Publicação compartilhada do site DIMITRE SOARES, de 17 de
janeiro de 2011
Isabela Boscov, a crítica que faz o cinema parecer simples
Por Dimitre Soares
Um dos meus sonhos (dentre muitos) é criar um Blog sobre
cinema, para fazer comentários de filmes e discutir ideias sobre a sétima arte!
Infelizmente, o acesso aos lançamentos na região nordeste não é tão bom como
deveria, e as obrigações e os compromissos do dia-a-dia não permitem tanto
tempo em frente da telona (ou da telinha com DVD). Enfim, sempre que sombra um
tempinho corro para os filmes, como terapia e instrução, e para as críticas de
Isabela Boscov nas páginas da Veja ou no videocast, para ir aprendendo sempre
um pouco mais até o dia em que tenha condições mínimas de colocar no ar um blog
sobre o assunto...
Bem, segue uma interessante intrevista com a Boscov, crítica
de cinema da Revista Veja publicada no site facasper.com.br
Boa leitura a todos!!!
Isabela Boscov, o cinema e o jornalismo
Semanalmente, as críticas de cinema de Isabela Boscov,
presentes nas páginas da revista Veja, são lidas por milhares de pessoas. Os
mais tecnológicos podem, ainda, conferir tais observações no videocast que ela
mantém em sua coluna no site da publicação. Apesar de bem humorada, Isabela
reconhece ser dona de uma personalidade forte e que insiste em seus objetivos.
"Quando trabalhei em jornal, eu sempre propunha pautas que tinham alguma
relação com cinema. Assim, aos poucos, fui mostrando a variedade e a importância
do tema", conta. Para Boscov "quem lê uma revista de atualidades é
uma pessoa que quer se sentir ao corrente do mundo em que ela vive. Ela quer
compreender o momento em que vive, assim como seu país e seu mundo".
Formada há 25 anos em Rádio e Televisão pela Universidade de
São Paulo, ela hoje é editora da seção Arte & Espetáculo da revista Veja.
Com passagens pela BBC, Jornal da Tarde, Folha de S.Paulo e revista SET,
Isabela destaca a importância de estar em uma redação e aprender a fazer jornalismo
na prática. "Aconselho a todos cobrir uma área que lhe é totalmente
diferente, mas que tenha alguma afinidade. É a melhor maneira de aprender
jornalismo", relata ela que trabalhou no caderno Ciência da Folha. Uma
experiência útil para ensinar "a ser bem humilde e assumir que você não
está entendendo nada", acredita. Ao longo da carreira, Isabela já
trabalhou em todas as áreas dentro de uma redação: repórter, revisora,
fechadora, editora-assitente, editora-adjunto e, finalmente, editora-chefe.
Se antes ela cabulava aula no colégio para ver os filmes dos
cinemas da região da Avenida Paulista, hoje, devido à profissão, ela vê, em
média, de oito a dez filmes por semana. Isabela vive em Nova Iorque para
facilitar o acesso aos filmes a serem lançados, premières e contato com este
universo tão vasto e rico nos Estados Unidos. Experiente, a jornalista já
entrevistou celebridades como Steven Spielberg, Harrison Ford, Mickey Rourke e
Clint Eastwood. Para ela, a paixão pela sétima arte foi despertada quando
assistiu ao filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, quando
tinha 13 anos, no cine Comodoro, na região central paulistana. "Era a
maior tela da América Latina. E a partir de então eu tive certeza de que era
aquilo que eu queria".
De volta dos Estados Unidos para reuniões sobre a revista, ela nos concedeu uma entrevista. Confira a seguir o que Isabela nos conta sobre a carreira, a crítica cinematográfica e muito mais.
Como foi o início da sua carreira como crítica de cinema na
Veja?
Eu sou super teimosa. Raramente bato de frente, só quando
precisa, mas normalmente o que faço é vencer as pessoas pelo cansaço. O fato é
que a Veja nunca tinha tido um crítico de cinema, alguém que realmente cobrisse
a área como prioridade, que tivesse tal incumbência. Todo mundo escrevia
crítica, fazia um pouco de música e de TV. Acho que com a minha teimosia acabei
ajudando... E o fato é que eu forcei a barra para fazer só cinema, cinema,
cinema. Só propunha pauta de cinema e, se me passavam outra, eu dava um jeito
de dizer "eu faço essa também, mas tem uma de cinema essa semana".
A Veja é considerada uma das maiores revistas do mundo em
termos de tiragem. Como é a sua relação, como crítica, com um público tão
grande e vasto?
A Veja tem um leitorado - o número de pessoas que lêem a
revista semanalmente, mas não a compram - de mais ou menos 8 milhões de pessoas
por semana. Esse é um universo incrivelmente abrangente. E eu diria que a maior
parte do público que compra a revista não é por causa de Artes e Espetáculos.
