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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

"O Enterro do Celuloide", por Lilian Rocha


Publicado originalmente no blog LILIAN ROCHA BLOG, em 25 de abril de 2016

O Enterro do Celuloide
Por Lilian Rocha

Além de “miss por um dia”, também já fui “artista de cinema”. Quer dizer, não fui uma “artista” assim, propriamente dita, nem o filme foi assim, propriamente “um filme”…

Mas vamos aos fatos:

Na década de 70, houve uma febre de filme Super-8 no Brasil que deu o que falar! Tinha esse nome Super-8, por causa do cartucho do filme que media apenas 8mm. Era um filme de curtíssima metragem, que durava cerca de 2 minutos e meio, eu acho. Ora, num tempo em que os filmes de cinema eram uma coisa completamente inacessível e que todo mundo participava deles apenas como espectador, agora com uma câmera que rodava um filme super-8, qualquer um poderia se tornar um cineasta!

Foi exatamente isso que Marcus, um grande amigo meu dessa época, pensou. Ele era sergipano, mas foi estudar em Salvador e por lá ficou. Por isso, todos o conheciam lá como “Marcus Sergipe”. Em 1977, Marcus comprou – ou ganhou – uma dessas câmeras Super-8 e botou na cabeça que queria fazer um filme.

Ora, por esse tempo, estávamos vivendo uma das piores fases do cinema brasileiro. A grande maioria dos filmes se resumia à pornochanchada, pois era uma produção barata, que não exigia grandes cenários, nem grandes diálogos nem grandes atores. Bastava uma meia dúzia de mulheres de corpos fartos, outra meia dúzia de ‘homens famintos’, um quarto, uma cama e estava pronto o filme.

Aproveitando-se dessa nossa carência, o cinema americano entrou com tudo, arrebatando imensas plateias. Quem não se lembra, por exemplo, dos filmes-tragédias, como “O destino do Poseidon”, “Os sobreviventes dos Andes”, “Tubarão”, “King-Kong”, “Terremoto”? Ou dos filmes de diabo que surgiram depois do sucesso estrondoso de “O exorcista“, como “A Profecia”, “A reencarnação do diabo”, “Carrie, a estranha”? (Eu não perdia nenhum desses…)

No meio de tudo isso, estava Marcus, sonhando em ser cineasta e mudar o mundo. Foi então que ele teve a ideia de matar o cinema brasileiro. Isso mesmo, matar e depois enterrar! Foi a forma que ele encontrou de protestar.

Como dizia Glauber Rocha, para fazer cinema, basta “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”. E Marcus tinha as duas coisas. Por isso, ele mesmo escreveu o roteiro do seu filme e chamou Virgílio Carvalho Neto, outro amigo nosso, para ajudar na direção.

Como o local escolhido foi justamente Aracaju, foi aí que eu entrei nessa história…

O nome do filme seria “O enterro do celuloide” e como era um filme de Super-8, só teriam duas cenas. A primeira seria o cortejo do enterro e a segunda, o enterro, propriamente dito.

Eles, então, conseguiram um caixão de defunto emprestado numa funerária – vazio, claro!! – e nós nos reunimos em frente ao Cine Pálace, para gravar a primeira cena. À frente do caixão, ia um amigo nosso, todo sorridente, vestido de “Tio Sam”. Com uma tesoura enorme, ele ia picotando um rolo de celuloide, uma representação perfeita da superioridade do cinema americano. E seguindo o caixão, ia um bando de meninas – dentre elas, eu – umas de short, outras de biquíni, representando a pornochanchada.

Agora imaginem isso em Aracaju, em 1977! O que juntou de gente na Praça Fausto Cardoso pra ver aquele bando de malucos não está no gibi! A sorte é que escolhemos um sábado à tarde, quando o movimento nas ruas era bem mais fraco.

A um sinal, saímos todos em cortejo, pela rua João Pessoa – que naquele tempo ainda passava carro – acompanhando o enterro do celuloide. E lá na frente, se equilibrando em cima de um carro, ia Virgílio, filmando. Perdi as contas de quantas vezes repetimos essa cena, pois a toda hora, alguém mandava a gente voltar e fazer tudo de novo…

Mas nada foi tão divertido quanto à filmagem da segunda cena. Marcus conseguiu emprestado um carro da funerária – a mesma que havia lhe emprestado o caixão – e nós, as figurantes, fomos dentro dele até o cemitério dos Cambuís, onde seria o enterro.

Agora imaginem a cena! Para um carro de funerária em frente ao cemitério e dele sai um caixão tampado e, logo em seguida, um bando de meninas, de short, rindo sem parar… O que teriam pensado da gente, meu Deus?!

