel de Jim Carrey, seu protagonista, quase o tirou do sério – e Sombras de Goya (2006).

A história de Goya chegou a ele por um livro, que havia lido há anos e escreveu o roteiro em parceria com seu grande amigo, o mítico roteirista Jean-Claude Carrière. “Aquele volume falava sobre a Inquisição espanhola. Existiam muitas semelhanças com coisas que eu havia conhecido. Fiquei espantado com os paralelismos que existiam entra a Inquisição espanhola e os regimes totalitários nazista e comunista”, contou em uma homenagem no festival de Sevilha. “Provavelmente, Goya não teria sobrevivido no século XXI”. E usou, efetivamente, mais uma vez o pintor para ilustrar sua eterna história, a de um indivíduo contra a opressão angustiante do poder, a da ciência e do Iluminismo contra a Inquisição.

No século XXI, Forman também dirigiu ópera, com seus filhos gêmeos, Petr e Matêj, como A Walk Worthwhile: Uma Caminhada de Valor, dos autores tchecos Jiri Slitr e Jiri Suchy que curiosamente ele já havia dirigido para a televisão tchecoslovaca em 1966. Além disso, foi um dos diretores da seção de cinema da Universidade de Columbia, e se manteve na ativa com alguns projetos que não deram certo e outros que deram, como a versão ao cinema, dirigida em conjunto com seu filho Petr, de A Walk Worthwhile: Uma Caminhada de Valor.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Interior do antigo Cine Rio Branco, em Aracaju


Com cadeiras de madeira e sem acolchoado, a sala tinha 
platéia em três pavimentos, o térreo e mais dois andares. No primeiro, antes 
o piso ia até a parede da tela, retirado em uma das reformas. No segundo andar,
num piso mais avançado, ficava a cabine de projeção.
-------------------------------------------------------
Imagens de arquivo: Jornal de Sergipe/Jornal da Cidade/Poster da Cidade/PMA.
Reproduzidas do blog: aracajusaudade.blogspot.com.br
Do professor Eudo Robson

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

As trilhas sonoras


As trilhas sonoras
Por José Augusto Jensen

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood instituiu a partir de 1928 prêmios anuais aos melhores filmes, atores, atrizes e diretores, o “Oscar” como ficou conhecido. Em 1934, criaram os prêmios para melhor canção e partitura musical, considerando-se a importância que estes aspectos vinham ganhando após a sonorização dos filmes. Mesmo antes disso, alguns filmes mudos vinham com partituras a serem executadas por orquestras, grandes órgãos, conjuntos ou solitários pianistas em cinemas menores. Os principais estúdios trataram de contratar os maiores nomes nos EUA e principalmente da Europa, muitos compositores oriundos da música erudita, nos anos 1930, fugindo de regimes totalitários. Mantinham orquestradores, músicos, estúdios de som, e a Metro-Goldwyn-Mayer, formou uma das melhores orquestras sinfônicas dos EUA, produzindo também complementos com peças curtas do repertório erudito. O maestro André Previn estava entre seus quadros, como músico, compositor, orquestrador e regente.

jensen_The-Gay-DivorceeFilme “A alegre divorciada” (The gay divorciee) com Fred Astaire e Ginger Rogers, direção de Mark Sandrich, com a canção de Herb Madgison e Con Conrad, “The Continental”; para a partitura, “Uma noite de amor” (One night of love) com Grace More, direção de Victor Schertzinger, o prêmio foi para Louis Silvers. Estes foram os primeiros ganhadores do Oscar de canção e música respectivamente.

Com o advento do LP nos anos 1950, foram lançadas gravações das trilhas sonoras de filmes com selos dos próprios estúdios, como a MGM Records, e seus famosos musicais, a United Artists e outros, além dos demais selos que aderiram ao lucrativo segmento.

