Mostrando postagens com marcador CINEMATECA DO MAM. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador CINEMATECA DO MAM. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

E se os filmes perdessem as suas memórias?

Publicado originalmente no site do MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de janeiro

E se os filmes perdessem as suas memórias?
Por Juliana Ludolf

O curta metragem Valentina, antes de tudo, explora um espaço: o espaço da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, lugar onde se conservam filmes. Um espaço social, coletivo e cultural mas, sobretudo, espaço onde uma série de pessoas mantém relações por motivos artísticos, de pesquisa ou pessoais, caso da cinefilia.

A Cinemateca acolhe um acervo cinematográfico que contém desde recortes de jornais sobre os lançamentos de filmes, catálogos, revistas e cartazes de cinema, até filmes em todos os tipos de suportes, de películas a formatos digitais. Mas um acervo de filmes não é só um espaço de tratamento físico e técnico desses materiais, é também

um espaço de mobilização para que os materiais ganhem uma nova inserção, um novo sentido, que sejam apreciados e possam circular, gerando novas pesquisas e novos filmes.

Em 2015 tive sorte grande em conhecer o Hernani Heffner, na época Chefe Conservador da Cinemateca do MAM e meu professor de Cinema Brasileiro na PUC. O Hernani é uma espécie de guru do cinema brasileiro, uma figura central para o pensamento da preservação. Conheço vários cineastas e preservacionistas que tiveram a oportunidade de presenciar suas falas, e para muitos ele é uma espécie de mestre.

Nas primeiras aulas que participei dele, ficou clara uma constatação. Algo que, se qualquer um parar pra pensar, é completamente evidente: não temos acesso aos primeiros filmes do cinema brasileiro. Eles se perderam completamente. E parte dos filmes feitos nos últimos 120 anos, só podem ser encontrados em fragmentos, em notas de jornal, em fotos ou textos. Para muitos são bem parcas as evidências de sua existência. E para além dos filmes, quase nada se conhece sobre as primeiras formações das equipes de cinema, ou do cinema de cavação com suas “escolas” e “cursos”, ou ainda de muitos filmes da Cinédia e da Atlântida, perdidos para sempre. Era um tempo de pioneirismos, de jeitinhos, invenções e também do sufocamento que Hollywood e a cultura imperialista norte americana impunha em nossas salas, influenciando até a maneira de fazermos os nossos próprios filmes. Daquele momento em diante percebi que a história do Cinema vai muito além dos cânones.

Neste mesmo ano, além de estudante eu já trabalhava com pós-produção e fui contratada numa produtora chamada Cajamanga, que alugava duas salas no Tempo Glauber. Havia outras duas produtoras e um consultório de psicologia alugando as demais dependências e às vezes aconteciam eventos no auditório do Tempo. Lá ainda estava a biblioteca de livros e diários do Glauber Rocha, com as suas anotações, muitos cartazes, documentos, e uma sala totalmente estruturada para conservação de filmes e ao mesmo tempo completamente vazia. Anos antes todos os filmes que estavam armazenados ali foram transferidos para a Cinemateca Brasileira, pois a família não tinha mais condições de arcar com os custos de sua preservação.

Um dia, lá no Tempo, resolveram jogar no lixo muitas caixas de fitas VHS que continham todo o acervo dos filmes produzidos lá mesmo. Ali poderiam estar imagens inéditas e todo o conteúdo sobre a memória daquele lugar que, por muito anos, foi um ponto de encontro de diversos cineastas e artistas. Títulos como “Entrevista com João Ubaldo Ribeiro”, “Festivais Culturais de Primavera do Tempo Glauber 1994”, “Sobras de Terra em transe”, foram descartados de uma vez só. Foi a primeira vez que vivenciei a morte de uma coleção de filmes.

Em janeiro de 2016, quando entrei de férias da PUC, me voluntariei aos trabalhos na Cinemateca do MAM. Outros colegas também eram voluntários na área de catalogação, mas eu fui direcionada para o setor de revisão e preservação de filmes. E, apesar de cursar uma faculdade de cinema, foi a primeira vez que aprendi tecnicamente sobre as características das películas; que eram divididas em partes, em rolos nada simples de manusear, de identificar a sua origem, sobre o trabalho de revisão e como pontuar o filme em relação ao seu estado de conservação para uma possível projeção ou restauração.

No primeiro dia, “afrouxei” as cópias combinadas do filme Rio Zona Norte de Nelson Pereira do Santos, para preservação e armazenamento. Esse é o método necessário pois os filmes voltam apertados da projeção e precisam ser guardados soltos para retardar os efeitos da deterioração. Só que a emulsão dos filmes é feita de material orgânico e desbota, apodrece e hidrolisa se não houverem condições adequadas de armazenamento, temperatura e umidade. O suporte de acetato é o principal atingido pela Síndrome do Vinagre, e quase não temos mais filmes em suporte de nitrato para contar história.

