Publicado originalmente no site da revista OBVIOUS
O aprendizado do sexo em Paixão Selvagem
Por Cristiano Contreiras
Filme polêmico e ousado de Serge Gainsbourg cria tensão
sexual através de uma relação erótica entre a então sua esposa e cantora, Jane
Birkin, com o ícone fetichista da subcultura gay, Joe Dallessndro. "Paixão
Selvagem" ainda é uma abordagem crua e instigante sobre a força de um
relacionamento firmado em sensos mais carnais.
No fim da década de 1960, o cantor Serge Gainsgourg já era
popular por conta de seu vício em álcool, cigarros e constante polêmica em
relação a uma vida caracterizada por escândalos sexuais envolvendo orgias e
casos tórridos com mulheres. Era perceptível sua vulnerabilidade em dois
quesitos — a paixão pela música e o vício no sexo feminino. O apelo libidinal
em volta de sua figura na mídia foi potencializada quando casou-se com a então
modelo inglesa Jane Birkin (através desse envolvimento nasceu Charlotte Gainsbourg),
ambos passaram a produzir diversos discos juntos, além da famosa canção erótica
“Je t'aime, moi non plus” — tornou-se febre e encabeçou o topo de paradas de
sucessos em rádios no mundo. A mídia mediava essa relação dos dois e creditava
como símbolo de explosão do sexo e sentimento.
Durante o período que foram casados, justamente esse apelo
carnal era algo que mais a mídia trazia à tona. Diversos jornais e revistas
faziam questão de explorar o lado mais quente, a prova de que ali existia um
envolvimento de proporção sexual sem precedentes — existia a lenda que
Gainsbourg tinha um vício imoderado por sexo e que a compulsão era também um
problema para o matrimônio. Paralelo a isso, o ator americano Joe Dallesandro
era considerado o modelo sexual masculino mais proeminente de vários filmes
independentes americanos do século XX, um símbolo fetichista da subcultura gay.
Envolveu-se com trabalhos fotográficos de erotismo conceitual e foi muso/galã
de Andy Warhol em várias produções dele.
O soft-porn "Paixão Selvagem" foi uma produção
idealizada, musicada e dirigida por Gainsbourg e que gerou bastante polêmica no
terreno francês por conta de suas intenções maliciosas, sem tabus; um exercício
de sexualidade e desejos obscuros. A película trouxe Jane Birkin e Joe
Dallessandro como personificações da sensualidade hormonal, bem condizente com
aquele momento onde essas duas figuras eram símbolos perfeitos da sedução na
mídia.
No filme, Dallessandro é Krassky, um caminhoneiro
homossexual que trabalha com seu namorado transportando lixo, Padovan (Hugues
Quester). O que parecia uma relação pacífica e também dotada de tédio, torna-se
um senso conflituoso quando Krassky depara-se com uma garçonete andrógina numa
beira de estrada, Johnny (Birkin). A aparência um tanto masculinizada,
misteriosa e tímida da mulher, faz com que Krassky demonstre certo fascínio e
admiração por ela, além de um gradual tesão que faz com que seu relacionamento
gay gere um curto-circuito. O roteiro não tem receios e é objetivo em logo
escancarar esse interesse mútuo de um homossexual por uma mulher de corpo
esguio, quase sem seios, cabelos curtos e sem contornos femininos.
O filme é interessante em demonstrar esse calor inicial, já
que a primeira metade centra-se mais nas percepções de cada um, para depois
promover um exercício mais carnal e de sexualidade violenta na relação tensa
que vai desabrochar. Krassky claramente sente desejo por Johhny por conta de
sua aparência mais associada à masculinidade — porém, ao passo que o roteiro
tende a criar um envolvimento mais íntimo e emocional entre ambos, como na bela
seqüência que os dois dançam e se beijam demoradamente ao som de “Je t'aime,
moi non plus”, o público percebe que ali possa existir algo que não se centra,
apenas, na modulação de um envolvimento carnal.
O roteiro traça a gradual sedução do casal desde o primeiro
contato até a primeira transa, quando fica evidente que Krassky só conseguirá
sentir-se excitado com o sexo anal — obviamente, por ser gay ativo, não
consegue sentir nenhum desejo pelo corpo feminino, só tendo prazer através
dessa prática sexual, tendo, no caso, a fêmea ali despida e entregue a ele de
costas. Daí surge boa parte do desconforto que a obra transmite ao espectador, além
da polêmica subversiva por adentrar a um sexo mais selvagem e até masoquista do
casal.
Cinema marginal?
Indubitavelmente, "Paixão Selvagem" não é um
estudo sobre um romance de um homossexual com uma hétero, quem espera aqui um
traço profundo de envolvimento mais poético e sensível pode se frustrar. A
relação de dos dois é de uma frieza carnal absurda, selvagem e ríspida. Muitos
questionaram a intenção de Gainsbourg e sua provável falta de tato na maneira
como aborda o sexo e os diálogos dos dois, mas o cineasta decide aqui
investigar a problemática situação de um envolvimento sexual de duas pessoas
tão opostas e de perspectivas divergentes, mas em busca de um orgasmo mútuo. A
dificuldade de um homossexual sentir prazer através do sexo com uma mulher,
conceito tão abordado já em outros filmes, aqui ganha um contorno mais
apelativo já que o roteiro prefere permanecer na fissura do sexo anal —
diversas cenas onde Krassky tenta sodomizar Johnny em motéis precários, num
processo doloroso já que a moça sofre dores diversas e os gritos são
constantes, impossibilitando a consumação total e fazendo com que ambos sejam,
constantemente, expulsos dos locais por conta dos “barulhos e gritos” que
fazem. E, ironicamente, sentimos que a barreira para o casal viabilizar o amor
se condiciona neste aprendizado de coito tão difícil. De fato, é um filme que
trata o prazer de maneira mais árdua, cruel e brutal; talvez por isso muitos
considerassem a obra um tanto doentia. Não há um tom suave, nem muito menos
delicado na aproximação desses amantes.
Com uma premissa tão transgressora e marginal, além de um
senso de estética meio "suja" e underground, câmera na mão e cenas
onde os atores parecem improvisar — já que os diálogos são fluídos e carregados
de uma naturalidade informal —, este filme discute muito bem os traços dos
tabus da sexualidade colocando um casal tão improvável numa relação
provocativa. Há certos diálogos que beiram à vulgaridade por conta da
provocação articulada, mas não é algo que proporcione uma repulsa. Ademais, há
ainda espaço para mostrar questões que envolvem a homofobia — o namorado
enciumado de Krassky sofre violência física por parte de alguns moradores da
localidade — e indagações sobre o papel da submissão feminina.
Fica visível que Johnny se submete a uma transa desagradável,
a típica demonstração de mulher que aceita servir a um homem egoísta — já que
este só quer o sexo dessa forma, sem se preocupar com sua parceira. Mas, no
fim, o que fica mais nítido é que não há como sustentar uma relação se o sexo
não for tão primário e em sintonia, além de que o sentimento deve ser
privilegiado. O filme é objetivo, sem muitos adornos tanto na concepção
fotográfica quanto no aspecto do desenvolvimento narrativo, mas é eficaz no que
pretende: colocar uma relação tão rude e desprovida de delicadeza. O sexo aqui
é um elemento tão necessário, mas o que deixa rastros é como a humanidade ainda
sofre pela carência. Filme plenamente controverso, ousado e astuto.
Texto e imagens reproduzidos do site: lounge.obviousmag.org
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