Artigo compartilhado do site FAXAJU, de 19 de janeiro de 2026
Coisas de cinema: O tarzan que mudou a vida de Benjamim de Souza Alves
Por Carlos Modesto *
O cinema seduz o menino Benjamim
Nos anos de 1930, o cinema continuava sendo o melhor entretenimento que a humanidade tinha para apaziguar os dramas da vida, aliviar as dores e alegrar os momentos tristes de cada um. Seus filmes empolgavam as massas de qualquer país, a fazendo sonhar com as películas de faroeste, aventura, drama e os famosos seriados. Um tipo especial de filme fez as crianças de todo mundo sonharem com o personagem de Edgard Rice Burroughs: Tarzan.
Nesse marcante ano de 1935, com a idade de 12 anos, na véspera da tradicional festa do Bonfim que geralmente ocorria no último sábado do mês de janeiro, na capela e no largo do bairro do mesmo nome, o menino Benjamim foi aos festejos, acompanhado de uma vizinha, amiga da sua mãe. Num certo momento, a senhora largou a mão do Benjamim e o menino saiu em disparada pela beira do rio Piauítinga, indo direto para o Cinema São João, que ficava na Rua Capitão Salomão, no centro da cidade, local de entretenimento predileto da gurizada e que lhe havia aguçado a curiosidade, sem saber que ali marcaria para sempre o seu destino. Chegando à casa de espetáculos. Adquiriu o ingresso por 500 réis – que sua mãe lhe dera para comprar doces. Dentro do cinema, o adolescente ficou logo encantado com as imagens do filme que viu. O título eraTarzan, o filho das selvas, (MGM. 1932) com o inesquecível ator e ex-campeão olímpico mundial de natação Johnny Weissmüller (1904-1984), o mais famoso Tarzan da tela. O cinema o seduzira, apaixonou-se imediatamente pela Sétima Arte. Quando a projeção terminou, Benjamim despertou para a realidade e ficou pensando o que iria encontrar em casa, pois já era, mais ou menos, nove e meia da noite. Ao chegar, viu sua mãe aflita, chorando muito. Assim que ela o avistou, foi logo pegando uma corda e deu-lhe uma tremenda surra. Naquela noite, o menino não conseguiu dormir, pensando no filme e na surra que levou. As marcas deixadas em seu corpo e o sofrimento do castigo bem que valeram pela alegria que havia sentido durante a beleza da projeção do filme assistido. Tudo isso tinha acontecido num sábado, que jamais foi esquecido.
No dia seguinte pela manhã, Benjamim foi ao São João para ver se encontrava o seu par de tamancos que havia esquecido na geral do cinema. Por sorte, encontrou a casa de diversão aberta com um rapaz apelidado de João Barriga, varrendo o salão que logo encontrou seus tamancos devolvendo-os e depois indagou-lhe se ele gostava de cinema, Benjamim respondeu afirmativamente.
O rapazola perguntou=lhe se haveria alguma possibilidade de ele varrer o cinema para entrar gratuitamente. “Deixo! Disse João”. Benjamim, imediatamente, pediu a vassoura, Nisso. chegou um homem magro de estatura mediana, para conversar com o João Barriga, e depois foi embora. Benjamim, com sua curiosidade infantil, procurou saber quem era aquele homem, e João respondeu que era o Sr. Diógenes, o proprietário do cinema. Já era meio-dia quando o adolescente terminou de varrer o cinema. Ao sair, falou ao João que retornaria pela tarde para rever o filme de Tarzan que ele havia visto na noite anterior. Ao chegar à casa, sua mãe estava novamente zangada, Benjamim contou-lhe o ocorrido e ela então o deixou ir à matinê.
Todos os domingos, o rapazote ia varrer o salão do cinema e, como de costume, o Sr. Diógenes comparecia para conversar com o João Barriga. Num certo domingo, e vendo sempre aquele rapazola varrendo o interior do cinema, Diógenes aproximou-se dele e questionou-lhe se trabalhava e de quem era filho, recebendo a resposta de que era empregado do comerciante árabe Abdon Uehbe e que seu pai era o Sr. Benício, funcionário da Prefeitura. Então, Diógenes convidou-o para empregar-se em seu estabelecimento de secos e molhados e como bilheteiro do cinema, Benjamim respondeu euforicamente “sim!” Diógenes orientou para que o procurasse no dia seguinte. Transbordando de alegria, o adolescente foi imediatamente contar aos pais a proposta de Diógenes. Nesse mesmo domingo, acompanhado do seu genitor, foi até a residência do Sr. Abdon para conversar e agradecer-lhe pelo tempo que seu filho ficou empregado na sua loja. Na segunda-feira, Benjamim começou a trabalhar no empório do Sr. Diógenes durante o dia e. à noite, ia para a bilheteria do cinema vender ingressos.
