Artigo compartilhado do BLOGS GETEMPO, em 23 de setembro de
2021
Doutoranda em História Comparada pela Universidade Federal
do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ)
Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente da
Universidade Federal de Sergipe (GET/UFS/CNPq)
Orientador: Dr. Dilton C. S. Maynard (DHI/ProfHistória/UFS –
PPGHC/UFRJ)
MAYNARD, Andreza Santos Cruz. De Hollywood a Aracaju:
antinazismo e cinema durante a Segunda Guerra Mundial. Recife: EDUPE, 2021.
“Que sabe você dos perigos que ameaçam o Brasil?? Dos
perigos que rondam o seu lar… e que ameaçam a sua segurança pessoal e dos entes
que lhe são caros? (…) Confissões de Um Espião Nazista, o filme que Hitler
daria tudo para destruí, lhe explicará muita coisa que você ignora”. Em 11 de
setembro de 1942, o jornal Folha da Manhã anunciava à população aracajuana a
estreia do primeiro filme de propaganda antinazista hollywoodiano a ser
projetado em um cinema da cidade. Dali até o ano de 1945, os frequentadores dos
cinco espaços de exibição que funcionavam na capital de Sergipe assistiriam a
uma série de longas-metragens produzidos pela principal indústria
cinematográfica do período, que traziam em seus enredos uma contundente
propaganda contra o regime nazista. Além do lazer, a veiculação desses filmes
serviria para que o público criasse uma memória pública sobre a Segunda Guerra
Mundial (1939-1945) e seus principais participantes.
Quem nos conta essa história é a Dra. Andreza Santos Cruz
Maynard, em seu mais novo livro: DE HOLLYWOOD A ARACAJU: antinazismo e cinemas
durante a Segunda Guerra Mundial. A obra é fruto das pesquisas que Maynard
desenvolveu ao longo do Doutorado e do Pós-Doutorado em História e está
estruturada em quatro capítulos. No primeiro, nomeado Aracaju sob o impacto da
Segunda Guerra Mundial, ela incialmente nos conduz em um passeio pela Aracaju
das décadas de 1930 e 1940, apresentando-nos espaços comerciais e de lazer,
festas, profissões, religiões e hábitos do povo aracajuano para, em seguida,
explorar como a pacata capital foi atingida diretamente pela II Guerra, em
detrimento dos torpedeamentos cometidos pelo submarino alemão U-507 aos navios
brasileiros Baependy, Aníbal Benévolo, Araraquara, Itagiba e Arará, na costa
entre os estados da Bahia e de Sergipe. O episódio, que serviu de estopim para
a entrada do Brasil no conflito, também trouxe diversos impactos ao cotidiano
de uma cidade que, diante das dificuldades enfrentadas, pôde contar com cinco
importantes espaços para a diversão da sua população: os cinemas.
Que cinemas eram esses? A quem pertenciam? Onde estavam
localizados? Quais os seus aspectos estruturais? Quanto cobravam pelos
bilhetes? Qual o seu público frequentador? O que exibiam e em quais horários?
Quais problemas enfrentavam? Essas são algumas perguntas respondidas ao longo
do segundo capítulo; Os cinemas em Aracaju durante as décadas de 1930 e 1940,
no qual Maynard realiza uma análise minuciosa sobre o Rio Branco, o Rex, o
Guarany, o São Francisco e o Vitória, cinemas que funcionaram de forma regular
em Aracaju ao longo da II Guerra. Ocupando as “Cadeiras” ou as “Gerais”,
dezenas de pessoas encontravam nesses ambientes uma oportunidade para
distraírem-se e informarem-se sobre o conflito. Mas, antes de chegar às telas,
todo o conteúdo exibido passava pelo crivo da censura que operava no período.
No terceiro capítulo, a autora nos mostra como a atuação de
órgãos vinculados ao Estado Novo (DIP e DEIP), responsáveis pela censura aos
meios de comunicação (cinema, rádio, imprensa, teatro), interferiu diretamente
na programação dos cinemas aracajuanos ao longo da guerra, devido à mudança de
posicionamento do Brasil. Quando encerrou o período de neutralidade, em janeiro
de 1942, rompeu com o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) e alinhou-se totalmente
ao bloco Aliado (EUA, Inglaterra e França), o governo brasileiro também mudou
sua postura com relação aos filmes, em especial àqueles que faziam propaganda
contra o nazismo. Quem muito ganhou com isso foi Hollywood, que vinha
produzindo esse tipo de película desde 1939 e naquele momento, finalmente,
podia contar com o mercado consumidor brasileiro.
Desse modo, no quarto e último capítulo, intitulado Cartaz
de hoje: filmes antinazistas em Aracaju, Maynard se dedica a examinar que
filmes eram esses. De forma mais detalhada, ela realiza uma análise de
Confissões de um espião nazista, o primeiro desse tipo a ser exibido em
Aracaju, como mencionado anteriormente. Em seguida, segue investigando os
outros 16 longas-metragens antinazistas hollywoodianos projetados em 1942,
1943, 1944 e 1945.
Escrito com muito rigor científico, DE HOLLYWOOD A ARACAJU:
antinazismo e cinemas durante a Segunda Guerra Mundial apresenta-se como uma
importante contribuição para a historiografia sergipana e brasileira. A obra
chega num momento em que as produções acerca da propaganda antinazista norte-americana
e sua atuação no Brasil durante a II Guerra ainda são escassas, o que a torna
uma referência no assunto; trata-se, ademais, de um estudo pertinente sobre a
história de Aracaju e sobre os cinemas aracajuanos entre as décadas de 1930 e
1940. Cabe ressaltar, ainda, o cuidado da autora em escrever um livro com uma
linguagem simples, o que o torna acessível tanto às/aos
historiadoras/historiadores quanto a todas e todos que se interessem pelos
temas que o envolvem.
Texto e imagem reproduzidos do site: infonet.com.br/blogs

Nenhum comentário:
Postar um comentário