No MAM, encontrei muitos filmes que já estavam abaulados e com descolamento de emulsão, e um deles me chamou muita atenção, por ser um filme dirigido por uma mulher, Norma Bengell. Uma atriz que passou para a direção estreando seu primeiro longa metragem, Eternamente Pagu, em 1989. Uma cinebiografia relativamente livre sobre a vida de Patrícia Galvão, ícone do feminismo no Brasil, e que já estava completamente hidrolisado.

O processo de roteiro do Valentina durou meses, e no meio disso participei do congresso e curso de preservação e restauração de filmes da FIAF, em Bolonha, na Itália. Na mesma cidade que Norma Bengell morou nos anos áureos da sua carreira internacional, quando trabalhou em westerns e filmes de terror italianos. O curso no laboratório L´immagine Ritrovata era dividido em setores e haviam mais de sessenta funcionários trabalhando frame a frame na identificação, reparação analógica, restauração digital e remasterização de filmes. Também havia um setor de tratamento químico para as cópias mais deterioradas.

Quando voltei pude escanear um rolo do Eternamente Pagu, que localizamos no CTAV, em 4K, na Afinal Filmes. E a qualidade da imagem capturada pelas novas tecnologias é tão boa, em termos dos atuais padrões de resolução e de exibição, quanto o era no tempo da projeção em película. Mas para o grande público atual, que assiste a um filme brasileiro dos anos 80 e que não acompanhou os avanços da tecnologia digital e por isso não cabe nas novas proporções das telas, acredita-se que esses filmes possuem uma qualidade inferior de imagem.

Dizem que parece “embaçado”. E por isso esses filmes não ocupam espaço condizente com as suas relevâncias históricas nas novas janelas on demand e nos circuitos comerciais. Eternamente Pagu também não participou da era do DVD, e assim como tantos outros filmes brasileiros, tem dificuldade de sobrevivência física e cultural. A preservação e a restauração de filmes no Brasil são áreas precárias da cadeia cinematográfica e sofrem diariamente com a falta de políticas públicas que ainda não consideram filmes patrimônios históricos. A Cinemateca Brasileira e outras instituições que lidam com memória vivem ameaçadas. Como não lembrar a tragédia no Museu Nacional, o fechamento do Tempo Glauber, ou aquela construção inacabada do MIS em Copacabana? Vivemos num tempo de muito descaso, onde a história está se deteriorando. E, por outro lado, os valores histórico, afetivo, cultural e geracional dos filmes são fundamentais para avançarmos no pensamento.

Valentina é sobre resistência e busca o reconhecimento da atuação profissional de Norma e Pagu meio à História, que revelam mulheres à frente de seu tempo e que lutavam através da arte e da escrita, num cenário majoritariamente masculino e conservador. O tema do aborto, paralelo a tentativa de não esquecimento dos filmes, é o retrato de um Brasil onde a violência contra a mulher é praticada pelo próprio Estado, nossos corpos e vidas estão constantemente sujeitos ao falso moralismo brasileiro.

Outro destaque do curta é a presença do ator, produtor e diretor Flávio Migliaccio. Na cena em que Valentina encontra Flávio, ele está segurando o fotograma do filme Os Mendigos, de 1963. Ali, ele estava encenando uma situação que aconteceu em 2015, quando procurava o filme que ele dirigiu na década de 60. É uma cena muito representativa, são duas gerações diferentes procurando rolos de um filme perdido.

Então Valentina dialoga com o seu próprio tempo. Falar sobre a preservação do cinema brasileiro é buscar, de alguma forma, resgatar a memória que é dissipada ao longo do tempo, desta dialética entre o que sobrevive e o que se perde que, eventualmente, construímos o relato histórico. Valentina tem continuidade em outros dois curtas, formando uma trilogia junto de Juliana na Cinemateca (documentário) e Filme Reverso (ensaio).

* Juliana Ludolf é produtora, roteirista e montadora do filme “Valentina”, e artista de restauração de filmes.

Foto: Estevão Meneguzzo

Texto e imagem reproduzidos do site: mam.rio/cinemateca

terça-feira, 21 de abril de 2020

Cinemateca do MAM - A Trincheira dos Cinéfilos



Publicado originalmente no site [obviousmag.org]

A Trincheira dos Cinéfilos
Por Alexandre Coslei

Às margens da Baía de Guanabara, diante de um cenário cinematográfico, é onde também reina o glorioso templo de devoção ao cinema: a Cinemateca do MAM.

Cresci na Tijuca, um bairro da zona norte do Rio de Janeiro rodeado de cinemas por todos os lados. Ser tijucano da geração dos anos 1970 significava cumprir um destino: tornar-se um cinéfilo.

Carioca, América, Tijuca, Bruni-Tijuca, Art-Palácio, Studio Tijuca, Cooper Tijuca, Olinda, Tijuca-Palace, Cinema 3, Comodoro e por aí vai... Criança, levado por meu pai, descobri o prazer das salas refrigeradas assistindo às matinês de Tom e Jerry no Art-Palácio. Nessas salas eu ri, escondi lágrimas, me entusiasmei, levei sustos, firmei amizades e povoei a minha solidão com os sonhos que transbordavam das telas. Hoje, a lembrança mais viva de um tijucano de meia idade é ter vivido numa filial de Hollywood.