“Matar ou morrer” (High noon) com Gary Cooper, Grace Kelly, Lloyd Bridges, direção de Fred Zinnemann, música de Dimiri Tiomkin, vencedor de 4 Oscars, ator, montagem, trilha sonora, e canção original “Do not forsake me, oh my darlin”. Produção de 1952, não foi bem no seu lançamento, mas a canção lançada em disco pelo cantor country Frankie Laine, vendeu aos milhões. No rastro desse sucesso, Matar ou Morrer foi relançado, lotou cinemas, ganhou a crítica, Oscars e tornou-se um clássico. A partir daí, produtores passaram a pedir aos compositores “canções título” para que promovessem os filmes. Virou mania, a canção associada ao filme, na maioria das vezes antecedendo o lançamento, como promoção, já tocando nas rádios e aumentando as vendas das gravadoras. Estas canções eram vendidas em discos contendo a trilha sonora com a música incidental.jensen_Nino-Rota

As lojas de discos tinham enormes seções de “trilhas sonoras”, e surgiram colecionadores, que até hoje disputam discos em sebos ou em trocas, alguns com capas e encartes ricamente ilustrados.

Algumas canções fizeram tanto sucesso que ficaram dissociadas dos filmes. “A história de Elza” (Born free) produção inglesa de 1966, com Virginia McKenna, Bill Travers, direção de James Hill. Conta a história de uma leoa e se passa no Quênia, com paisagens africanas refletidas na música de John Barry, que lhe valeu um Oscar. A música da apresentação, com letra acrescentada posteriormente por Don Black e cantada por Matt Monro, foi para as paradas. Aqui no Brasil ganhou uma versão tonitruante em português, que rendeu grande sucesso a Agnaldo Rayol, mas que não tem nada a ver com o filme. Muito melhor escutar a música com a orquestração do próprio John Barry, com cordas e metais para ilustrarem as magníficas paisagens africanas na tela grande. Tema de Lara, massacrada por inúmeros conjuntos, é do filme “Doutor Jivago” (Doctor Zhivago) de 1965, música de Maurice Jarre, também premiada pela Academia. Com Omar Sharif, Julie Christie, Rod Steiger, direção de David Lean.

Muitas orquestras lançavam coletâneas de temas de filmes, como a orquestra Boston Pops, regida por Arthur Fiedler e depois por John Williams. O próprio John Williams, Henry Mancini, John Barry, Jerry Goldsmith, Elmer Bernstein, Michel Legrand e, mais recentemente, Ennio Morricone, lançaram álbuns com suas próprias composições, algumas transformadas em suítes. Mas a lista de nomes importantes de compositores é muito extensa.

Surgiram produtores fonográficos que garimparam compositores eruditos como Dmitry Shostakovich, Vaughan Williams, William Walton, resgatando partituras para filmes e gravando-as. Algumas sobrevivem em salas de concertos, como a cantata Alexandre Nevsky Op. 78 de Sergei Prokofiev para orquestra, coro e meio soprano. Extraída do filme “Os cavaleiros de Ferro” (Alexander Nevsky) pelo próprio compositor. Produção russa de 1938, com Nikolai Cherkassov e Nikolai Okhlopov, dirigida por Sergei Eisenstein, que realizara em 1925 “O encouraçado Potemkim”, obra-prima com a famosa montagem sequência da escadaria de Odessa. O entendimento diretor-compositor foi perfeito, um compondo a música com base nos esboços pormenorizados do outro. Duas obras do mais alto nível. O filme, de uma beleza plástica impressionante, a música se integrando na célebre sequência da batalha sobre o gelo, por exemplo.jensen_Alexander-Nevsky

Com o fácil acesso a filmes pelo vídeo doméstico, depois com a derrocada da indústria fonográfica e a internet, este segmento agora só interessa a colecionadores.

Você poderia recordar as cenas e emoções dos filmes ao ouvir suas trilhas sonoras, mas agora se pode ter acesso direto ao filme. Porém muitas partituras são melhores que os filmes a que se destinaram ou têm alto valor próprio e vale a pena ouvi-las como obra independente.

Além do mais, onde está a música de filmes hoje? De tão rara, foi uma surpresa agradável sair do cinema, depois de longo tempo, podendo cantarolar as músicas do “La La Land, cantando estações” com Ryan Gosling, Emma Stone, direção de Damien Chazelle, música de Justin Hurwitz, produção 2016, ganhador de seis Oscars, incluindo melhor trilha sonora e canção original. Como escreveu Ruy Castro: “o cinema americano reduziu-se a uma extensão da indústria de explosivos”. E a música barulhenta de hoje existe para fazer frente a isso.

