Legenda da imagem F/1: O ator Orlando Vieira: "Tive uma
passagem que me deu glória, o mundo artístico me deu muito prazer" (Crédito
da foto: Rose Garcia)
Legenda mosaico fotográfico F/2 - Cenas de Orlando com Lima Duarte, Selton Melo, e
interpretando Dona Carmela Fotos: acervo pessoal
Publicação compartilhada do site SÓ SERGIPE, de 1 de agosto de 2021
Entrevista - “Não tenho complexo de velhice, de jeito
nenhum”, garante o ator sergipano Orlando Vieira
Por Antônio Garcia
Na última segunda-feira, 26 de julho, o ator sergipano
Orlando Vieira completou 90 anos de vida e deixou claro que não tem “complexo
de velhice, de jeito nenhum”. Com uma vida dedicada ao cinema brasileiro, ao
desenho topográfico e à maçonaria, Orlando segue a vida tranquilamente na
residência, no bairro Atalaia.
“Agora só fico em casa, haja vista que a idade é que dá essa
condição. São mais de 90 anos, porque já passou”, disse referindo-se à contagem
dos dias pós 26 de julho, quando fez aniversário. Ciente das limitações
impostas pela idade e pelos anos de trabalho, Orlando reconhece que sua memória
não é mais a mesma. É capaz de lembrar com exatidão alguns fatos passados, mas
facilmente se esquece de situações vividas há poucas horas. “Essa nossa
conversação, daqui a 10 ou 15 minutos, se me perguntarem o que contei a você,
não lembro, pois perdi a capacidade de memorizar”, reconhece.
É bom lembrar que na segunda-feira, Orlando recebeu um
abraço simbólico promovido pela Sociedade de Cultura Artística de Sergipe (SCAS)
e pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos do Estado de Sergipe
(Sated), com o apoio da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju). O ator
se consolidou como um dos grandes nomes do cinema sergipano e nacional com
participações de destaque em filmes como “Quem matou Pixote?”, “Narradores de
Javé”, “Aos Ventos que Virão” e a produção sergipana “A Última Semana de
Lampião”.
No final da tarde da quarta-feira, o Só Sergipe foi
conversar com Orlando Vieira. Cuidadoso, ele guarda um acervo com reportagens,
relação dos filmes (as longas e as curtas metragens), e colocou todo esse
material numa mesa redonda. O saudosismo tomou conta daquele final de tarde,
quando Orlando relembrou alguns filmes, contou histórias, e em alguns momentos
a mente lhe pregava uma peça e esquecia do que estava falando. Sem problemas
para um mestre, que memorizou as falas em 15 filmes, três trabalhos na Rede
Globo, sendo o primeiro ator sergipano a chegar à Vênus Platinada em Irmãos
Coragem e Tereza Batista, e algumas peças de teatro.
Um dos filmes mais famosos de Orlando foi Sargento Getúlio,
em 1983, contracenando com Lima Duarte,
mas também trabalhou com Selton Melo, José Dumont, dentre outros atores. Ainda
em 1983, ele conquistou o Troféu Kikito, no Festival de Gramado, um dos mais
importantes do cinema nacional. O troféu está num local de destaque em sua
residência. Outro filme que Orlando se recorda é Dona Carmela, quando
interpretou a personagem principal. “Ela [Dona Carmela] era uma mulher idosa,
inteligente, uma atriz. Me saí bem e eles gostaram”, disse, mostrando uma
reportagem antiga de um jornal do Ceará. O filme foi dirigido por Iziane
Mascarenhas, com quem Orlando também tirou uma foto.