Com o passar do tempo, o advento dos shoppings e a evolução da tecnologia empurraram as grandes salas de rua para o abismo. Aos poucos, todos os cinemas do bairro arriaram as portas – em sua maioria viraram igrejas. Minhas referências mais fortes foram varridas da Praça Saenz Peña. No fim, não sobrou nada. Os cinemas da Tijuca migraram em blocos para dentro dos claustrofóbicos corredores dos shoppings.

Por sorte, à medida em que eu ia amadurecendo, o mundo se estendia. Perambulava muito por São Cristóvão, na sede da Editora Ebal, à procura de exemplares atrasados da melhor revista de cinema da época, a Cinemin. Nela eu aprendia mais sobre cinema, sobre a crítica de cinema. Foi através de uma carta que enviei à Cinemin, pedindo mais informações sobre a atriz Jane Seymour, que recebi uma resposta que revelava o endereço de correspondência da diva. Datilografei para Londres e me voltou uma foto da estrela de “Em algum lugar do passado” com um belo autógrafo e dedicatória. Emoção inesquecível. Graças à Cinemin, também reavistei o camarada Ricardo Cota, com quem eu havia perdido o contato. Passei a acompanhar religiosamente o seu trabalho. Além de amigo, me tornei um fã.

O universo continuou se expandindo e pisei pela primeira vez na Cinemateca do MAM. Se a memória não é traiçoeira, foi quando assisti ao "Anjo Exterminador", de Buñuel. Havia uma atmosfera mágica no dia em que desembarquei do metrô, na estação Cinelândia, percorri a Av. Calógeras, atravessei a passarela da Infante Dom Henrique, descendo aos pés do Museu de Arte Moderna. Vislumbrei aquele monumento da arquitetura sabendo que estava ali antes que eu surgisse no planeta. Já havia história num lugar onde eu ensaiava as primeiras cenas que fariam parte da minha história.

Na Cinemateca, assisti a um dos filmes que mais me comoveu na minha modesta jornada de cinéfilo, “A pequena loja da Rua Principal”. Um filme tchecoslovaco ao qual me rendi, que me arrancou um choro engasgado e que ainda guardo a esperança de rever no mesmo lugar em que me acomodei na primeira vez. Não sei bem o porquê, mas depois de um período frequentando regularmente a Cinemateca, fez-se um hiato. Parei de ir.

Em 2015, aconteceu uma daquelas surpresas que despertam as alegrias do cotidiano. A Cinemateca volta a ilustrar os suplementos de cultura dos principais jornais, aparece em matérias de programas da TV e sua programação é anunciada até nas rádios. O templo em devoção ao cinema, que andava meio desbotado na memória, ressurge com o mesmo esplendor do passado no qual se fez sua fama. Num momento em que o espaço para a cultura na imprensa encolhe mais e mais a cada dia, eu testemunhava um milagre midiático. Não foi à toa. Por trás disso havia um nome, ou melhor, havia a marca da paixão pelo cinema. Ele, o amigo que iluminou as lendárias páginas da Cinemin: Ricardo Cota.

De repente, lá estava eu atravessando novamente a Av. Calógeras, superando a rampa da Av. Infante Dom Henrique com os passos pesados pela idade, desbravando os irremediáveis canteiros de obras do Centro e alcançando o monumental MAM. Não podia ser melhor, naquela tão querida sala de projeção, reencontrei Frank Sinatra. Assisti a uma bela palestra sobre o cantor dos belos olhos azuis. Em um outro dia, um novo evento, ao qual também compareci. Então, tive certeza, a Cinemateca nos proporciona o aconchego daquele cinema que a gente ama, que nos moldou junto com outros tantos fenômenos culturais. A Cinemateca é um paralelo com os antigos cinemas de rua, ela integra a nossa alma, é a face companheira que consola a nossa solidão coletiva. A Cinemateca é um santuário que precisa resistir e resiste.

Com a Cinemateca vieram os amigos, os antigos e os novos. Vieram os abraços. Veio a reaproximação e a alegria da convivência com os irmãos de espírito. Enquanto nós estamos ali para viajar nas películas, o Cota realiza. Está lá, matando o famoso leão do dia, todos os dias. Com ele, a Cinemateca não apenas resiste, mas ganha força, revitaliza-se, renova-se.

Escolho uma poltrona, sento-me em silêncio, o ambiente escurece. Glauber me olha da tela e com ele ressurgem os ideais teimosos que atravessaram intactos as décadas do meu caminho. Se a Cinemateca vive, a minha juventude persiste.

No regresso, em êxtase, paro num bar. Peço uma dose. Um brinde: vida longa à Cinemateca do MAM.

Texto e imagens reproduzidos do site: obviousmag.org