Essa é uma seção necessária, estratégica, mas eu diria que é óbvio que a maior
parte dos leitores tem interesse nos assuntos gerais em que a cobertura da Veja
é imbatível. Então, você tem que aprender a conversar com gente que não estava
nem um pouco interessada. Não é nem fazer com que mais pessoas que gostem de
cinema comprem uma revista de cinema. É fazer com que tenham algum interesse em
artes plásticas ou em televisão, ou cinema ou literatura, que leiam sobre esses
assuntos. Você tem que ganhar o cara toda semana, matéria a matéria. A minha
preocupação não era só tornar minha formação de cinema sólida, mas era também
nunca perder de vista que você tem que falar com muita gente. Você não pode
cuidar só de cinema, você tem que saber e cuidar de tudo. A minha maior
preocupação é fazer parte do mundo e não perder contato com ele. Não ficar
aquele diálogo com o próprio umbigo, com os outros críticos, com o pessoal que
compra tudo que sai sobre cinema mesmo.
Quais são suas preocupações ao escrever para o leitor da Veja,
então?
Não é um texto para um leitor especializado. Então, primeiro
a contextualização. Porque o fato de uma pessoa não dividir a mesma informação,
o mesmo repertório que você, não a torna menos inteligente, interessada ou
curiosa. Ela é um leitor tão bom quanto qualquer outro. Você também não quer
fazer com que essa pessoa se sinta idiota, na maneira que você explica as
coisas, simplesmente porque ela não sabe quem são os irmãos Dardenne, por
exemplo. Não há problema nenhum em não saber, por isso, tudo deve ser
contextualizado. O texto tem que ser elegante, agradável, claro e bem
estruturado; o uso do vocabulário tem que ser preciso e perfeitamente adequado,
mas pode-se levar ao refinamento. É possível usar uma palavra que não seja tão
comum. Você sempre pode juntar informações de uma maneira que os jornais não
fariam, porque eles basicamente cobrem agenda, que é o espaço para reflexão
neles. Juntar vários elementos de maneira surpreendente, não é a arena
principal do jornal, mas da revista. Tudo tem que está explicado, mas é preciso
tratar com respeito o leitor -respeito intelectual, inclusive. E, ao mesmo
tempo, sempre tentar ir um ponto adiante.
Como você vê a crítica atual?
Há críticos excelentes. Tem gente e veículos fazendo um
trabalho muito bom, mas acho que, no geral, é uma crítica extremamente viciada:
pra um lado ou pro outro. O primeiro vício é que não há como prever o gosto do
público. Por exemplo, afirmar que quem gostou de Shrek vai gostar de Como
treinar o seu dragão. Não há nenhuma relação para tal se afirmar isto, nem
mesmo o fato de ser um desenho. A facilitação estúpida de dizer que um filme é
legal ou não, sucesso de bilheteria americana, um sucesso ou uma chatice é mera
conversa de bar. Isso não é uma crítica.
Paralelamente a esse vício, existe o que é quase uma
necessidade do mercado, mas que eu, particularmente, acho pavoroso, que é a
cotação. É aquela estrelinha ou nota na qual se atribui a qualidade do filme.
Se for usar isto, então não há porque escrever um texto. Se você não tem nenhum
raciocínio ou reflexão a oferecer sobre aquilo, ok, então, coloca ali uma
estrela. Se você tem, então você está perdendo o seu tempo em juntar ao final
daquilo uma nota. Detesto a nota.
Um outro vício: você achar que está num debate intelectual com
o leitor. Obviamente, será apenas um leitor a cada cem em que isso vai
acontecer, satisfazendo a vaidade de quem escreveu. Isso faz os outros críticos
lerem o seu texto e dizerem "nossa, olha, como ela domina essa teoria,
esses fundamentos". Não é o objetivo da crítica.
Qual a sua relação com os outros críticos?
Críticos, às vezes, se provocam entre si, por intermédio das
prórpias críticas, o que eu acho um péssimo hábito. O leitor não tem nada a ver
com aquilo. Durante muito tempo rolaram tentativas de provocação. Então, toda
semana tinha uma pessoa que escrevia, o que obviamente eram iscas para tentar
me engajar num debate. Sempre ignorei solenemente. Para isso existem debates em
eventos culturais, o café na saída da cabine, a troca de e-mails, telefonema.