Texto e imagem reproduzidos do site: revistaideias.com.br

domingo, 3 de dezembro de 2017

O erótico “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, de 1974


Publicado originalmente no Facebook/Nirton Venancio, em 02/12/2017.

COEUR D'EMMANUELLE.
Por Nirton Venâncio.

O erótico “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, produção francesa de 1974, ao contrário da avalanche de filmes pornográficos que foram lançados no Brasil com liberação da censura no final dos anos 70, trazia outros conceitos para o gênero. Estreou em telas brasileiras em 1978.

“Emmanuelle” tinha de tudo em termo de sexo e suas possibilidades de explorar o máximo do prazer: sexo a dois, a três, a quatro, sexo em avião (que depois ficou conhecido como “mile high club”), masturbação, a técnica de pompoarismo que mostrava uma vagina fumando um cigarro etc etc etc. Tudo isso sem sexo explícito e em estilo requintado, ambientes exóticos, mulheres lindas, homens sedutores, locais paradisíacos, trilha sonora com gemidos composta por Pierre Bachelet, e uma historinha para justificar tantas sacanagens.

“Emmanuelle” mexeu com 50 milhões espectadores no mundo inteiro por conta desse erotismo “soft” que provocava a imaginação e cutucava os desejos mais reprimidos nos homens e mulheres. “Soft” , mas direto, sem arrodeios, sem muitas palavras e pouca roupa, com uma “tese” muito segura sobre uma visão do sexo fora dos padrões.

A atriz holandesa Sylvia Kristel, que morreu há cinco anos, aos 60, encarnou com perfeição a Emmanuelle que existe nas mulheres e que os homens desejam, pelo menos assim o filme provocava uma discussão no subtexto. A atriz escolhida não tinha nenhum protótipo de mulherão, de gostosa... E isso nunca foi necessário nem condição para definir beleza feminina e sensualidade. Esse poder está na essência do eterno feminino, na volúpia de sua sexualidade natural, única.

O filme teve sequências muito ruins, fazendo uma variação equivocada do primeiro, partindo para o explícito mesmo e fim de papo. Sylvia Kristel fez dezenas de outros filmes, inclusive retomando Emmanuelle como referência, e, de certa forma, ficou marcada pela personagem criada ainda no final da década de 50 pela escritora Emmanuelle Arsan. Não sei se existe algo de biográfico entre uma e outra. Sei que tem entre todos nós. Ou não?

Texto e imagem reproduzidos do Facebook/Nirton Venancio.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Por trás das Câmeras da super-produção: "BEN-HUR"




Imagens reproduzidas da FanPage:
Facebook/Cinema Paradiso - O Museu do Cinema.
Por trás das Câmeras da super - produção: "BEN-HUR".
Ano 1959,  direção de William Wyler.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Sergipe e o Cinema Novo: O resgate a Waldemar Lima



Texto publicado no Facebook/Luiz Eduardo Oliva, em 03.10.2017.

Sergipe e o Cinema Novo: O resgate a Waldemar Lima (*).

Por Luiz Eduardo Oliva (**)

No célebre livro “As paixões e os Interesses” que pontificou nos meios acadêmicos entre os anos 70 e 80 o economista político alemão Albert Hirschman lembra o filósofo Santo Agostinho que dizia que os três principais pecados do homem decaído era a ânsia por dinheiro e bens materiais, o desejo sexual e o desejo de poder, a que chamou de “libido dominandi”.

Agostinho condenou essas três “paixões humanas”, mas atenuou a última quando esta se combina com um forte anseio por louvor e glória. Para ele havia uma "virtude civil" que caracterizava, por exemplo, os 77 romanos, "os quais mostraram um amor babilônico por sua pátria terrestre", substituindo o “desejo de riqueza e muitos outros vícios, por um único vício: o anseio pelo louvor" onde a busca da honra e glória estaria no critério de avaliação da virtude e grandeza do homem.

