Publicado originalmente no site da revista GALILEU, em 30 de
julho de 2021
O que é a Cinemateca Brasileira e por que seu acervo é tão
precioso
No quinto incêndio registrado na história da instituição,
fogo em galpão na zona oeste de São Paulo destruiu parte do arquivo de antigos
órgãos da produção audiovisual nacional
Por Beatriz Gatti *
Atingida por um incêndio na noite desta quinta-feira (29), a
Cinemateca Brasileira registra o quinto episódio de destruição de arquivos pelo
fogo desde sua origem, em 1940. Desta vez, as chamas afetaram um galpão situado
na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, mesmo local que em fevereiro de
2020 sofreu com um alagamento que estragou fotografias, livros e folhetos.
Em 2016, a instituição havia registrado outro incêndio em
sua sede, na Vila Mariana, em que materiais equivalentes a 731 obras foram
perdidos. Além das duas ocasiões, os anos de 1957, 1969 e 1982 também ficaram
marcados pelo fogo nas instalações do acervo.
Estabelecida inicialmente como um Clube de Cinema de São
Paulo pelo historiador Paulo Emílio, a Cinemateca chegou a funcionar como uma
filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e tornou-se um órgão
independente voltado à conservação de filmes no início dos anos 1960.
Em 1984 foi incorporada à Fundação Nacional Pró-Memória e,
quatro anos depois, finalmente se instalou na zona sul da capital paulista,
onde funcionara um antigo matadouro da cidade. Hoje os edifícios da Cinemateca
Brasileira na Vila Mariana são tombados como patrimônio histórico cultural da
cidade e do estado de São Paulo.
Com o maior acervo audiovisual da América do Sul, a instituição é a principal responsável pela preservação do patrimônio do cinema brasileiro, incluindo cerca de 250 mil rolos de filmes e mais de 1 milhão de documentos, como roteiros, cartazes e livros, referentes às mais diversas obras.
O incêndio desta semana atingiu uma das instalações em que ficavam armazenados cópias de filmes, equipamentos de cinema e fotografia, além de um acervo do cineasta Glauber Rocha. O galpão também preservava toneladas de arquivo sobre políticas públicas para o audiovisual, incluindo documentos do Instituto Nacional do Cinema (INC) e do Conselho Nacional de Cinema (Concine).
"É como se, de repente, você queimasse todo o arquivo do Ministério da Economia de 1950 pra frente. Não tinha só 'coisa para pesquisador'. Eram todos os dados que a gente usa", lamentou Francisco Martins, diretor da Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e integrante do SOS Cinemateca, ao G1. Alguns dos objetos seriam usados em breve para montar um museu sobre o cinema nacional.
A estimativa dos bombeiros é de que três salas de acervo de filmes e arquivos impressos tenham sido destruídas no primeiro andar. No térreo, uma grande parte do acervo histórico não foi atingida, segundo informou a capitã dos bombeiros, Karina Paula Moreira, à GloboNews.
Tragédia anunciada
Em 20 de julho, nove dias antes do incêndio, o Ministério Público Federal (MPF) havia alertado o governo federal sobre o risco de fogo tanto nos galpões da Vila Leopoldina quanto na sede da Cinemateca, na Vila Mariana. A declaração foi dada em uma audiência no contexto da ação que o MPF move contra a União há pouco mais de um ano por abandono da instituição.
Incorporada desde 2003 à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (hoje, Secretaria Especial da Cultura), a Cinemateca passa por problemas administrativos pelo menos desde o fim do contrato firmado entre o governo federal e a Associação Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), em dezembro de 2019.
Funcionários da Acerp, na verdade, seguiram trabalhando na Cinemateca até julho de 2020, quando o governo assumiu a gestão após o secretário da Cultura, Mario Frias, ter solicitado que a associação entregasse as chaves das instalações.
Mas até agora, nenhuma licitação havia sido estabelecida para escolher um novo gestor para a instituição. Por isso, o MPF pediu que a justiça determinasse a renovação urgente do contrato com a Acerp, destacando que a Cinemateca estava abandonada, com atrasos nas contas de água e luz, falta de vigilância e risco de incêndio — que se consumou.
Segundo o corpo de bombeiros, o fogo teve início durante a manutenção do sistema de ar condicionado realizada por uma empresa terceirizada. Como os rolos de filme são compostos por materiais altamente inflamáveis — à base de nitrato de celulose — as condições de armazenagem devem ser sempre acompanhadas por equipes técnicas.
“Você tem pessoas que monitoram o grau de umidade e a temperatura das câmeras”, havia dito o coordenador do SOS Cinemateca, Roberto Gervitz, em agosto de 2020. “Sem os funcionários torna-se muito perigoso deixar a Cinemateca funcionando somente com os serviços básicos”, comentou Gervitz em entrevista à TV Globo, na época da demissão dos funcionários da Acerp.
Para o secretário de Cultura e Economia Criativa de São Paulo, Sergio Sá Leitão, a instituição teve o contrato de sua gestão interrompido sem nenhuma justificativa por parte do governo federal. “O incêndio no galpão da Cinemateca Brasileira é a crônica de uma tragédia anunciada”, escreveu no Twitter.
Antes do incêndio, o governo havia se comprometido a mostrar providências para a preservação do patrimônio, o que levou o MPF a suspender a ação em maio deste ano e dar um prazo de 45 dias para o poder público agir. No início de julho, algumas medidas foram implementadas, enquanto outras ainda estavam em andamento, e o governo ganhou mais 60 dias para manter o combinado e o processo suspenso.
Em nota, a Secretaria Especial da Cultura informou que o sistema de climatização passou por manutenção há um mês com o objetivo de manter o acervo da Cinemateca. Também afirmou, na noite desta quinta-feira (29), que havia solicitado apoio à Polícia Federal para investigar as causas do incêndio e, após seu controle total, poderia estimar as “ações necessárias para uma eventual recuperação do acervo”.
Nesta sexta-feira (30), a pasta publicou um edital de chamamento público para um novo gestor da entidade.
*Com supervisão de Luiza Monteiro
Texto e imagens reproduzidos do site: revistagalileu.globo.com



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