A cabine do cinema era o seu sonho de um dia ser operador
Os dias ia passando, e o adolescente ficava sempre com a mente no aparelho de projeção, a última peça da “fábrica dos sonhos”. Numa certa noite, ao fechar a bilheteria e após a prestação de contas de umasoirée, a curiosidade era tanto que subiu a cabine de projeção para pedir ao operador, seu colega e amigo João de Deus Pitangueira Vilanova – que foi responsável pela projeção do Cinema São João durante muitos anos – para mostrar-lhe como se projetava um filme. Assim sendo, durante as sessões de cinema, Benjamim subia à cabine, para observar todas as engrenagens do projetor cinematográfico, estudando, minuciosamente, o trajeto da película, saindo do carretel superior, passando pela janela em posição invertida (o que intrigava o adolescente), para depois ser puxada pela cruz de malta e estabilizada pelos debitadores (roletes guias) até chegar ao carretel inferior. Treinou, paciente e apaixonadamente, na colagem da fita partida e no enrolar e desenrolar das partes dos filmes, cujo domínio da técnica suplantou depois a do mestre João de Deus Pitangueira. O discípulo sempre recordou com carinho e gratidão o empenho paciente desse grande operador e amigo que foi o professor que lhe ensinou a técnica cujo conhecimento foi para ele motivo de orgulho até o final de sua vida.
O nascimento da técnica
Em 1937, Benjamim já com 14 anos. Numa noite de domingo, o Cinema São João estava superlotado e o projecionista João de Deus faltou ao serviço. O Sr. Diógenes, bastante nervoso, colocando as mãos na cabeça, andava de um lado para o outro, sem saber o que fazer, vendo chegar a hora para o início da projeção. Diante do apavoramento do patrão, Benjamim aproximou-se dele e falou:
– Sr. Diógenes, faça o favor!
– Diga, Benjamim…
– Bote seu amigo Zico pra ficar na bilheteria que eu vou passar o filme.
– Benjamim, você é doido? Você conhece desse negócio?…
Após explicar ao chefe o que acontecia todas as noites, os dois subiram até a cabine e o filme foi projetado com a maior perfeição. Benjamim recebeu do Diógenes um enobrecedor agradecimento e a promessa no futuro, de ser adquirido outro aparelho para ele tomar conta, pois naquele tempo, só existia um projetor e as sessões eram paralisadas para a troca dos rolos dos filmes. Quatro anos depois, em 1941, Diógenes cumpriu o prometido, comprando uma nova máquina. A antiga ficou com João de Deus e a nova com Benjamim. Este naquele momento, deixou de ser bilheteiro e foi oficializado na profissão de operador cinematográfico. Tinha 17 anos de idade.
A partir dessa data o Benjamim continuou trabalhando no Cinema São João até o seu final como casa de diversão. O cinema foi vendido várias vezes, novos donos foram substituídos e o operador continuou fiel a esse salão de projeção se tornando o maior projecionista de cinema da Estância.
Johnny Weissmüller foi o incentivador que motivou Benjamim
Benjamim foi incentivado a trabalhar no cinema quando viu pela primeira vez o ator Johnny Weissmüller no filmeTarzan, o filho das selvas. Ele foi um nadador olímpico americano de origem austro-húngara que se tornou famoso no cinema ao interpretar o papel de Tarzan em 12 filmes da MGM e RKO Pictures. Depois, também fez o papel na série de filmes de “Jim das Selvas” para a Columbia Pictures.
Muitas coisas, teria a contar sobre a vida desse magistral operador cinematográfico, mas devido ao espaço curto para uma crônica paro aqui, sendo o motivo principal desta matéria
contar apenas a sua entrada no mundo do cinema. Benjamim Alves de Souza deu seu alento final em 28 de novembro de 2017, deixando-nos uma saudade imorredoura.
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* Carlos Modesto é ceneasta, memorialista, escritor, autor dos livros: Sombras da Saudade, A História dos Cinemas da Cidade de Estância; Com Mota, a Bahia Era Uma Festa, entre outros.
Texto e imagem reproduzidos do site: www faxaju com br

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