Assim, atenuando uma das paixões condenadas, Santo Agostinho compreendeu que era e é, da natureza humana, essa busca pela glória que, naturalmente nos povos sempre se deu pelas grandes conquistas. Quando Luís de Camões escreve os Lusíadas ele se refere à honra e glória de Portugal. Há em Homero, tanto na Ilíada como na Odisseia, a exaltação à Grécia, seu povo, sua engenhosidade e bravura.

A reverência aos heróis é antes uma reverência à pátria. Homens e pátria dizem desse “amor babilônico” que destaca cada povo e cada localidade. Quando destacamos nossos grandes nomes queremos exaltar a nós mesmos, a nossa origem, o amor ao rincão, à aldeia. Os baianos, sobretudo, são pródigos em exaltar sua gente. Sergipe, embora seja um Estado altamente rico pela inteligência de seus filhos e filhas é, todavia negligente em cultua-los ou exaltar a inteligência sergipana e a sergipanidade.

Digo isso para me referir à figura de um esquecido sergipano: o fotógrafo e cineasta Waldemar Lima, nascido em Aracaju em 1939 e que viria a ser um dos principais expoentes do mais fascinante momento de renovação do cinema brasileiro – e até mundial – o chamado cinema novo onde a figura central é o baiano Glauber Rocha. Waldemar Lima vem a ser o assistente de direção do filme “Barravento” e o diretor de fotografia no revolucionário “Deus e o Diabo na terra do sol” considerado um dos maiores filmes de todos os tempos. Pois bem, é desse Waldemar Lima que se busca reverenciar como uma das glórias sergipanas que, quase esquecido, por ato realizado esta sexta-feira no Tribunal de Contas, sob a batuta do conselheiro e cinéfico Clovis Barbosa é resgatado.

Waldemar viveu em Aracaju até os 26 anos onde desenvolveu por moto próprio a arte da fotografia. Migra à Bahia, se integra a um movimento de discussão do cinema, conhece Glauber Rocha e depois vem a ser, junto com o célebre baiano talvez a figura mais importante do cinema novo pela revolução que impõe com o domínio da luz e o uso da câmara.

Conheci Waldemar Lima ao acaso quando, nos idos de 1989, ele resolve voltar a Aracaju onde monta uma pequena produtora de vídeos em VHS. Embora consagrado fora do seu estado, em Sergipe continuava um ilustre desconhecido. Àquela época, eu à frente do Centro de Cultura e Arte da UFS, o Cultart, tive a oportunidade de desenvolver boa amizade com Waldemar que realizou trabalhos de vídeo tendo documentado os últimos grandes festivais de arte de São Cristóvão. Mas como santo de casa não faz milagres, não houve nem o reconhecimento nem a compensação mínima para a sobrevivência e Lima retornou a São Paulo.

Só vou reencontra-lo, mais uma vez ao acaso em 2005 quando ele me revelou (sem trocadilhos fotográficos) que tinha fotografado o centenário de Aracaju em 1955 e as fotos continuavam inéditas e desconhecidas, embora os negativos estivessem bem conservados. Diante daquele tesouro desenvolvemos a ideia de uma exposição das fotos com poemas meus para participar das comemorações dos 150 anos de Aracaju. Mas porque já havia uma programação, o projeto não foi adiante. Tivemos outras tentativas sem frutos até Waldemar falecer em 2012.

Recentemente provocando o conselheiro presidente do Tribunal de Contas do Estado Clóvis Barbosa, que coordena um projeto cultural naquele tribunal, topou o resgate da figura de Waldemar Lima. O resultado foi um documentário sob a direção do talentoso Pascoal Maynard, o “Concurso de Roteiros Waldemar Lima Um Minuto Cidadão” para exibição da TV Aperipê, a edição do livro “Waldemar lima, uma câmera e uma ideia de luz” organizado pelo brilhante jornalista Marcos Cardoso e a exposição das fotos inéditas com poemas meus e sob a regência gráfica da talentosa designe Germana Araújo. As fotos estarão expostas durante um mês no TCE. Em Aracaju vieram familiares de Lima e velhos amigos do ciclo de cinema baiano, o Carlos Modesto, José Humberto e Roque Araújo, uma lenda viva do cinema novo.