Tem mil maneiras de você ter esse diálogo. Ou você pode pegar um ponto que foi
levantado por um outro crítico e discutir ele na sua crítica. É possível até
dizer que estou discutindo um ponto que foi levantado por determinando critico,
em jornal ou revista, e explicar porquê discorda de tal ponto de vista. Agora,
cotoveladas em textos eu acho desrespeitoso com o leitor. Mas tem muita
conversa entre críticos, às vezes, bem humorada, elegante, que não interfere em
nada na comunicação com o leitor. Tenho ótimos amigos. A gente pode discordar
frontalmente e não tem o menor problema. Tenho muitos amigos em cabine - mesmo,
é super gostoso. Você chega e fala-se de tudo, não só de cinema, felizmente.
O que determina se o próximo filme vai ser pautado na Veja?
Primeiro ponto é ver se ele rende assunto e se dele dá para
puxar algum ponto interessante para ser abordado. Não nos orientamos por
mercado e bilheteria. Fúria de Titãs, por exemplo, foi uma estréia enorme, mas,
ao meu ver, não apresenta nada que valha uma página da Veja - que é uma coisa
valiosa. Outro ponto a se considerar é a expectativa do leitor. Um exemplo é o
filme Exterminador do Futuro, A Salvação. Na minha opinião, é um filme fraco em
vários sentidos. Ele tem algumas coisas interessantes, mas é o tipo de filme
que eu poderia ter comentado só no meu videocast. Contudo, há a expectativa do
leitor para que ele seja comentado, pois os dois primeiros filmes foram muito
bem aceitos pelo público; o terceiro foi uma bomba. Então, o leitor quer saber
se o quarto filme, que tem a produção mais luxuosa e a atuação do Christian
Bale, vale a pena, se estragaram uma coisa de que ele gostava.
Então, as grandes estréias têm mesmo preferência?
Este tipo de expectativa é outra historia. Às vezes é um
lançamento é pequeno, mas a gente dá a ele muito espaço, como o filme polonês
Katyn, de Andrzej Wajda. Entrou em cartaz em poucos cinemas - dois em São
Paulo, um no Rio de Janeiro e outro em Porto Alegre. Foi um lançamento bem
limitado, mas demos quatro páginas pro filme. O critério é: vai ser
interessante pro leitor? Mas há todas as variáveis, a maneira de interpretar o
que é interessante ou não pro leitor, o que é, obviamente, julgado em cada
pauta.
Como é entrevistar personalidades famosas de Hollywood, como
Steven Spielberg?
Por temperamento, eu nunca fui uma pessoa de ficar
suspirando "ai meu Deus". Mas até hoje tem uma pessoa com quem eu
fiquei o tempo todo pensando "eu não acredito que eu tô aqui, isso é bom
demais". Foi o Clint Eastwood. Eu fiquei as três horas que eu passei
conversando com ele pensando "estou falando com o Clint Eastwood".
Com o Spielberg também foi uma conversa deliciosa, a gente tinha mil coisas em
comum: "Ai, você notou isso? Ai, que legal; adoro quando as pessoas notam
porquê sou super fã desse filme, ai, eu também acho um máximo". Não é uma
pessoa maior que você e isso é ótimo. Significa que vocês podem conversar de
igual pra igual.
Normalmente algumas pessoas são realmente, extremamente
interessantes, muito mais que a média das pessoas e eu diria que o Clint
Eastwood é uma dessas. Um monumento, né? Não é só um cara. Eu sempre tento
fazer a melhor entrevista possível, o que significa uma pré-apuração muito
extensa, você se informar sobre a pessoa, ler muitas entrevistas que foram
feitas ao longo dos anos. Quanto mais você consegue tirar uma pessoa da
monotonia de dar entrevista - para essas pessoas é um ambiente monótono, elas
dão 200 entrevistas por ano e o tempo todo elas ouvem as mesmas perguntas -
quanto mais você conseguir chacoalhar a pessoa e fazer uma pergunta que não
estivesse no programa, melhor vai ser o seu resultado.
O que você acha da formação em jornalismo?
Jornalismo é uma questão de feeling: você tem que estar todo
dia ali, em a. Espero que o fim da obrigatoriedade do diploma ajude a corrigir
essa discrepância [entre mercado e meio acadêmico], que você não tenha mais que
ensinar "o que é...?", mas que você procure dar essa formação mais
abrangente de que o jornalista precisa no dia a dia dele. Existe uma defasagem
muito grande, uma distância. Às vezes o professor saiu da redação há muito
tempo e perdeu o feeling. A formação é o patrimônio que vocês trazem com vocês,
é o que tornam vocês diferentes de todo mundo. É impossível exagerar quanto à
importância que ela vai ter na vida profissional, na vida de vocês. Pode ser
que nem todo mundo perceba a diferença que isso está fazendo, mas sempre vai
haver um ou outro bom editor que vai notar e falar "espere, essa aqui eu
não vou deixar passar". A gente precisa de muita sorte na vida, mas um
empurrãozinho ajuda também!
Texto e imagem reproduzidos do site: dimitresoares.com.br

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