Orlando não esquece, também, seu ingresso na Maçonaria sergipana. Ele faz parte dos quadros da Loja Simbólica Clodomir Silva e foi iniciado em 17 de maio de 1975. Hoje, lamenta não poder mais participar, não só pelo cansaço físico que o acomete, mas também porque esquece rapidamente as conversas. “Não fui mais à Maçonaria porque não tenho condições. Hoje não memorizo as coisas com facilidade ou sem facilidade”, reconhece. Orlando Vieira nasceu em Capela em 1931, filho de João Francisco Santos e Plácida Vieira Santos, mas não teve a oportunidade de conhecê-los. Quando tinha seis meses de vida, seu pai trabalhava numa usina de açúcar em Capela e caiu no tacho de mel fervente, passou alguns meses sendo cuidado e depois morreu. Seis meses após a morte de João, a sua mãe Plácida também morreu de tristeza com a ausência do marido.
Criado pelos padrinhos de batismo, chegou a ir para o
seminário para tornar-se padre, mas viu que aquela não era a carreira que
desejava. A Igreja Católica perdeu um padre, mas o cinema e a cultura
brasileira ganharam um excelente ator, que empresta o seu nome, desde 2006, ao
Núcleo de Produção Digital, numa iniciativa do prefeito Edvaldo Nogueira, em
seu primeiro mandato.
Agora, leia a entrevista com Orlando Vieira. Com certeza,
você vai se emocionar.
SÓ SERGIPE – Como nasceu essa vontade de ser ator?
ORLANDO VIEIRA – Eu trabalhava no Departamento Nacional de
Estradas de Ferro, como funcionário permanente, em Recife e lá, na convivência
com o pessoal, na Escola de Belas Artes, eu gostava muito de uma cervejinha e
era procurado para dialogar, fazer brincadeira e aí pegou. Eles diziam:
‘Orlando é um artista’.
SÓ SERGIPE – Por onde o senhor trabalhou antes de ir para
Recife, e como aconteceu o retorno para Sergipe, o Estado onde o senhor nasceu?
ORLANDO VIEIRA – Eu antes trabalhei também no Departamento
Nacional de Estradas de Ferro, no Piauí, depois fui para a Bahia, Rio Grande do
Norte e depois para Recife. Posteriormente vim para Sergipe.
SÓ SERGIPE – E aqui em Sergipe, o senhor continuou na mesma
empresa?
ORLANDO VIEIRA – Não, eu fui para o Departamento Nacional de
Estradas de Rodagem (DNER) e trabalhei muito tempo com levantamento topográfico
e desenho técnico. Eu gostava de fazer desenho técnico e passei muito tempo por
lá, até que comecei a cansar e cheguei a essa condição de esquecimento, que
você está vendo agora, uma série de coisas. O tempo que eu estava na Maçonaria
estava beleza, até falava grosso (rs).
SÓ SERGIPE – Lembro do senhor na Loja Macônica como mestre
de cerimônia.
ORLANDO VIEIRA – Verdade. Comecei a me cansar das pernas, da
cabeça, o coração não está muito bom, mas estou levando, levando, sem saber. A
gente nunca sabe o final, o futuro, e vai levando aí. Agora sem uma vida mais
normalizada como era antes. Eu saía, ia à Maçonaria, ao comércio. Agora só fico em casa, haja vista que a idade
é que dá essa condição. São mais de 90 anos, porque já passou. Cansa e cansa
mesmo, você tem que aceitar as condições. Eu não tenho complexo de velhice, de
jeito nenhum. Tem dias que estou mais na ativa, mais disposto, vou dar algumas
voltas e minha mulher fica preocupada. Na Maçonaria não fui mais porque não
tenho condições. Hoje não memorizo as coisas com facilidade ou sem facilidade.
Essa nossa conversação, daqui a 10 ou 15 minutos, se me perguntarem o que
contei a você, não lembro, pois perdi a capacidade de memorizar. Paciência, tem
que ficar em casa mesmo. E mais uma: dou
para mim mais esse resto de ano e possivelmente o próximo, mas não é para tanto
não. Eu sei, me conheço. A gente conhece
nosso organismo, mas sempre tem a surpresa. Demora mais, espera mais, tem mais
disposição. Mas estou na linha final. Passei da curva, tem uma reta que eu não
vejo o final dela. É a vida. É se sentir feliz, satisfeito pelo que fez.