Waldemar era um apaixonado pela luz. Sua sensibilidade para com a luz só era comparável à sensibilidade do celuloide de um filme aza 400. Seu olho era mais sensível que o diafragma de uma rolleiflex. Mas era principalmente a sensibilidade de um filho do sol, do escaldante sol nordestino, do miraculoso e altamente iluminado sol de Aracaju. Essa sensibilidade que ele levou à Bahia e no encontro mágico com Glauber Rocha, fundindo o gênio sergipano com o gênio baiano, houve a reinvenção do cinema, conhecido mundialmente como Cinema Novo. Certamente um cinema que teve origens também no talento de Waldemar Lima, forjado no sol de Aracaju demonstrado naquelas fotos feitas há 62 anos quando a capital dos sergipanos era apenas uma cidade comemorando o seu primeiro centenário.

Importante destacar que a grande referência inovadora do Cinema Novo é a estética que ele apresenta, do movimento da câmara, o aproveitamento com realismo e total genialidade da luz dos trópicos, da luz nordestina, da luz da Bahia. E isso é Waldemar Lima, o sergipano laureado como o principal diretor de fotografia do Cinema Novo.

Na sua simplicidade quase franciscana Waldemar não demonstrava o gênio que ele era. Comportava-se como os filmes negativos que necessitavam da câmara escura para o processo de revelação. Resgatar Waldemar Lima e sua obra é brindar a alma sergipana, à glória da nossa gente, é reverenciar um saber da sergipanidade. Waldemar Lima, um gênio da raça sergipana.

(*) Artigo publicado no Jornal da Cidade, edição de 30 de setembro a 02 de Outubro de 2017.

(**) Luiz Eduardo Oliva, advogado, poeta e professor. Ex-secretário de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Texto e imagens reproduzidos do Facebook/Luiz Eduardo Oliva.

sábado, 30 de setembro de 2017

Um Operário do Cinema | Waldemar Lima


Documentário produzido pelo TCE/SE, dirigido por Pascoal Maynard, 
sobre o fotógrafo cinematográfico sergipano Waldemar Lima, 
diretor de fotografia do filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha.

Registro: Cena audiovisual sergipana se movimenta

 Making of do filme Seu Euclides, de Marcelo Roque.
Foto: Moema Costa.

 Cena dois do filme de Marcelo Roque (Foto: Moema Costa).

 Marcelo Roque em ação (Foto: arquivo pessoal).

 Rafael Heleno e Tia Mary no curta 'Thank U Dona Marlene'.
Foto: arquivo pessoal.

 Público prestigia exibição de curtas produzidos em Sergipe.
Foto: divulgação.

 Curta-SE ajuda a movimentar a cena local.
Foto: divulgação.

 Exibição de curtas no NPD Orlando Vieira.
Foto: divulgação.

 Sessão de cinema do Curta-SE tem público cativo.
Foto: divulgação.

 Aula de edição no NPD Orlando Vieira.
Foto: divulgação.

 Externa da oficina de filmagem do NPD Orlando Vieira.
Foto: divulgação.

 Filmagens realizadas pelos alunos do NPD (Foto: Divulgação).

 Rosânsela Rocha (Foto: Silvio Rocha).

Anderson Bruno (Foto: arquivo pessoal)

Gabriela Caldas registra apresentação de grupos folclóricos de Sergipe 
Foto: arquivo pessoal.

Publicado originalmente no site da PMA, em 30/08/2010.

Cena audiovisual sergipana se movimenta

Por Aline Braga

Curta-metragem é a palavra-chave dessa história. É de 15 em 15 minutos - tempo médio dos filmes carinhosamente apelidados de ‘curtas'- que a cena audiovisual sergipana se movimenta. Entre produções de 35, 16 e 8mm, Super 8 e digital, a trajetória audiovisual ‘serigy' é de consumir longas e produzir curtas. No ano em que o Festival Iberoamerico de Cinema de Sergipe (Curta-SE) completa uma década há de se fazer uma reflexão. Algumas ações andam incrementando o cenário audiovisual com opções em vários pontos da cidade.

Hoje, além das salas de cinema comercial, o aracajuano pode ver produções sergipanas e nacionais na Rua da Cultura, no Sesc Centro, no Palácio-Museu Olímpio Campos, na Casa Curta-SE, no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, no Cine CUT (Central Única dos Trabalhadores) e no Espaço Cultural Imbuaça.