Entramos no cemitério, fingindo tristeza, e depois que o caixão era depositado na carneira, o filme acabava. Claro que, apesar de simples, também tivemos que refazer essa cena umas mil vezes…

Mas o que pra mim pareceu apenas uma brincadeira, para os entendidos, esse filme teve um valor tremendo! Tanto é que, no mesmo ano, ele ganhou o prêmio de “Melhor Filme e Melhor Roteiro de Sergipe”, no FENACA (Festival Nacional de Cinema).

Nunca mais tive notícias de Marcus, mas acredito que, com tanta criatividade assim, ele deve ter seguido mesmo esse caminho.

Quanto a mim, guardo com muito carinho a lembrança desse fim de semana inusitado, em que me tornei figurante de um filme e pela primeira vez andei de carro de funerária, de short!

Sem dúvida nenhuma, este foi o enterro mais divertido da minha vida…!

Texto e imagem reproduzidos do blog: lilianrochablog.wordpress.com

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Crônica do Filme: O Destino do Poseidon, por Lilian Rocha


Publicado originalmente na Fanpage/Facebook/Lilian Rocha, em 17 de abril de 2020

O Destino do Poseidon
Por Lilian Rocha

Durante a minha adolescência, lá pelos anos 70, houve uma moda de filmes-catástrofe: ‘Aeroporto’, ‘Inferno na Torre’, ‘Tubarão’, ‘Terremoto’, ‘Terror na montanha russa’ e por aí vai...

Numa época sem muitas opções de lazer, sem shoppings, sem internet, sem celular, sem TV a cabo, sem videocassete, o cinema de rua era uma das únicas opções viáveis pra gente. Por isso, vi quase todos esses...

Mas o meu preferido, o que me fez ir ao cinema 3 vezes, foi, sem dúvida, “O destino do Poseidon”, a história de um desastre de navio. Cerca de vinte anos depois, teríamos ‘Titanic’, superando em tudo o Poseidon...

Tudo se passa a bordo de um transatlântico chamado ‘Poseidon’, batizado assim em homenagem a Poseidon, o deus dos mares, por julgarem que o navio era grande e invencível e nunca se afundaria, o mesmo blá, blá, blá...

Pois bem, na noite de réveillon, quando todos estão no salão principal do navio, assistindo ao show de uma cantora e aguardando, felizes, a chegada do ano novo, eis que uma onda gigantesca atinge o navio, virando-o de cabeça para baixo. A partir daí, começa o filme propriamente dito.

O cenário agora é outro. O casco do navio agora está em cima, bem como a caixa de máquinas e outras coisas que ficavam embaixo. E o grande desafio das pessoas é encontrar uma saída que os leve até o casco. Não é uma tarefa fácil, a julgar pelo tamanho do navio e principalmente pelo pânico que se instalou entre as pessoas, que a toda hora se esbarra em gente afogada e vê a água entrando rapidamente no navio...

Um dos passageiros é um padre que, com muita sensatez, começa a liderar um pequeno grupo, pois ele conhece o navio e tem mais noção de qual direção todos devem seguir.

E o filme vai acontecendo, tenso, com a água entrando rapidamente e impedindo uma passagem e tendo que buscar outra e mais outra...e mais outra...

Em dado momento, o padre e seu grupo encontra outro grupo maior, se dirigindo para outra direção que ele sabe que é a errada. Com muito esforço, tenta convencê-los a não irem por aquela direção, pois a saída para o casco fica justamente para a outra direção. No entanto, o grupo repudia os conselhos dele e continua seguindo na direção errada. Quando eles acham a suposta saída e abrem a porta, todos são rapidamente tragados pelo mar...

Não vou aqui contar o filme todo, pois estragaria o prazer de quem quiser vê-lo e também de quem gostaria de se deliciar com a bela canção que ficou famosa com esse filme “The Morning After”, de Maureen McGovern, e que ainda hoje me emociona muito, sempre que a ouço...

Mas não foi por acaso que esse filme me veio à lembrança esses dias. Sinto-me também a bordo de um gigantesco transatlântico, chamado Brasil, que foi atingido por uma onda violentíssima e agora se encontra completamente perdido, literalmente, de cabeça pra baixo...

E enquanto uns mais sensatos apontam a direção correta, outro grupo mais teimoso insiste em tomar a direção contrária...

Há perigo no nosso navio. Um perigo concreto, real. E enquanto uns tentam fechar as escotilhas para a água não entrar, outros insistem em abri-las...

E em vez de um ajudar o outro a se salvar, o que tenho visto é uma enorme perda de tempo e energia de muitos discutindo política, defendendo opiniões e atitudes indefensáveis, clamando pelas forças armadas, pelo fim da democracia e mais um monte de baboseiras...

Não sei que direção vocês vão seguir e nem percam seu tempo, tentando me fazer conhecer as razões pelas quais vocês escolheram este ou aquele caminho. Não quero saber.

A única coisa que eu queria e que mais me faria feliz nessa vida era estar em outro navio, sendo liderada por alguém digno da minha confiança e do meu respeito...

Texto e imagem reproduzidos da Fanpage/Facebook/Lilian Rocha