SÓ SERGIPE – A sua passagem no cinema foi marcante, não é
verdade?
ORLANDO VIEIRA -Sim, tive uma passagem que me deu glória, o
mundo artístico me deu muito prazer. Teve o tempo de Maçonaria, mas hoje para
mim é cansativo. E não dá. O que fazer? Esperar dentro destes 90 anos qual é a
possibilidade de demorar mais ou não.
SÓ SERGIPE – O que o senhor lembra de sua história no cinema
brasileiro?
ORLANDO VIEIRA – Quando vim embora de Recife para Aracaju,
isso foi em 1969, pois as situações passadas tenho gravadas na cabeça. Fiz
muito pouco teatro, mas cinema fiz muito: foram 15 longas e lembro os mais
antigos.
SÓ SERGIPE – Mas como foi o convite para fazer o primeiro
filme. Quem fez, surgiu como?
ORLANDO VIEIRA – Foi Ipojuca Pontes. Ele veio a Sergipe
fazer um filme, cujo nome esqueci, e me convidou para fazer um papel de
caminhoneiro, indo de Aracaju até Laranjeiras pela BR. Topei e fiz. Esqueci o
nome do filme.
SÓ SERGIPE – Mas como o Ipojuca chegou até o senhor?
ORLANDO VIEIRA – Em Recife fiz teatro, onde fui premiado
como melhor ator coadjuvante, depois como melhor ator de Pernambuco. E quando
pedi transferência para Sergipe, porque estavam fechando o departamento de
ferrovia por lá, o Ipojuca veio e conversou comigo.
SÓ SERGIPE – Destes tantos filmes, há alguns que mais
emocionaram o senhor?
ORLANDO VIEIRA – O Guerra de Canudos foi o que me prendeu,
me chocou mais. Narradores de Javé, filmado no sertão da Bahia, eu gostei. Foi com José Dumont. Sargento Getúlio também
foi muito bom, uma série deles aí.
SÓ SERGIPE – O senhor chegou a fazer novela?
ORLANDO VIEIRA – Fiz só um pedaço de Tereza Batista. Mas
depois só cinema, e fiz uma porção
deles. (Ele depois se lembrou de Irmãos Coragem da Rede Globo.)
SÓ SERGIPE – Foi uma carreira vitoriosa?
ORLANDO VIEIRA – No cinema posso concluir que tive. Na
televisão um pouco e no teatro foi quase nada. No cinema filmei em Fortaleza,
Rio de Janeiro, só para citar alguns. Aqui em Aracaju foram dois filmes,
Meninos Marcados para Morrer, e qual mais? Não me lembro.
SÓ SERGIPE – Em Dona Carmela, o senhor interpretou uma
mulher. Foi uma experiência boa?
ORLANDO VIEIRA – Foi uma aventura. Meu primeiro papel para
interpretar uma mulher idosa, muito inteligente e atriz. E eu disse: vou topar.
Dirigido por Iziane Mascarenhas, rodado em Fortaleza. Me saí muito bem e eles
gostaram.
SÓ SERGIPE – Destes atores que contracenaram contigo, a exemplo de Lima Duarte, Selton Melo, José Dumont, alguns mantêm contato?
ORLANDO VIEIRA – Não. Há um ano, tive contato por telefone
com Dumont. Depois, nenhum deles veio para cá fazer algum filme e houve uma
separação total entre mim e eles.
SÓ SERGIPE – O senhor assiste a filmes?
ORLANDO VIEIRA – Assisto pouco, pois me canso logo. Quando
sei o enredo, paro e não vejo mais. Dos filmes que eu fiz e emprestei a cópia a
colegas, amigos, estudantes, não devolveram.
Texto e imagem reproduzidos do site: sosergipe.com.br




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