Isso sem contar a vazão de inúmeros trabalhos pela TV Aperipê, em programas como o semanal ‘Olha Aí'. No entanto, apesar da expansão dos espaços de exibição, atualmente o ritmo de produção e a manutenção do acervo daquilo que já foi produzido geram algumas lacunas.

A durabilidade do Curta-SE fez surgir, ou ao menos incentivou, a realização de vários trabalhos - diga-se que têm cumprido seu papel. Talvez não com a excelência do Festival Nacional de Cinema (Fenaca), protagonizado pela Universidade Federal de Sergipe e pelo Clube de Cinema Sergipano de 1972 a 1981. Sem dúvida o período de maior ebulição da cena.

De acordo com videomaker e cinéfilo Djaldino Mota Moreno, o movimento superoitentista no estado, que surgiu na década de 70, gerou cerca de 60 filmes, mas de lá para cá muita coisa mudou. "São momentos distintos. Antes o pessoal fazia em Super 8 e, à época, o Fenaca aqui levou o pessoal a produzir todo ano, mas falta visibilidade, as coisas aqui acontecem e somem, não há memória", critica Djaldino.

Mão na massa

Parte da memória mais recente encontra-se na Casa Curta-SE que, à sua maneira, serviu de termômetro, catavento e asilo para o que se produziu nessa última década. Exemplo concreto é a viodemaker Gabriela Caldas, que hoje coordena o Núcleo de Produção Especial da TV Aperipê e começou indiretamente por causa do festival.

"Sou da geração que não tinha videocassete. Cresci vendo Super 8, brincava na moviola e tinha verdadeira fascinação por cinema. Fui para o Curta-SE 2 e tinha um filme, ‘Pretensão de Cú é Rola', feito por um amigo meu, Vinícius Leite. Aí vi que não era uma coisa muito distante", conta Gabriela. Formada em Artes Visuais, em 2003 ela fez ‘Elipse', que ganhou prêmio de um festival na internet e menção honrosa na Curta-SE na categoria vídeo.

Aí veio ‘A morrer', uma produção maior que mereceu o prêmio de júri popular e melhor filme sergipano no mesmo festival. "Depois desse não fiz mais curtas tão produzidos. As pessoas ficaram falando: ‘Você fez uma coisa pretensa a profissional, com equipe grande. Acho que o profissional tem que ser uma coisa mais artesanal'. Aí comecei a caminhar no sentido inverso", conta.

Com ritmo desacelerado, vieram depois em 2007 ‘Epifani' e, em 2009, ‘Resfriado'. Gabriela sem querer se tornou uma referência de produção para quem veio depois disso, como Marcelo Andrade, 20 anos. Ele é estudante do 4º período do curso de Audiovisual da UFS, que, à parte de ter inaugurado o curso em 2009, desde o final do Fenaca, em 1981, renunciou o protagonismo na cena audiovisual.

Sendo assim, o estudante Marcelo encontrou refúgio em outro lugar. Seu curta ‘Bloody Jack', feito em grupo, foi exibido no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira - unidade mantida pela Prefeitura de Aracaju - Rede Olhar Brasil / Ministério da Cultura - como resultado de uma das oficinas que já fez por lá. Estimulado pela quantidade de lugares para exibição, ele pretende seguir produzindo por conta própria.

Capacitação

Inaugurado em novembro 2006, o NPD teve em sua primeira gestão Indira Amaral, Paulo Rogério e a videomaker Gabriela Caldas. Hoje quem coordena é Graziele Ferreira, 31 anos, também videomaker. Além do trabalho de formação de público com os projetos ‘Mergulho no Cinema' e a ‘Paralela Infantil', o núcleo capacita futuros videomakers. Foi por meio dessa lógica ‘vê e produz' que Marcelo exibiu seu ‘Bloody Jack'.

Parte do grupo de jovens de 20 e poucos anos que engrossou o caldo do audiovisual em Sergipe na última década, Graziele filmou em 2007 o curta-metragem ‘A Parede', baseado em uma história factual. Em 2008, com roteiro da artista plástica Hortência Barreto, o curta ‘Caju em cachos de crochê', que retrata uma instalação de Hortência.

"As mostras do núcleo estimulam o consumo dessas imagens e a formar um pensamento crítico. Essa é a diferença principal entre o perfil cineclube e a sala de exibição comercial. O cineclube é a janela do produtor independente", afirma Graziele. O cine da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD) reivindica esse papel.

Cineclube

Formado por realizadores, inclusive por Graziele, a ABD faz atualmente a exibição de filmes da Rua da Cultura, com curadoria de Anderson Bruno, videomaker desde 2003 e atual presidente da associação no estado. Produziu ‘A cadeira, os créditos e o específico fílmico' e ‘Thank You Dona Marlene', ambos com direção e roteiro próprio. O primeiro, carinhosamente apelidado de ‘A Cadeira', ganhou como melhor vídeo sergipano no Curta-SE. Em 2005 veio ‘Negro Amor'.

"Para fazer os outros filmes, precisei vender algumas coisas e pedir dinheiro aos meus pais. Vi que é difícil conseguir patrocínio, mas aprendi que o patrocinador precisa estar consciente do que é o curta-metragem, que não vai ter a amplitude dada pelo cinema comercial", comenta Anderson.

Por essas dificuldades, muitos dos realizadores apontam para a necessidade de editais que incentivem a produção, a capacitação e a distribuição das obras audiovisuais. O realizador sergipano Marcelo Roque, 42 anos, sabe dos benefícios de ser contemplado por um.

Por meio do Banco do Nordeste, ele produziu em 2007 o filme ‘Seu Euclides: Parafuso' e, em 2009, a continuação, ‘Seu Euclides: Chegança', que já participou de 10 festivais pelo Brasil, inclusive do Curta-SE. Com 12 documentários no currículo, mais os vídeos ‘O Perfeito', ‘Quebra-Cabeça' e a ‘A Paquera', de 2000, Marcelo vem movimentando a cena cultural de Aracaju. Ele é um dos que, como Rosângela Rocha, idealizadora do Curta-SE, participou do Cineclube Fantomas e das oficinas que reacenderam o movimento há 10 anos.

Marcelo vem buscando aos poucos deixar seus filmes para vender em alguns lugares da cidade. Paralelamente produz outros filmes e espera o resultado do BNB para a produção do terceiro filme da série ‘Seu Euclides', com a história do festejo folclórico Lambe Sujo, de Laranjeiras. Ele é do tipo que segue andando, às vezes em grupo, às vezes sozinho, talvez pelo diagnóstico que faz do movimento da classe na cidade.

"Ainda vejo ações isoladas, que precisam de uma firmeza. As que existem hoje a qualquer momento podem sumir. O clássico 'boom' que a gente viu foi com a Embrafilme, depois ressurgiu pela Lei de Cultura. Em Aracaju a gente nunca retomou totalmente", analisa Marcelo.

Possibilidades

Quem talvez tenha condições de dar novo fôlego para isso seja o Pontão Avenida Brasil. Ele é hoje a entidade que realiza o Curta-SE e é quem vai instalar na rua 24 horas uma nova sala comercial para exibir filmes ‘lado B'. Assim que voltar a funcionar, o antigo Cine Vitória, transformado em Sala Avenida Brasil, será também um dos pontos de exibição da capital.

Com a proposta de ser independente e fugir do cinemão, de acordo com Rosângela Rocha, o cine servirá para trazer novos diretores a Aracaju, lançar filmes e continuar com a capacitação. Sobre a área, ela afirma: "Há de ser pensar coletivamente".

Texto e imagens reproduzidos do site: aracaju.se.gov.br

Registro: Homenagens a Waldemar Lima

Artigo de Hamilton Oliveira, em homenagem ao
fotógrafo cinematográfico Waldemar Lima.

Waldemar Lima.

 Programa Expressão, apresentado por Pascoal Maynard, 
exibido no dia 29 de setembro de 2017, na Aperipê TV, 
a nata da cinematografia do cinema novo da Bahia: Carlos Modesto,
José Umberto, Roque Araújo e o pesquisador e escritor
Gilfrancisco Santos. Homenagem do TCE/SE, ao fotógrafo 
cinematográfico sergipano Waldemar Lima.